Salif Keita inaugurou uma história de craques e fincou a bandeira de Mali na Europa
Maior jogador da história de Mali e primeiro Bola de Ouro da África em 1970, Salif Keita faleceu aos 76 anos, com uma história belíssima de idolatria e luta
Pioneiro: nenhuma outra palavra define melhor a trajetória de Salif Keita no futebol. O atacante inaugurou eras no esporte, sobretudo na África. Foi o primeiro jogador a receber a Bola de Ouro dedicada aos craques africanos, em 1970, e também se tornou um dos primeiros do continente a fazer sua fama na Europa. O camisa 10 defendeu vários clubes de peso: Sporting, Valencia, Olympique de Marseille. Nada, porém, se compara ao simbolismo que atingiu no Saint-Étienne, com o qual conquistou três vezes o Campeonato Francês e duas vezes a Copa da França. Se hoje o mascote dos Verts é uma Pantera Negra, que em certos momentos apareceu até no escudo, a razão principal é a adoração pelo artilheiro, apelidado dessa maneira. Keita é o maior jogador da história de Mali e assim permanecerá lembrado, diante de seu adeus aos 76 anos, falecido no último sábado.
Os elogios a Salif Keita podem se concentrar sobre sua habilidade dentro de campo. O malinês atuava em basicamente todas as posições do ataque, como ponta ou centroavante, mas especialmente como um camisa 10 que vinha de trás. Alto e dono de longas pernas, tinha um estilo de jogo elegante e ao mesmo tempo veloz. Os dribles eram uma especialidade, de quem cresceu jogando num campinho em Bamako no qual, além dos adversários, precisava também se desvencilhar das árvores que ficavam no meio do caminho. E o atacante fazia gols como poucos, inclusive com boa presença de área, que rendeu médias acima de um tento por jogo em seu auge no Saint-Étienne. Já nos treinos, gostava de atuar na defesa, para entender os movimentos e o raciocínio dos oponentes.
E a maior virtude de Salif Keita é mesmo a inteligência. A consciência de quem sabia o que representava e usava o futebol como um caminho, não como um final. Formado em Direito, Keita lutou pelo respeito aos africanos. Enfrentou o racismo, exigiu melhores salários, negou se naturalizar francês pelo orgulho por Mali. “Eu era provavelmente um dos africanos mais conhecidos. Quando cheguei à Europa, os africanos tinham apenas Pelé, Muhammad Ali e Eusébio. Eusébio nasceu africano, mas tinha nacionalidade portuguesa. Pelé era brasileiro. Muhammad Ali, americano. Quando cheguei, os africanos estavam orgulhosos e se espelhavam em mim. Eu não poderia decepcioná-los. Muitas esperanças eram depositadas sobre meus ombros. Eu tinha um peso muito grande para carregar”, rememorou Keita, anos depois, à revista SoFoot. Pois aí se concentrou seu maior pioneirismo: pouco depois da independência de Mali, fincou uma bandeira africana em solo europeu e foi reconhecido por isso. Inspirou gerações.
O táxi que transformou a história

Salif Keita nasceu em Bamako, então uma cidade do chamado Sudão Francês, em 6 de dezembro de 1946. A infância ainda seria vivida durante o período colonial, com a independência de Mali conquistada apenas em 1960. O garoto criado numa família de 11 irmãos, inclusive, ganhou seu apelido pelo qual é conhecido no país ainda nesta época. Keita era chamado de “Domingo” pelos amigos desde os dez anos, por conta de um filme francês exibido no cinema local. Todavia, o verdadeiro talento artístico do futuro craque estava mesmo na bola. E não apenas no futebol. Ele também praticava handebol durante a adolescência. A mãe o incentivava a se dedicar aos esportes, enquanto o pai era mais exigente com os estudos. Ele seguiria pelos dois caminhos.
A ascensão de Salif Keita aconteceu muito rápido, a partir de 1963. O garoto tinha 16 anos quando fez sua estreia profissional. Em novembro daquele mesmo ano, o atacante também recebeu sua primeira convocação para a seleção recém-independente de Mali. Pela primeira vez saiu do país, num amistoso contra a Indonésia. Na mesma época, o garoto fez parte de um intercâmbio esportivo do governo, que garantiu períodos de treinamento na União Soviética e na China. E a fama logo abriria as portas num dos clubes mais importantes da liga local, o Real Bamako. Por lá conquistou a Copa de Mali em 1963/64, a primeira de muitas taças.
