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Talento x tradição

O futebol africano não para. Na última semana, todas as atenções estiveram direcionadas para as eliminatórias da CAN e suas definições – assim como voltarão a estar no dia 24, quando haverá o tão esperado sorteio dos grupos. No entanto, ao menos por alguns dias, as seleções voltaram a ficar em segundo plano. Isto porque foram conhecidos os finalistas da Liga dos Campeões Africana, que garante uma vaga para o Mundial de Clubes. Reeditando a emocionante semifinal da LC de 2010, Espérance e Al Ahly se enfrentam na decisão.

Especialmente neste caso, não seria clichê dizer que os dois times disputam a soberania do futebol africano. De um lado está o Al Ahly, historicamente o maior clube da África e que, entre 2001 e 2008, venceu a Liga dos Campeões quatro vezes (são seis títulos no total, mais do que qualquer outro). Do outro lado, o Espérance, o time que joga o melhor futebol do continente e que por pouco não quebrou um recorde histórico de invencibilidade na LC. Também é o time que conta com dois dos melhores jogadores africanos que atuam no continente: os jovens e talentosos Msakni e N’Djeng.

Um título dos “Sangue e Ouro” definitivamente significaria uma nova era no futebol africano. Em toda a história, apenas o Al Ahly (2005 e 2006) e o Mazembe (2009 e 2010) conseguiram ser bicampeões continentais consecutivos. O Espérance, atual campeão, tem tudo para repetir o feito. Uma das grandes virtudes desse time é saber a hora de ser agressivo e cauteloso – e executar os dois com perfeição. Os duelos contra o Mazembe representam bem isso: em Lubumbashi, segurou um empate em 0 a 0 e quebrou uma série do time congolês marcando gol em todos os jogos em casa desde 2009. Não é qualquer coisa.

No jogo de volta, em que pese os sérios desfalques do Mazembe (Sunzu e principalmente Kalaba), o Espérance não deu bola para a grandeza do rival e tomou conta do jogo. Não que os tunisianos tenham exercido uma pressão sufocante, mas souberam neutralizar o adversário. Kidiaba, com grandes defesas, salvou o Mazembe por 70 minutos, até o gol da classificação marcado por Ben Mansour. O lance gerou reclamações de falta no goleiro, que sofreu uma lesão e foi substituído, mas o árbitro nada marcou.

A variação tática desta equipe também impressiona. O esquema “predominante” é o 4-2-3-1, mas no último jogo contra o Mazembe, o técnico Nabil Maaloul lançou um ousado 4-3-3. Isso porque o ganês Harrison Afful, lateral-direito de origem e que eventualmente joga na meia-direita, atuou como um ponta por aquele lado, auxiliando Msakni na função de municiar o centroavante N’Djeng. No jogo de ida, com um time mais conservador, Maaloul preferiu o 4-3-2-1, abrindo mão inclusive do craque do time, Msakni, que ficou no banco. Outra peça-chave neste time é o ótimo volante Mouelhi, que distribui o jogo e possui ótimo aproveitamento em passes certos e lançamentos longos. Olho nele.

O Al Ahly, apesar da classificação para a final, vive um momento conturbado. O futebol egípcio está prestes a completar oito meses de inatividade e os jogos no Cairo, por questões de segurança, seguem disputados com portões fechados. O jogo de volta dos “Diabos Vermelhos” contra o Sunshine Stars, da Nigéria, foi cercado de tensão. Isto porque vários manifestantes, incluindo jogadores da Premier League egípcia, fizeram um protesto em frente ao hotel onde os nigerianos estavam hospedados, pedindo a retomada do futebol local.

A intenção dos manifestantes, que dependem do futebol para ganhar suas vidas, era impedir a saída da comissão do Sunshine Stars do hotel e tentar prejudicar o Ahly de alguma forma na competição. A polícia foi chamada e usou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Vários conflitos foram registrados, sobretudo após a chegada dos “Ultras” do Al Ahly ao local, que segundo os próprios, foram com a intenção de “garantir a segurança” dos nigerianos. Vale lembrar que os Ultras são a grande ameaça do retorno da temporada egípcia, já que estes não admitem a retomada do futebol local enquanto não seja feita justiça aos mortos em Port Said. Este é um tema complexo, que certamente será debatido numa próxima oportunidade.

