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Sonho dos Elefantes

“Eu diria que a equipe tem grande jogadores, mas não é uma grande equipe”. Com essas palavras, o bósnio Vahid Halilhodzic, até então técnico da Costa do Marfim, comentou a traumática eliminação de seu selecionado para a Argélia na Copa Africana de 2010. Nos últimos anos, a “geração de ouro” dos Elefantes, composta por Drogba, Kalou, Yaya Touré, Kolo Touré e outras estrelas, não foi reconhecida apenas pelo talento. Dentro do continente, identificou-se uma tendência dos marfinenses a subestimarem outras seleções, o que seria a grande razão para um jejum de 20 anos sem o título mais importante do futebol africano.

Um jejum que tinha tudo para acabar no último domingo. Assim como em 2006, a Costa do Marfim teve de lidar com o favoritismo na grande final da CAN. Mas da mesma forma que há seis anos, caiu na decisão por pênaltis, desta vez para Zâmbia. Salto alto? Soberba? Muito pelo contrário. A equipe comandada por François Zahoui notabilizou-se justamente por respeitar demais os adversários, levando o time a abdicar de seu estilo agressivo, mas ao mesmo tempo despreocupado. Uma decisão questionada por muitos, mas que se mostrava necessária.

Equipes como a Grécia na Eurocopa de 2004 e o Uruguai na Copa América do ano passado triunfaram justamente pela capacidade de montar uma equipe competitiva a partir de um sólido sistema defensivo. Zahoui descobriu o “caminho das pedras” e acertou em cheio na filosofia: os marfinenses não sofreram um gol sequer na competição e ainda marcaram nove, além de terem vencido todos os jogos até a final.

Então o que faltou para o trofeu voltar para as mãos dos marfinenses? Confesso que esta pergunta me consumiu um bom tempo, mas encontrei uma resposta: os marfinenses supervalorizaram o poder de decisão de sua equipe (o que nada tem a ver com menosprezo ao rival). Durante a CAN, Zahoui chegou a declarar que “quando temos Drogba, Yaya Touré, Zokora e outros, sabemos que podemos marcar gols”. Assim como em todo o torneio, a estratégia dos Elefantes contra Zâmbia foi simples: administrar o jogo e esperar um erro do adversário para colocar em ação seu ataque letal. O problema é que os zambianos só erraram efetivamente uma vez em 120 minutos, quando Chansa cometeu pênalti em Gervinho. E Drogba, assim como em 2006 contra o Egito, desperdiçou a cobrança.

Com exceção de Camarões em 2002, as últimas edições da CAN provam que o fato de contar com jogadores importantes no futebol europeu não possuem nenhum significado na busca pelo título. Desde a Tunísia em 2004, passando pela geração tricampeã do Egito entre 2006 e 2010 até a Zâmbia nesta edição, podemos constatar a presença maciça de jogadores baseados no próprio futebol africano.

De nada vale um plantel com tanta profundidade como o da Costa do Marfim se não se consegue extrair o seu potencial. Por mais que Zahoui tenha dado oportunidades para todos os jogadores de linha ganharem tempo de jogo, o treinador pecou na administração de alguns jogadores. Emmanuel Eboué e Seydou Doumbia, por exemplo, que seriam titulares em quase todas as outras seleções do continente, foram subaproveitados. Outros, como Ya Konan, utilizados de forma surreal. Atacante no Hannover, atuou como volante (!) na final contra Zâmbia.
A geração de ouro dos marfinenses ainda terá uma nova (e talvez a última) chance de escrever seu nome na história da CAN no ano que vem. Não que seja necessário para que o talento desta safra seja reconhecido, mas seria justo para premiar um trabalho que colocou o país nas duas últimas Copas do Mundo. No fim das contas, Halilhodzic estava certo. Costa do Marfim continua tendo uma grande seleção, mas ainda não tem um grande time. Porém os resultados não deixam mentir: está no caminho certo. Para jogadores como Drogba, Kolo Touré e Zokora, 2013 será a última chance.

Redenção zambiana

“É como se estivéssemos em frente a uma grande montanha. Temos de subi-la, mas não temos um helicóptero ou um carro. Nós precisamos apenas de muita coragem e pensar ‘sim, nós podemos conseguir’. Eu tenho 100% de certeza que podemos”. Foi assim que Hervé Renard, técnico de Zâmbia, comentou a possibilidade de sua seleção derrotar Costa do Marfim na final da CAN. Muitos desacreditaram, mas os zambianos conseguiram escalar a montanha, fazendo uma final extraordinária. Não faltou personalidade na decisão. Um título inédito com um significado enorme.

A história já foi contada nesta coluna e em outros portais, mas vale relembrar: Libreville, a cidade em que Zâmbia conquistou seu primeiro título continental no último fim de semana, também protagonizou a maior tragédia do futebol do país, em 1993, que vitimou quase inteiramente a talentosa geração zambiana que surgiu entre o fim dos anos 80 (que encantou nas Olimpíadas de 88) e no início da década de 90. Os comandados de Renard entenderam o significado de uma boa campanha e fizeram história. Uma história de redenção digna de virar filme, incrementada com uma final de arrepiar. A geração liderada por Katongo, Mayuka e Kalaba certamente permite aos herois de 93 definitivamente descansarem em paz.

Curtas

– Senegal e Gana, duas das grandes decepções da CAN, começaram mudando pelo mais óbvio: o comando. Amara Traoré, que já estava desgastado pelo imbróglio que envolveu a renovação de seu contrato, foi demitido de Senegal após o péssimo desempenho de sua seleção, derrotada nos três jogos que disputou em Guiné-Equatorial.

– Goran Stevanovic, que dirigia Gana, também perdeu o emprego. O sérvio havia prometido se demitir caso não conquistasse a Copa Africana, mas a decisão partiu da Federação local. A dificuldade de relacionamento com Kevin Prince-Boateng (que recentemente se afastou da seleção) e a má condução da convocatória para a CAN são apontados como os motivos para a demissão.

– Com dois gols de Cheick Diabaté, Mali venceu Gana por 2 a 0 e ficou com o terceiro lugar da CAN. Melhor resultado das ‘Águias’ na história da competição.

– Minha seleção da CAN 2012 no 3-4-3: Kennedy Mweene (Zâmbia); Bruno Ecuele Manga (Gabão), Cedric Kanté (Mali), John Boye (Gana); Juvenal (Guiné-Equatorial), Younes Belhanda (Marrocos), Rainford Kalaba (Zâmbia), Samuel Inkoom (Gana); Pierre Aubameyang (Gabão), Emmanuel Mayuka (Zâmbia), Chris Katongo (Zâmbia). Técnico: Hervé Renard (Zâmbia). Concorda?

– Na última sexta-feira, o Sudão do Sul foi admitido como novo membro da Confederação Africana de Futebol (CAF). O país ganhou a independência em abril de 2011 e recentemente criou sua Federação de Futebol, presidida por Olivier Benjamin. O próximo passo é se tornar membro da FIFA, o que deve acontecer após a Copa de 2014.

– Envolvido em manipulação de resultados, o técnico do Zimbábue, Norman Mapeza, foi suspenso pela Federação local. Os jogos em questão são amistosos disputados pela seleção nacional na Tailândia e na Malásia em 2007. Rahman Gumbo foi indicado como o treinador interino.

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Equipe Trivela

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