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Mali perdeu o técnico, mas foi a última a saber

Em 2012, Mali conquistou seu melhor resultado continental em 40 anos: ficou com o terceiro lugar da Copa Africana de Nações, sediada por Guiné-Equatorial e Gabão. A campanha foi bastante exaltada e o francês Alain Giresse, à época treinador da equipe, estava em alta pelo ótimo trabalho.

A euforia, no entanto, durou pouco. Em meio a um golpe de estado que eclodiu em Mali, Giresse pediu licença para se ‘refugiar’ na França. Na teoria, a intenção do treinador era simplesmente visitar sua família. Contudo, em meio a conversas sobre uma proposta de renovação de contrato, descobriu-se que o francês negociava em sigilo com a Federação Senegalesa de Futebol para assumir o comando da seleção do país. As negociações fracassaram, e quando Giresse retornou à Bamako para assinar a renovação, Mali já havia encontrado seu sucessor: o também francês Patrice Carteron.

A chegada de Carteron, no entanto, gerou bastante desconfiança. O francês só havia treinado profissionalmente dois clubes em toda a carreira (Cannes e Dijon), ambos sem expressão e distante da realidade do futebol africano. No entanto, a aposta deu certo. Responsável pela montagem de um time atlético e “cascudo”, Carteron liderou os malineses a um novo 3º lugar da CAN neste ano – e com uma equipe muito mais desacreditada do que a de 2012.

O que ninguém poderia imaginar era que um roteiro quase idêntico ao da saída de Giresse poderia se repetir com o “herdeiro” do seu cargo. Chega a ser cômico: Carteron viajou para Lubumbashi, na República Democrática do Congo, com a justificativa de supervisionar quatro jovens malineses que atuam no Mazembe (Traoré, Bagayoko, Diarra e Cissé). Ele acompanhou o duelo dos congoleses contra o Orlando Pirates ao lado do presidente do clube, o milionário Moïse Katumbi. O Mazembe venceu, mas foi eliminado. Sobrou para o treinador Lamine N’Diaye, que foi “deslocado” para a função de diretor-técnico do clube.

Já dá pra imaginar o que aconteceu: o que era pra ser um encontro informal entre Carteron e Katumbi logo se transformou em especulação de que o francês estaria assumindo o comando do Mazembe. A imprensa malinesa, no entanto, desmereceu o boato. Ledo engano: na última quarta-feira, o site oficial do Mazembe realmente confirmou que Patrice Carteron assinou um contrato de dois anos com o clube.

Acontece que a Federação Malinesa não foi “avisada” de sua saída, ou seja, existe a hipótese do contrato de Carteron com Mali, que tinha validade até agosto de 2014, ter sido rescindido de forma unilateral. Jornalistas malineses relembraram uma declaração de Carteron logo em sua chegada à seleção, onde dizia que “não era um treinador mercenário”. No entanto, parece muito claro que o dinheiro foi um fator determinante na sua saída – além do projeto sério e ambicioso do Mazembe, obviamente.

Para o Mazembe, a chegada de Carteron é certeira dentro do plano do clube de recuperar sua soberania no futebol africano. Para Mali, no entanto, fica aquele sentimento da esposa que é traída em dois casamentos consecutivos (perdoem a comparação esdrúxula). Dizem que um raio não cai duas vezes não cai no mesmo lugar. Mali conseguiu um sucessor à altura de Giresse e se manteve entre as forças da África. Uma nova reconstrução pode demandar tempo e frustrar objetivos a curto prazo, como a classificação para a Copa de 2014.

Curtas

– Além do artilheiro da última CAN, Emmanuel Emenike, a Nigéria terá outros dois desfalques importantíssimos para a Copa das Confederações: Victor Moses, um dos maiores destaques individuais do time, e Kalu Uche, vice-artilheiro do Campeonato Turco pelo Kasımpaşa, ambos por lesão. Os comandados de Stephen Keshi não terão vida fácil no Brasil.

– O calendário das eliminatórias para a CAN 2015 foi divulgado pela CAF e já está gerando polêmica. Tudo porque as seleções terão de disputar seis jogos em apenas três meses (de setembro a novembro), todos válidos pela fase de grupos, que reúne 48 equipes divididas em 12 grupos de quatro. Vale lembrar que todos os clubes que tiverem jogadores convocados são obrigados a liberá-los.

– No entanto, além da fadiga dos jogadores, a dificuldade de locomoção entre os países africanos pode atrapalhar este cronograma. Muitas federações não possuem recursos para bancar passagens de atletas e comissão técnica em um período tão curto.

– O alemão Volker Finke é o novo técnico da seleção de Camarões. Ele substituirá Jean-Paul Akono, que segue no comando para os compromissos da equipe em junho – amistoso contra a Ucrânia e jogos contra Togo e República Democrática do Congo pelas eliminatórias para a Copa. Treinadores como Raymond Domenech e Antoine Kombouaré também foram especulados para o posto.

– Novamente preterido pelo técnico Sabri Lamouchi, Didier Drogba está fora dos jogos da Costa do Marfim contra Gâmbia e Tanzânia, em junho, pelas eliminatórias para a Copa. O artilheiro de 35 anos vive um conflito de interesses com Sidy Diallo, presidente da Federação Marfinense de Futebol (FIF). Kolo Touré também ficou de fora. Serge Aurier, ótimo lateral-direito do Toulouse, é a novidade da lista.

– Precisando de apenas um ponto nas duas últimas rodadas para ser campeão argelino, o ES Sétif não deu sopa pro azar e faturou o sexto título nacional de sua história.

– Em Gana, o Berekum Chelsea venceu o Medeama por 3 a 0 em confronto direto pelo título nacional. O Chelsea agora lidera isolado com 49 pontos, dois a mais que o Asante Kotoko, que só empatou com o Aduana Stars em 1 a 1, e três na frente do Medeama. Restam três rodadas para o fim do campeonato.

– O Raja Casablanca empatou fora de casa com o RSB Berkane por 1 a 1 e segue na liderança do Campeonato Marroquino, que só tem mais duas rodadas a serem disputadas. O time da capital agora soma 60 pontos contra 58 do FAR Rabat, que também empatou na rodada.

– Ainda invicto (nove vitórias e três empates em 12 jogos), o Kabuscorp bateu o Progresso por 2 a 0 e segue líder disparado do Campeonato Angolano, com 30 pontos – cinco a mais que o Primeiro de Agosto, vice-líder.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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