Na temporada seguinte, Salif Keita seria cedido a outra potência local, o Stade Malien. Estava claro como o atacante habilidoso e goleador causaria impacto com qualquer camisa que vestisse. Seu pioneirismo se refletiria também nestes primórdios: o jovem teve a chance de disputar a primeira final da história da Copa dos Campeões da África, em 1965. O Stade Malien acabou vencido pelos camaroneses do Oryx Douala, mas o garoto se firmou como o primeiro artilheiro da competição continental. De volta ao Real Bamako, Keita ainda teve uma segunda chance na Champions Africana. Estava novamente na decisão de 1966, após eliminar o Oryx Douala na semifinal. Contudo, o craque amargaria outro vice, mesmo com dois gols nas finais, derrotado pelos marfinenses Stade d’Abidjan. O consolo ficaria para mais dois títulos da Copa de Mali, em 1966 e 1967.
Àquela altura, o talento de Salif Keita não passava despercebido. Sua fama ia muito além do Mali, com 20 partidas pela seleção local e uma final de Jogos Africanos no currículo. O responsável por mudar a história do jovem atacante foi um torcedor do Saint-Étienne chamado Charles Dagher. O alviverde de origem libanesa vivia em Bamako e começou a enviar cartas e mais cartas para o clube, alertando sobre o talento do atacante que fazia maravilhas pelos clubes do Campeonato Malinês. A insistência foi tamanha que os Verts resolveram oferecer uma oportunidade para Keita se provar na França. O presidente Roger Rocher entrou em contato e garantiu que o garoto de 20 anos seria recebido no Geoffroy Guichard para um período de treinamentos em meados de 1967. Foi quando começou uma verdadeira epopeia para o craque.
Keita temia que sua saída de Mali rumo à França fosse barrada pelas autoridades, quando já existia uma noção de que o talento do atacante poderia abrir portas na Europa, e ninguém queria vê-lo deixar o futebol local. Tanto é que ele começou a ser insistentemente vaiado em seus últimos jogos, numa perseguição também causada pelos títulos perdidos na Copa dos Campeões da África. “Em 1967, eu não podia mais com a pressão. As pessoas me consideravam como um semi-deus, capaz de todos os milagres. Eu era um ícone para o público. Não tinha mais o direito de errar um passe, um drible, um chute”, refletiu em 2001, à France Football.
Diante da situação, Keita considerava até que “estaria morto” para o futebol se não saísse de imediato de Mali e tentasse sua sorte no exterior. Por conta disso, ele aplicou um drible em qualquer um que tentasse impedi-lo e, para despistar, viajou antes para a Libéria. No entanto, a passagem por Monróvia foi completamente infeliz, já que o malinês acabou assaltado na cidade e perdeu todo o seu dinheiro. Ainda assim, ele conseguiu embarcar rumo a Paris. Dois dias antes da data marcada para o teste, Keita chegou na capital francesa. Então, outro problema aconteceu: enquanto um representante do Saint-Étienne o esperava no aeroporto de Le Bourget, o avião pousou em Orly por causa do mau tempo. O desencontro era preocupante, especialmente para quem não tinha um tostão no bolso.
Àquela altura, Keita corria o risco de permanecer como indigente no aeroporto. Pela segunda vez, uma alma bondosa auxiliou o atacante. Sem dinheiro para o trem, ele precisava convencer algum taxista a levá-lo até Saint-Étienne. Quatro ou cinco recusaram, até que alguém finalmente resolvesse ouvi-lo. Era uma viagem de 500 quilômetros, que custava mais de mil francos. Após ver as cartas enviadas pelos Verts ao jogador e entrar em contato com o clube, um motorista topou a corrida. Era ele também fanático por futebol, torcedor doente do Stade de Reims. Obviamente, o taxista não saiu de mãos abanando e recebeu o dinheiro dos dirigentes quando levou o garoto até o Geoffroy Guichard. Raríssimas vezes um dinheiro foi tão bem gasto num táxi, porque a partir de então o Sainté ganhava um dos maiores ídolos de sua história. Aquela viagem se tornou também uma famosa anedota nas arquibancadas.
