África

Sem dar margem para erro

“Nós fomos os melhores para um torneio, mas tenho certeza que não somos o melhor time da África”. Com essas palavras, o técnico Hervé Renard, de Zâmbia, conteve a euforia que cercou a equipe e os torcedores após o título da Copa Africana de Nações. Como não poderia deixar de ser, a glória continental aumentou a responsabilidade sobre os Chipolopolo. O sonho de se classificar para uma Copa do Mundo nunca foi tão real, ainda que Zâmbia esteja na mesma chave de ninguém menos que Gana nas eliminatórias.

É o tal do “preço do sucesso”. A derrota para o Sudão na primeira rodada, mesmo jogando fora de casa, gerou insatisfação por parte dos zambianos. Entretanto, no último sábado, os comandados de Renard provaram que estão prontos para assumir um nível de exigência ainda maior. Era o reencontro entre Zâmbia e Gana, quatro meses após a histórica vitória dos Chipolopolo sobre os Estrelas Negras nas semifinais da CAN. E pra quem achava que o resultado tinha sido ao acaso, os zambianos trataram de repetir o roteiro: vitória por 1 a 0, gol do capitão Chris Katongo.

O jogo marcou a inauguração do Levy Mwnawasa Stadium, em Ndola, com capacidade para 40 mil pessoas e construído com capital chinês – que também se faz presente em outros países africanos, como Gabão e Guiné. Com um gol marcado logo nos primeiros minutos, o jogo esteve sempre sob o comando dos donos da casa.

Não há dúvidas de que a experiência de Renard como preparador físico de Gana pesa no confronto direto entre as seleções. O próprio francês admite que conhece minuciosamente os pontos fracos dos Estrelas Negras, ainda que a equipe adversária estivesse muito mudada – sem Mensah, Paintsil, Andre Ayew, Gyan e outros.

O triunfo serviu ainda para “apaziguar” um ambiente pesado na última semana. Após a derrota para o Sudão, Renard disparou contra a federação por conta dos planos de viagem ao Sudão, onde sua equipe só teve dois dias para se ambientar ao forte calor de Cartum após passar duas semanas treinando na África do Sul, onde a temperatura está baixa.

O treinador ainda reclamou publicamente de não receber salários há seis meses, o que não é responsabilidade da associação de futebol, já que seu contrato foi assinado com o governo (alô, Fifa!). De quebra, Renard ainda foi criticado pela imprensa por não utilizar o atacante Jonas Saluwaka, artilheiro do Campeonato Sudanês na última temporada e que não teria qualquer problema de adaptação.

Em todo o caso, chama a atenção o quanto o sucesso na Copa Africana contribuiu para o desenvolvimento individual dos jogadores zambianos em seus respectivos clubes. O goleiro Kennedy Mweene, por exemplo, foi peça importante na ótima campanha do modesto Free State Stars no Campeonato Sul-Africano. Além da boa média de 31 gols sofridos em 30 jogos, o goleiro ainda marcou alguns gols durante a temporada – para quem estranhou sua cobrança de pênalti na final da CAN, contra a Costa do Marfim, ele é o batedor oficial de seu clube.

 

O trio do Mazembe, Stophira Sunzu, Nathan Sinkala e Rainford Kalaba, também faz uma ótima temporada. Kalaba, principalmente, descrito como maestro do meio-campo do clube congolês e um dos principais jogadores da seleção zambiana no momento. Jogador técnico, voluntarioso e com qualidade no passe, se encaixaria perfeitamente no futebol europeu. Sinkala acompanha o seu desenvolvimento, e mesmo sendo o jogador mais jovem do 11 inicial (21 anos), virou titular absoluto na contenção. Talvez a única exceção seja Isaac Chansa, que apesar das boas exibições pela seleção, terminou a temporada na reserva do Orlando Pirates e deve mudar de clube.

Para que o sucesso continue gerando sucesso, Zâmbia sabe que precisará se reinventar a cada jogo, sobretudo contra seleções inferiores tecnicamente. Esquecer o título continental é o ideal para que a equipe mantenha os pés no chão e supere a concorrência de dois adversários de respeito (Gana e Sudão). O caminho rumo ao Brasil segue possível.

Curtas

– Giro pelas eliminatórias: contrariando todas as expectativas, a Etiópia lidera o Grupo A. A equipe venceu a República Centro-Africana por 2 a 0, com dois gols de Saladin Said, e chegou aos quatro pontos. Para um país notabilizado no esporte apenas pelos feitos no atletismo, ver o futebol se desenvolvendo é absolutamente fantástico.

