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Tendência mundial

Cinco empates em oito jogos, apenas 13 gols marcados e nenhuma vitória por mais de um gol de diferença. Este é o balanço da primeira rodada da Copa Africana de Nações. Numa análise um tanto quanto óbvia, um início de torneio marcado pelo equilíbrio. Isso pode ser explicado pelo nivelamento de forças no futebol africano, tão debatido nos últimos anos – e que tem provocado ausências de peso e participações inesperadas nas últimas edições da CAN. Por este motivo, não foi tão surpreendente ver Cabo Verde jogando melhor que a África do Sul, ou a RD Congo tendo mais volume de jogo em seu duelo contra Gana. Na prática, percebe-se que não há nenhuma disparidade gritante entre as equipes.

No entanto, é bom que fique claro: esse ‘respeito’ pregado aos adversários no início de um campeonato é um “fenômeno” mundial. Nada mais é do que o medo de perder, também motivado pelo formato das competições continentais e internacionais, que permite essa cautela. Na última Copa América, por exemplo, quatro dos seis jogos da primeira rodada terminaram empatados. Chile e Colômbia, os únicos vencedores da rodada inicial, triunfaram por apenas um gol de diferença, sendo que só os chilenos conseguiram marcar mais de um gol em sua estreia.

Até mesmo na última Copa do Mundo isso ficou muito evidente. Só três entre 32 seleções conseguiram vencer seus jogos por mais de um gol de diferença. O Brasil, que enfrentou a Coreia do Norte, por exemplo, venceu por apenas 2 a 1. Nas duas rodadas seguintes, já com as cartas na mesa, os norte-coreanos sofreram 7 a 0 de Portugal e 3 a 0 da Costa do Marfim. É aí que aparece quem é quem de verdade. A própria Espanha, que terminou como campeã, estreou perdendo: 1 a 0 para a Suíça, que por sua vez, foi eliminada ainda na primeira fase.

Ou seja, analisar o nível técnico de uma competição com base nos seus primeiros jogos é completamente absurdo – e, infelizmente, foi o que mais se viu nos últimos dias. Também se viu em 2010, quando muitos classificaram o Mundial como “monótono” ou “o pior da história”.

Esses preferem não enxergar que as seleções optam por não correr riscos num primeiro momento, evitam ao máximo se expor – uma estratégia discutível, claro. A própria Costa do Marfim, aclamada como a seleção mais estrelada da África, não fez nenhuma loucura contra Togo e saiu vitoriosa. Em tese, deveria ter mais facilidade, mas de que importa? Zâmbia, a atual campeã, não forçou o jogo contra uma Etiópia que atuou em pelo menos 50 minutos com um jogador a menos – muito pela competência dos etíopes, é verdade. Acabou saindo com um empate pra lá de amargo. Independente de como for, o resultado está acima de tudo.

Mali, Costa do Marfim e Tunísia foram as seleções vencedoras da rodada. Enquanto a Tunísia conseguiu seu triunfo nos acréscimos contra a Argélia, rival histórica do Norte Africano, os malineses bateram Níger com um gol aos 39 do segundo tempo e os marfinenses derrotaram Togo com um gol a dois minutos do fim do tempo regulamentar. A segunda rodada reserva alguns confrontos decisivos, como África do Sul x Angola, Gana x Mali, Nigéria x Zâmbia e Costa do Marfim x Tunísia. Daqui pra frente, será possível analisar com mais clareza a competitividade de cada seleção. Os jogos tendem a ficar muito mais eletrizantes. No entanto, um passo de cada vez. Para atingir o sucesso, as próprias grandes seleções já aprenderam: não subestimar qualquer adversário já é um importante passo.

– Com algumas improvisações, a seleção da primeira rodada da CAN: Mweene (Zâmbia); Eboué (Costa do Marfim), Benatia (Marrocos), Akakpo (Togo), Asamoah (Gana); Adane Girma (Etiópia), Keita (Mali); Msakni (Tunísia), Yaya Touré (Costa do Marfim), Alain Traoré (Burkina Faso); Mputu (RD Congo).

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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