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Prodígio num Saint-Étienne vitorioso

O Saint-Étienne se estabeleceu como um clube de elite na França a partir da década de 1940. E os primeiros sucessos dos Verts refletiam exatamente a maneira como a equipe abria suas portas para jogadores das mais diferentes origens, sobretudo para os africanos. A conquista inédita da Division 1 em 1956/57 teve duas estrelas nascidas no continente: o argelino Rachid Mekhloufi e o camaronês Eugene N’Jo Léa. Os dois anotaram juntos 54 dos 88 gols produzidos pelo time de Jean Snella na campanha. E eram dois personagens representativos além do futebol. Meses depois do título e às vésperas de ser convocado para a Copa do Mundo, Mekhloufi fugiu da França para estrelar a equipe da Frente de Libertação Nacional, que promovia através do futebol a causa da independência da Argélia em meio à sangrenta guerra com os colonizadores franceses. N’Jo Léa, por sua vez, tinha se mudado à França para concluir seus estudos em Direito. Posteriormente ele fundou a União Nacional de Futebolistas Profissionais, o forte sindicato dos jogadores franceses, e seguiu carreira diplomática, levando o futebol como uma de suas principais bandeiras.
A ascensão do Saint-Étienne se tornou mais marcante a partir da década de 1960, quando o industrial Roger Rocher se tornou presidente do clube e passou a investir de maneira mais sistemática na profissionalização. Os Verts chegaram a sofrer um rebaixamento, mas o acesso na segundona se encadeou por outro título na Division 1, em 1963/64. Jean Snella era novamente o treinador, contando com a volta de Mekhloufi ao final de sua luta pela independência da Argélia. O camaronês Frédéric N’Doumbé era outro africano que compunha aquele elenco do Sainté. A forte base se manteve e rendeu mais um troféu em 1966/67, também com uma coleção de nomes notáveis da seleção francesa: Hervé Revelli, Robert Herbin, Georges Bereta, Georges Carnus, Bernard Bousquier e Aimé Jacquet – que, afinal, causaria bem mais impacto como treinador da seleção campeã do mundo em 1998.
A temporada de 1967/68, a primeira de Salif Keita no Saint-Étienne, indicava um período de transição no clube. Jean Snella deixou o comando técnico após anos gloriosos, mas indicou um sucessor tão bom quanto para o seu lugar: Albert Batteux, de quem havia sido assistente na seleção semifinalista da Copa do Mundo de 1958. Multicampeão nos tempos em que dirigia o Stade de Reims, o novo treinador conseguiu manter a toada dos Verts. E o bicampeonato teria Keita como uma das estrelas, mesmo com apenas 21 anos. O novato foi acolhido feito um filho por Batteux, que impulsionara Just Fontaine e Raymond Kopa nos tempos de Reims. Além disso, o camisa 10 também vinha chancelado por Mekhloufi, que se encantara com seu talento num Argélia x Mali e virou o maior espelho do garoto, dentro e fora de campo. Por conta de problemas administrativos para regularizar seu registro, Keita precisou esperar 15 rodadas da Division 1 para fazer sua estreia, mesmo impressionando nos treinos. Os torcedores esperaram míseros sete minutos para vê-lo anotar o segundo gol na vitória por 3 a 0 sobre o Monaco, no principado, que também contou com tentos de Revelli e Mekhloufi.
Como consequência da burocracia, Salif Keita jogou relativamente pouco em sua primeira temporada com o Saint-Étienne, presente em 18 das 38 rodadas do Campeonato Francês. Mesmo assim terminou como vice-artilheiro do time, autor de 12 gols. O jovem anotou quatro gols em suas quatro primeiras aparições na Division 1, um por jogo, carimbando inclusive o vice-campeão Nice. Ficava óbvio como aquele torcedor libanês que vivia em Bamako tinha razão. O Sainté venceu o Francesão 1967/68 com uma vantagem de nove pontos e ainda levou uma dobradinha inédita, com a conquista da Copa da França. Keita se ausentou daquela vitória por 2 a 1 sobre o Bordeaux na decisão, que marcou uma passagem de bastão: Mekhloufi anotou os dois gols e se despediu da torcida, rumo ao Bastia para acumular também a função de treinador. O herdeiro de seu protagonismo como um mágico atacante seria exatamente aquele jovem malinês recém-contratado.