– Quem segue decepcionando é a África do Sul, que ficou no 1 a 1 com Botsuana. Sem Pitso Mosimane, demitido, os sul-africanos foram comandados pelo interino Steve Komphela e seguem sem vencer desde agosto do ano passado. A federação nacional já confirmou que não irá atrás de nenhum técnico estrangeiro para o cargo.

– Com dificuldades, a Tunísia venceu Cabo Verde, a terra de Nani, por 2 a 1 e se isolou na liderança do Grupo B, com 6 pontos. Os gols foram de Khelifa e Jemaa.

– Em Malabo, Guiné-Equatorial e Serra Leoa fizeram um jogo movimentadíssimo, que terminou em 2 a 2. Juvenal, autor dos dois gols dos guineenses, ainda perdeu um pênalti. E Serra Leoa, que precisou atravessar quatro países (Libéria, Gâmbia, Gana e Togo) para chegar a Malabo, saiu no lucro.

– No jogo mais atrativo da rodada, Costa do Marfim e Marrocos empataram em 2 a 2. Sem Belhanda, contundido, os marroquinos foram buscar a igualdade nos últimos minutos, com gol do atacante Hamza Abourrouzouk. No outro duelo do Grupo C, a Tanzânia bateu Gâmbia (que a exemplo de Serra Leoa também teve dificuldades com a logística) por 2 a 1 e pulou para a vice-liderança, com três pontos – um a menos que os marfinenses.

– Pelo Grupo D, de Zâmbia e Gana, o Sudão foi até a gelada cidade de Maseru, no Lesoto, e só empatou com os donos da casa em 0 a 0. De qualquer forma, os sudaneses lideram a chave, com quatro pontos.

– Sob os olhares de Carl Lewis, lenda do atletismo, o Gabão venceu Burkina Faso por 1 a 0, gol de Ebanega. A vitória teve um gosto de vingança por parte do técnico Paulo Duarte, demitido de Burkina Faso pouco depois da CAN.

– Já o Congo, com gol de Malonga, bateu Níger por 1 a 0. Os nigerinos tiveram um imprevisto durante a semana, quando o técnico Rolland Courbis pediu demissão após três semanas no cargo.

– Em mais uma exibição medíocre, a Nigéria só empatou com Malawi em 1 a 1, fora de casa. Com muitos atletas do futebol local e sob o forte calor da cidade de Blantyre, as Super Águias abriram o placar nos acréscimos, com Reuben Gabriel. Entretanto, no último lance do jogo, John Banda empatou para os mandantes. No outro jogo do Grupo F, a Namíbia bateu Quênia por 1 a 0 e chegou aos três pontos, um a menos que os nigerianos.

– Uma das duas seleções que seguem 100% nas eliminatórias, o Egito conquistou uma importante vitória fora de casa sobre Guiné por 3 a 2. Aboutrika (2) e Salah, aos 49 do segundo tempo, marcaram os gols da equipe de Bob Bradley. Os faraós lideram o Grupo G com três pontos de vantagem.

– Já o duelo entre Moçambique e Zimbábue terminou zerado. Resultado heroico para os zimbabuanos, que passaram a madrugada de quinta para sexta no aeroporto nacional à espera de passagens para Moçambique que simplesmente não chegaram. Especula-se que uma rixa na federação tenha motivado este lamentável fato.

– Desde junho no cargo, Valil Hallhodzic perdeu sua primeira partida à frente da seleção argelina. Com justiça, Mali venceu por 2 a 1 jogando em Burkina Faso, já que os malineses não puderam receber o duelo por conta da situação política do país. O artilheiro Modibo Maiga fez o gol da vitória. No outro jogo, o surpreendente líder do Grupo H, Benin empatou com Ruanda em 1 a 1.

– Com um gol aos 48 do segundo tempo, a Líbia conquistou uma vitória heroica sobre Camarões por 2 a 1 e lidera o Grupo I. O jogo foi disputado em Sfax, na Tunísia, já que os líbios não puderam receber o jogo pelos mesmos motivos de Mali. Aproximadamente 1.500 pessoas acompanharam o duelo, que a princípio seria com portões fechados. Será se a Líbia quebra o tabu de ser a única seleção do Norte da África a nunca se classificar pra uma Copa? Seria uma grata surpresa.

– Quem também surpreende é a República Democrática do Congo, do folclórico Kidiaba, que venceu Togo por 2 a 0. O goleador Mputu, do Mazembe, e Mbokani, que retornou à seleção após 14 meses de ausência, marcaram os gols.

– Fechando o giro, pelo Grupo J, Senegal desperdiçou pontos importantes ao empatar com Uganda em 1 a 1. O agora capitão Papiss Cissé novamente deixou sua marca, mas Walusimbi, cobrando pênalti, deixou tudo igual. No outro jogo, Angola só empatou com a Libéria em 0 a 0 e parece cada vez mais fora do “bolo”.

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