Solidariedade egípcia

Essa não é uma coluna de política. Não pretendemos aqui discutir os fenômenos que andam agitando a África. Somália, Egito, Ruanda… Admito, talvez tenhamos exagerado um pouco na dose ultimamente. Hoje, pretendia fazer algo diferente, mais leve, sobre as eliminatórias a princípio, ou quem sabe um repasse dos intercontinentais de clubes. Seguimos com esta última ideia, mas a política, bem, ela continua ali, dentro dos estádios.
Num momento como esse, convenhamos, não dá pra ignorar. Sobretudo após as imagens do último fim de semana, em jogo entre Zamalek e Club Africain. Egito e Tunísia aí em campo mais uma vez. Não é segredo, os dois países enfrentaram mudanças em sua política nacional recentemente. E elas insistem em repercutir no esporte.
Aos manifestantes pró-Mubarak, governante deposto do poder no Egito, é creditada a confusão que marcou a conclusão da segunda fase da Liga dos Campeões. Tudo ia muito bem. Antes da partida realizada no Cairo, faixas de torcedores do Zamalek agradeciam aos colegas tunisianos pelo apoio na revolução que atingiu suas ruas nesses primeiros meses do ano. Por lá, era possível ver coisas como “egípcios e tunisianos são irmãos. Vocês apoiaram nosso movimento. Obrigado”. E por aí vai.
O clima era de paz. E assim se seguiu até os acréscimos do segundo tempo, quando o Zamalek teve um gol anulado e, inconformados, alguns torcedores resolveram ir à caça do trio de arbitragem e dos jogadores do Club Africain. Aí, mais uma vez, gente que supostamente esteve ao lado de Mubarak nos protestos que varreram o país e desejava expor a fragilidade das autoridades. Naquele momento, o jogo se encontrava em 2 a 1 para os donos da casa e a bola de Ahmed Gaafar dava a classificação para o time egípcio, que passava pelo critério do gol marcado fora após perder por 4 a 2 na ida.
O resto dessa história, porém, não pôde ser contado. Antes mesmo do apito final, o gramado foi invadido por um número de torcedores que só parecia crescer. Faltava segurança – mesmo que algumas medidas como contato junto aos ultras, espécie de hooligans egípcios, tenham sido tomadas nos dias que antecederam o duelo. Coube, então, ao pessoal do Zamalek, incluído nesse bolo os jogadores, assumir a frente de batalha para impedir que o trio marroquino e os colegas do CA fossem agredidos. Em imagens que talvez não tenhamos a real noção hoje, mas serão lembradas daqui a algum tempo, quando todo esse fenômeno que atingiu o Norte da África vier a ser contado.
Não custa dizer, outros quatro jogos internacionais já haviam acontecido no Egito antes dos incidentes de sábado. Nada havia sido registrado até então. Bastaram, no entanto, os atos de vandalismo no Cairo para que as autoridades resolvessem tomar algumas atitudes. Uma das consequências é que a Premier League egípcia teve o seu retorno adiado – some-se aí a parada que já chega a três meses e os prejuízos só aumentam. Ainda parece haver mais a caminho. Não está descartada uma punição ao Zamalek – mesmo que a delegação do Club Africain tenha inocentado os anfitriões.
O que fica do episódio, contudo, é a mostra de solidariedade dos atletas do Zamalek. Dá pra ter uma ideia da coisa clicando AQUI. Veja e guarde.
E, bom, para não dizer que não falamos, mais duas informações: 1) AQUI você vê os classificados para a próxima fase 2) e o Egito do ameaçado Shehata perdeu nas Eliminatórias da CAN para a África do Sul (a Líbia venceu as Ilhas Comoros).