Ninguém conseguia parar o Saint-Étienne de Albert Batteux. Os Verts conquistaram o tri do Campeonato Francês, no segundo título com Salif Keita, em 1968/69. O destaque do malinês se tornou ainda mais claro, com 21 gols em 33 aparições pela competição nacional, tornando-se o grande sócio de Revelli na linha de frente. O tento mais importante veio no primeiro turno, quando iniciou a reação contra o Bordeaux, numa partida que estava 2 a 0 para os girondinos e terminou em 3 a 2 para os alviverdes. Aquele resultado fez a diferença ao final da tabela, com o Sainté exatamente dois pontos à frente dos concorrentes. Aquela temporada também garantiu a estreia de Keita na Copa dos Campeões e ele marcou logo na primeira partida, contra o Celtic de Jock Stein, mas os favoritos escoceses buscaram a classificação na volta.
O primeiro Bola de Ouro da África

O Saint-Étienne impôs um domínio inédito na Division 1 durante aquele período. Tanto é que a equipe conseguiu ser tetracampeã nacional em 1969/70, com outro troféu da Copa da França de brinde. Salif Keita se provou decisivo em ambas as campanhas. O Sainté foi muito superior no Campeonato Francês, com uma vantagem de 11 pontos sobre o vice-campeão Olympique de Marseille. O ponto alto ficou para os clássicos contra o Lyon, naquele que é considerado um dos derbies mais ferrenhos da França. Os Verts empacotaram 7 a 1 no primeiro turno e 6 a 0 no segundo, naquelas que são as maiores goleadas da história do confronto. Keita anotou dois gols numa partida e mais um na outra. Somando liga e copa, o malinês assinalou 28 tentos nos dois títulos do ASSE em 1970.
Outro grande momento da temporada 1969/70 no Saint-Étienne veio com a classificação sobre o Bayern de Munique nos 16-avos de final da Copa dos Campeões. Os bávaros fizeram 2 a 0 em Grünwalder, mas a torcida no Geoffroy Guichard presenciou a reviravolta com os 3 a 0 dos alviverdes. Revelli assinalou os dois primeiros gols, enquanto o tento decisivo saiu numa cabeçada de Salif Keita, aos 36 do segundo tempo. Gerd Müller, Franz Beckenbauer e Sepp Maier estavam do outro lado. Todavia, o Sainté acabou eliminado na fase seguinte, pelo Legia Varsóvia de Kazimierz Deyna e Robert Gadocha. Nada que necessariamente impactasse na imagem que Keita construía ao seu redor.
Em 1970, a France Football resolveu criar uma Bola de Ouro específica para os jogadores africanos. O novo prêmio seria entregue ao melhor futebolista do continente, enquanto a Bola de Ouro “original” era exclusiva de europeus e naturalizados. Pois a nova condecoração não teria melhores mãos que as de Salif Keita em sua primeira edição. Nem mesmo a realização da Copa do Mundo ou da Copa Africana de Nações naquele ano impediu a consagração do malinês, por tudo o que construía no Saint-Étienne. Keita recebeu 54 votos, contra 28 do marfinense Laurent Pokou e 28 do egípcio Ali Abo Greisha. Seu pioneirismo ficaria marcado na lista de vencedores do troféu.
E a adoração por Salif Keita no Saint-Étienne era tão grande que provocou até mesmo uma mudança no escudo do clube em 1970. O atacante entendia como poucos a cultura local e se integrava à comunidade, sem perder suas raízes. Inclusive retomou seus estudos, formando-se em Direito, após iniciar a universidade em Bamako. Tal identificação solidificou sua imagem entre os torcedores, que deram a ele o apelido de Pantera Negra. Em 1970, a diretoria resolveu promover um concurso para que estudantes de artes desenhassem um novo emblema para o ASSE. O design redondo trazia a imagem da pantera negra ao lado de uma bola de futebol e seria usado de início nos compromissos internacionais do Sainté na Copa dos Campeões. O detalhe é que a Pantera Negra se tornou mascote dos Verts muito além da permanência de Keita. Aquele escudo foi usado até 1978 e uma nova versão com o felino surgiu em 1988, estampando o peito até 1993. Sinais de que os laços criados pelo malinês foram duradouros.
