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Tragédia inspiradora

O confronto entre Zâmbia e Senegal, que fechava o dia de abertura da CAN 2012, tinha um significado extremamente diferente para ambas as seleções. Os senegaleses, com uma campanha irrepreensível nas eliminatórias e um ataque poderosíssimo, queriam consolidar o status de favoritos ao título. Para os zambianos, todavia, o duelo representava uma volta ao tempo. Mais precisamente, até o dia 27 de abril de 1993. Àquela altura, Zâmbia desfrutava de uma seleção que encantava o continente, atropelando a Itália nas Olimpíadas de 1988 e prestes a se classificar para sua primeira Copa do Mundo, em 1994. No caminho, havia um jogo contra Senegal, em Dakar, pelas eliminatórias. Seria apenas mais uma viagem, não fosse o fato de que os jogadores que embarcaram nunca mais retornariam.

Uma equipe que sapecou 4 a 0 na poderosa Itália nas Olimpíadas de Seul, com direito a três gols de Kalusha Bwalya, o grande expoente daquela geração. Atacante muito técnico e eficiente nas finalizações, foi descoberto pelo Club Brugge quando ainda jogava no futebol local, vestindo a camisa do Mufulira. Após as Olimpíadas, transferiu-se para o PSV, e assim como outro companheiro de seleção que atuava na Europa, escapou de uma tragédia.

No que diz respeito a investimentos no esporte, o futebol zambiano viveu seu auge nos anos 1980. Kenneth Kaunda, até então presidente do país, adorava futebol e não poupava esforços para ajudar financeiramente a seleção – contando ainda com o apoio da indústria nacionalizada de cobre. Todavia, o país “quebrou” financeiramente no fim da década, fazendo inclusive com que Zâmbia desistisse de sediar a CAN em 1988. Três anos depois, Kaunda deixou o cargo, o país vendeu suas minas de cobre e os investimentos para o futebol ficaram ainda mais escassos.

Nas eliminatórias para a Copa de 94, Zâmbia venceu Ilhas Maurício por 3 a 0 e se preparava para viajar até Dakar, onde enfrentaria Senegal. Sem dinheiro para fretar um avião, a Federação nacional, como já era de costume, contou com a ajuda da Força Aérea da Zâmbia para fazer a viagem. O ‘Buffalo’, como era chamado o avião militar, fez sua primeira parada de reabastecimento no Congo, mas não obteve liberação para sobrevoar no país. Os zambianos decidiram viajar direto até Libreville, capital do Gabão, e após verificações de rotina, o avião decolou. Dois minutos depois, o Buffalo explodiu e fez nada menos que 21 vítimas.

O presidente da Federação, Michael Muape, o treinador Godfrey Chitalu (que tinha pouquíssimo tempo no cargo), seu assistente, Alex Chola, o médico Wilson Mtonga e 17 jogadores, incluindo o artilheiro da liga local, Mutale, e seis atletas que disputaram as Olimpíadas em 88, perderam suas vidas. O craque Kalusha e Charles Musonda, que jogava no Anderlecht, não haviam enfrentado Ilhas Maurício e viajaram separadamente, escapando da morte. As causas do desastre ainda são obscuras. À época, os zambianos acusaram o governo gabonês de ter disparado contra o Buffalo por engano, mas a verdade é que, além do piloto ter passado as duas noites que antecederam a tragédia sem dormir, o avião precisava de uma peça de reposição no motor.

Os aprendizes de 1993

Tão surpreendente quanto o surgimento desta talentosíssima geração foi o fim reservado a ela. Com uma equipe totalmente inexperiente em competições de grande porte (reforçada por Kalusha e Musonda) e um novo treinador, Ian Porterfield, Zâmbia foi obrigada a se reconstruir e não se classificou para a Copa (prejudicada por um árbitro gabonês contra o Marrocos), mas conseguiu um épico vice-campeonato da CAN em 1994, com um time recheado de jovens. A partir de então, os Chipolopolo entraram no ostracismo, mas absorveram a política de apostar pesado na garotada.