Em todo caso, dentro de campo, o Ahly se vale da experiência de seu time para ficar com o título. Jogadores “tarimbados” como Gomaa, Ghaly, Barakat, Gedo e Meteab serão fundamentais para lidar com a pressão. A maior novidade deve ser Aboutrika, recentemente suspenso pelo clube por dois meses, mas que segundo o técnico Hossam El Badry, estará nas finais. De qualquer forma, por tudo o que o país vive, chegar à decisão já é um milagre. Teremos a melhor disputa que o futebol africano pode oferecer no momento. O que prevalecerá: o talento e a consistência do Espérance ou o “pedigree” do Al Ahly?

Curtas

– Definidas as semifinais da Copa da Confederação Africana. No grande jogo da última rodada da fase de grupos, o maior clássico sudanês foi vencido pelo Al-Merreikh: 3 a 2 sobre o Al-Hilal. Ambos os times se classificaram, com o Merreikh em primeiro no Grupo A, com 14 pontos.

– No Grupo B, o líder e já classificado Djoliba, do Mali, se deu ao luxo de perder para o AC Léopard por 3 a 0. Com o triunfo conquistado e o empate entre Stade Malien e Wydad Casablanca, os congoleses fizeram história ao se tornarem no primeiro time do país a alcançar uma semifinal de Copa da Confederação Africana.

– O AC Léopard terá pela frente o Al-Merreikh, enquanto o Djoliba enfrenta o Al-Hilal. Os jogos de ida acontecem entre os dias 2 e 4 de novembro. Na semana seguinte, serão realizadas as partidas de volta.

– Amistosos internacionais: em Dubai, a Tunísia venceu o Egito por 1 a 0, gol de Dhaouadi. Camarões, com uma seleção formada só por jogadores que atuam no futebol local, sofreu 3 a 0 da Colômbia. Por fim, em Nairóbi, capital do Quênia, a África do Sul bateu os donos da casa por 2 a 1.

– Louis Lamotte, vice-presidente da Federação Senegalesa de Futebol, abandonou o cargo após os incidentes causados pelos torcedores senegaleses em Dacar, onde a seleção local acabou eliminada da CAN 2013 pela Costa do Marfim. Lamotte assumiu sua responsabilidade no episódio e se colocou à disposição para investigar os desdobramentos do tumulto.

– Andre Ayew foi duramente repreendido pela Associação de Futebol de Gana. O jogador do Marseille não gostou de ser substituído contra o Malauí e cobrou explicações da comissão técnica pelo ocorrido. A federação não gostou nada da reclamação e exigiu um pedido formal de desculpas, prontamente feito pelo filho de Abedi Pelé, que se mostrou incomodado com a situação.

– Pela sétima rodada da Ligue 1 argelina, o USM El Tarrach venceu o WA Tlemcen por 2 a 1 e manteve a liderança, com 16 pontos. Quem ganhou posições valiosas foi o ES Sétif, que fez 2 a 0 no MC Oran e pulou para a vice-liderança, com 14 pontos.

– Passadas três rodadas, o Berekum Chelsea segue líder do Campeonato Ganês. Buscando repetir a temporada 2010-11, quando ficou com o título, a equipe derrotou o Berekum Arsenal por 2 a 0 (os maldosos dirão que o Arsenal é freguês do Chelsea até na África) e chegou aos 7 pontos, mesmo número do Medeama. O atual campeão, Asante Kotoko, empatou mais uma: 1 a 1 com o Heart of Lions.

– Com o adiamento do jogo do líder Raja Casablanca (12 pontos), o FAR Rabat tinha a chance de vencer e assumir a ponta do Campeonato Marroquino, mas só empatou em casa com o arquirrival FUS Rabat em 2 a 2, chegando a 11 pontos.

– Faltando três rodadas para o fim, Tusker e Gor Mahia brigam ponto a ponto pelo título do Campeonato Queniano. O Tusker recebeu o Muhoroni Youth e venceu por 1 a 0, chegando aos 54 pontos. Por sua vez, o Gor Mahia bateu o Karuturi Sports pelo mesmo placar e chegou aos 52. No próximo sábado, simplesmente teremos o grande duelo entre Gor Mahia e Tusker.

– Neste fim de semana, o futebol do Gabão viveu um momento histórico: foi iniciado o primeiro Campeonato Gabonês da era profissional. As autoridades do país investiram 20 milhões de dólares para que a Liga Nacional de Futebol (LINAF) estipulasse um salário mínimo para jogadores, treinadores, médicos e administradores. Esta média passou a ser uma das mais altas do futebol africano.

– O próximo passo é atrair patrocinadores para que a liga se torne independente. Voltando a disputa do campeonato, o melhor time da rodada inicial foi o Sapins, que bateu o Oyem por 2 a 1. O atual campeão, Mounana (ainda na era amadora), perdeu em casa para o US Bitam por 1 a 0.

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