O recorde de gols e o encontro com Pelé

Diante de tamanho carinho, Salif Keita correspondeu da melhor maneira: com gols. Individualmente, o atacante viveu a melhor temporada de sua carreira em 1970/71, justo aquela com o escudo da pantera. Foram assombrosos 42 gols em 38 rodadas do Campeonato Francês. Os 17 tentos do primeiro turno já foram maiúsculos. Pois o malinês conseguiu balançar as redes 25 vezes em 19 rodadas do segundo turno. Algumas atuações foram assombrosas, com quatro gols nos 6 a 0 sobre o Bastia e outros quatro nos 5 a 2 sobre o Ajaccio. Seu grande show, de qualquer maneira, veio nos 8 a 0 para cima do Sedan. O craque se encarregou de nada menos do que seis gols, ainda hoje o recorde numa partida do Francesão.
Por incrível que pareça, a forma absurda de Salif Keita não foi suficiente para o Saint-Étienne ser campeão. O Olympique de Marseille conseguiu impedir o penta dos alviverdes, com quatro pontos de vantagem na tabela. Mais curioso ainda, sequer a artilharia da competição ficou com Keita. O iugoslavo Josip Skoblar conseguiu superá-lo, com inacreditáveis 44 gols pelos marselheses. Esta é ainda hoje a maior marca da história da primeira divisão do Campeonato Francês. Keita possui a segunda maior marca. Desde então, o mais próximo de chegar a esse sarrafo foi Zlatan Ibrahimovic, com 38 gols em 2015/16. Tal estatística mostra como a temporada dos dois goleadores de 1970/71 foi muito fora da curva. Na história das principais ligas europeias, Fernando Peyroteo (43 gols pelo Sporting em 1946/47) e Eusébio (42 gols pelo Benfica em 1967/68) foram os únicos outros jogadores nascidos em solo africano que marcaram tantos gols quanto Keita em uma só temporada.
E a fama de Salif Keita rendeu um encontro estelar em março de 1971: um combinado formado por Saint-Étienne e Olympique de Marseille desafiou o Santos, com Pelé do outro lado, num amistoso realizado em Paris. O Rei já tinha sua imagem consolidada como tricampeão do mundo, entrando na parte final de sua condecorada carreira. Apesar do empate por 0 a 0, o Príncipe Salif conseguiu seu destaque pelas jogadas plásticas. O atacante se disse “impressionado” e “intimidado” ao ver o camisa 10 do outro lado, mas também deu seu jeito de ser reconhecido pelo maior de todos os tempos.
“Quem pretendia ver Pelé acabou vendo o africano Salif Keita, atacante do Saint-Étienne, que fez inúmeras jogadas de alta categoria durante a partida inteira, provocando gritos em coro dos torcedores de ‘Keita, Keita’ em vez do esperado ‘Pelé, Pelé’. Em especial no segundo tempo, Keita colocou em perigo diversas vezes a meta do goleiro Joel. Este só não foi vencido por sorte, pois o jogador Skoblar em duas oportunidades enviou a bola contra a trave do Santos”, resumiu o Correio da Manhã, na época.
Os sinais de desgaste do Saint-Étienne se tornavam mais evidentes àquela altura, porém. Na reta final da Division 1 de 1970/71, o presidente Rocher decidiu dispensar o goleiro Georges Carnus e o líbero Bernard Bousquier, dois jogadores da seleção francesa que estavam em negociação exatamente com o Olympique de Marseille. Ambos foram campeões nacionais no Vélodrome em 1971/72, em campanha soberana dos marselheses. Já o Sainté, em pleno desmanche, terminou num modesto sexto lugar. Ficou a 12 pontos dos campeões e sequer se classificou para a Copa da Uefa. Keita de novo fez ótimas partidas e garantiu 29 gols aos alviverdes. Mas o malinês novamente terminou como vice-artilheiro do Francesão, apenas um gol abaixo de Skoblar, outra vez seu algoz.