Quase 19 anos após a catástrofe, Zâmbia joga pelo orgulho dos herois de 1993. Nesta rodada de abertura da CAN 2012, a equipe jogou um futebol envolvente e bateu Senegal, adversário que sempre trará péssimas lembranças, por 2 a 1. Porém a maior curiosidade talvez seja que um dos países-sede do torneio neste ano é o Gabão. Sim, o Gabão, palco da tragédia com a melhor safra zambiana de todos os tempos. Por enquanto, Zâmbia disputa seus jogos em Guiné-Equatorial, mas caso alcance as semifinais, fará uma nova viagem para Libreville. Um momento que certamente seria especial para Kalusha Bwalya, hoje presidente da Federação local.

A atual geração, liderada por Chris Katongo, Chansa e Mayuka, pode não ter o mesmo brilho, mas também pode fazer história. Muitos jogadores que compõem o atual plantel ainda eram crianças no momento mais doloroso do futebol local (o meia Jonas Sakuwaha e o atacante Evans Kangwa, inclusive, sequer eram nascidos), mas já absorveram o significado de uma boa campanha na competição: manter vivo o sonho de uma geração memorável que, como quis o destino, não pôde atingir seu verdadeiro potencial.

Curtas

– A vitória de Zâmbia sobre Senegal é a grande zebra da CAN até aqui. Com uma equipe inapelável nos contragolpes, os zambianos engoliram os Leões no primeiro tempo e sustentaram o triunfo na etapa final. Chris Katongo, e principalmente o jovem Mayuka, um dos artilheiros do Campeonato Suíço pelo Young Boys, tiveram atuações muito destacadas.

– Os senegaleses, tidos como um dos favoritos ao título, mostraram que ainda precisam evoluir em vários aspectos, sobretudo na parte defensiva. A Costa do Marfim, outra ‘potência’ do continente, também não convenceu, apesar da vitória por 1 a 0 sobre o Sudão.

– Outra grata surpresa foi a vitória de Guiné-Equatorial sobre a Líbia por 1 a 0. Não propriamente pelo resultado, mas sim pelo futebol objetivo apresentado pelos donos da casa. Os líbios, apesar de contarem com um time com uma filosofia de jogo interessante, valorizando a posse de bola (completaram quase 200 passes só no 1º tempo), deixaram a desejar defensivamente.

– Outro país-sede da CAN, o Gabão, também convenceu na rodada inicial. A equipe venceu Níger por 2 a 0 e mostrou que tem condições de brigar pela classificação. No outro jogo do grupo, Marrocos e Tunísia reeditaram a final da CAN em 2004. A exemplo de quase oito anos atrás, os tunisianos venceram por 2 a 1.

– Os marroquinos, apesar de contarem com uma equipe muito técnica e que valoriza a posse de bola (66%, contra apenas 34% da Tunísia), foram pouco eficientes: 16 finalizações e apenas um gol. Ainda que tenham atuado com uma proposta mais defensiva, os tunisianos também deixaram boa impressão naquele que foi o melhor jogo da rodada. Msakni, que entrou no segundo tempo, infernizou a defesa adversária. O meia-atacante do Espérance já havia se destacado no último Mundial Interclubes.

– Já o placar “mentiroso” da rodada foi a vitória de Angola sobre Burkina Faso por 2 a 1. Os burquinenses jogaram melhor, e apesar de contarem com uma equipe muito ágil, pecaram em dois aspectos: a previsibilidade, pois forçaram demais as jogadas pela esquerda com Pitroipa, e a desorganização defensiva.

– Em um desses momentos, Bakary Koné inventou de fazer embaixadinha na área defensiva e ‘entregou’ um gol para os angolanos. Com uma equipe acostumada a competições de grande porte, Angola foi mais eficiente e conquistou uma vitória importantíssima na busca pela classificação.

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Equipe Trivela

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