Aquela temporada marcou ainda o momento mais importante de Salif Keita com a seleção de Mali. Em fevereiro de 1972, o atacante disputou pela primeira e única vez a Copa Africana de Nações. Liderava as Águias numa edição do torneio realizada em Camarões. Os malineses conseguiram o melhor resultado de sua história: passaram na primeira fase com três empates e superaram Zaire nas semifinais. A derrota aconteceu apenas na decisão, contra Congo-Brazzaville. Salif Keita, que se lesionou e perdeu duas partidas, não conseguiu evitar a derrota por 3 a 2 na final. O destaque de Mali acabou sendo Fantamady Keita, artilheiro daquela CAN com cinco gols.
As lutas de Salif Keita por seus direitos

De volta ao clube, Salif Keita não demorou a viver a cisão definitiva do Saint-Étienne, em 1972. Albert Batteux deixou seu cargo de treinador, insatisfeito com as interferências do presidente Rocher. Quem assumiu o comando foi Robert Herbin, o capitão que tinha acabado de pendurar as chuteiras e lideraria os Verts a novas conquistas na década de 1970, inclusive com o vice da Champions. Porém, esse recomeço não contaria mais com a presença de Salif Keita. O atacante também entrou em litígio com a diretoria por conta de seu contrato – não admitia que os jogadores africanos recebessem menos que os franceses. Despediu-se com 142 gols, ainda hoje o terceiro maior artilheiro da história do ASSE, atrás apenas de Revelli (211) e Mekhloufi (152). Além da imagem eternizada através da Pantera Negra, Keita também batiza com seu nome o estádio utilizado pelo clube em partidas da equipe feminina e das categorias de base. Seguiu amado, mesmo que sua transferência tenha causado controvérsia.
Salif Keita tinha propostas de clubes como o Bayern de Munique, o Ajax e o Anderlecht. Entretanto, se juntou exatamente ao Olympique de Marseille. Virou o jogador mais bem pago da França naquele momento. A rivalidade entre os clubes chegava ao talo, num momento de costumeiras rusgas entre seus presidentes e também de brigas nas arquibancadas. Bicampeão francês, o OM montava um timaço. Aquele elenco mantinha Carnus e Bosquier entre as antigas estrelas do Saint-Étienne, em defesa que também ganhou a adição do jovem Marius Trésor. Já no ataque, Keita acompanharia o sueco Roger Magnusson e o seu principal concorrente pela Chuteira de Ouro, Josip Skoblar.
A transferência conturbada de Salif Keita causou uma suspensão de seis meses ao camisa 10. E a estreia não poderia ser mais apoteótica: dentro do Vélodrome, o Olympique de Marseille recebia exatamente o Saint-Étienne, em novembro de 1972. O Pantera Negra não teve piedade dos ex-companheiros e marcou dois gols na vitória por 3 a 1 dos marselheses. Na comemoração do segundo tento, provocou o presidente Rocher nas arquibancadas. O OM ganhava um novo ídolo, aplaudido de pé pela torcida da casa. Porém, os números do craque caíram naquela campanha. Anotou dez gols em 18 aparições na Division 1. O Olympique terminou em terceiro, com a taça de 1972/73 nas mãos do Nantes. E o destaque individual de novo coube a Skoblar, mais uma vez artilheiro da competição, com 26 gols.
Salif Keita permaneceu apenas uma temporada no Olympique de Marseille. O grande problema se concentrava sobre o regulamento do Campeonato Francês, que permitia apenas dois estrangeiros dentro de campo. Desta maneira, Keita tinha que se revezar com Skoblar e Magnusson na composição do ataque. Então, a direção do OM passou a pressionar Keita para se naturalizar francês. Ele seria “assimilado” pelo país, com base num acordo da antiga metrópole com Mali após a independência. Por uma questão de orgulho de suas origens malinesas, o craque não aceitaria se submeter a isso.
“Não quero fazer nada contra minha vontade, caso contrário pedirei para reverem meu contrato ao final da temporada. Mali é uma república jovem e, indo além do futebol, meu futuro está lá. O que pensariam todos os jovens negros que me idolatram, se eu aceitasse agora que não sou mais um malinês em pleno direito?”, declarou Keita, ao L’Équipe, em fevereiro de 1973. “O que significa ser assimilado? Sou malinês e pretendo continuar assim. Quando o Olympique me contratou, sabia muito bem que me trazia como um estrangeiro. Sou um jogador negro: sinto que sou um exemplo para todos os jovens no meu país e no meu continente. Sou o exemplo de como um garoto de Bamako, que não tinha nada além de seu louco amor pelo futebol, pode chegar a certo nível na sociedade. Quem nunca esteve em Mali não imagina como cada movimento meu é acompanhado. Fico até um pouco envergonhado, porque isso parece sem importância comparado aos problemas diários causados pela pobreza que existe em todos os lugares. Para essas pessoas, sou como um embaixador de Mali no futebol francês. Eu me sinto em dívida com eles e estaria os traindo se aceitasse isso”.
O racismo na Espanha e o respeito em Portugal

De fato, Salif Keita deixou o Olympique de Marseille em 1973. Assinou com o Valencia, numa experiência que o colocava em uma nova grande liga e trazia outros pioneirismos, mas também preconceitos. Aquela temporada de 1973/74 marcou a reabertura de La Liga a jogadores estrangeiros. Salif Keita foi o único negro contratado naquele ano e se tornava apenas o quarto jogador nascido num país da África Subsaariana a disputar o Campeonato Espanhol – com os principais antecedentes no Atlético de Madrid de Miguel Jones e Jorge Mendonça, que também teve como ídolo o marroquino negro Larbi Ben Barek. Keita ainda foi o primeiro africano da história do Valencia, embora não o primeiro negro, num clube que idolatrou os brasileiros Walter Marciano e Waldo na virada dos anos 1960.
Sem muitos pudores, houve uma onda de racismo contra Salif Keita em sua chegada ao Valencia, inclusive da imprensa local e dos próprios companheiros de time. Diziam os jornais que o clube foi “buscar alemães e voltou com um africano”. Companheiro de ataque, Quino ainda declarou ao AS: “As equipes se reforçaram e nós não, temos um negro que não arranha a bola”. As grandes estrelas desse novo momento do Campeonato Espanhol eram o holandês Johan Cruyff, no Barcelona, e o alemão-ocidental Günter Netzer, no Real Madrid. O austríaco Kurt Jara era outra novidade do Valencia no mesmo período.
Apesar do preconceito expresso, Salif Keita conquistou o reconhecimento da torcida do Valencia – era chamado de Pérola Negra. Os Ches tinham conquistado La Liga três temporadas antes e mantinham em seu comando técnico ninguém menos que Alfredo Di Stéfano. Entretanto, o malinês já não conseguia reproduzir o melhor futebol de sua carreira. Na primeira temporada, em 1973/74, anotou apenas sete gols em 30 partidas. A estreia retumbante, com dois gols contra o Oviedo, não se repetiu depois. O camisa 10 melhorou seus números na campanha seguinte, com 11 gols em 22 aparições – com direito a uma jogada mágica enfileirando marcadores para deixar sua marca contra o Atlético de Madrid, justo na estreia de Luis Aragonés como treinador dos colchoneros. Entretanto, já sem Di Stéfano na casamata, o Valencia fez uma campanha na metade inferior da tabela. A despedida do malinês aconteceu em baixa, com cinco gols em 22 jogos em 1975/76. O melhor resultado ficou para a vitória por 3 a 2 sobre o Barcelona, em que o Pantera Negra fez um dos gols de sua equipe e Johnny Rep completou o placar com outros dois.
Salif Keita se queixaria da maneira como foi utilizado pelo Valencia. Muitas vezes era escalado como centroavante, quando rendia melhor como ponta-de-lança, e isso o incomodava. O atacante também teve problemas recorrentes com lesões, que atravancaram sua passagem pela Espanha sobretudo a partir da segunda temporada. As pancadas eram muito comuns, numa época demasiadamente física (e brutal) do futebol espanhol. Saiu em 1976, quando os Ches resolveram buscar Mario Kempes para o ataque. O malinês seria bem mais aclamado no Sporting, com um final de carreira digno no Campeonato Português quando passava dos 30 anos. A cor de sua pele não era mais assunto, numa liga onde os jogadores negros eram idolatrados há décadas.
A chegada a Lisboa seria inspirada inclusive por outro Pantera Negra, Eusébio. Fã confesso do veterano, Salif Keita vestiria a camisa do rival do Benfica, mas estaria na mesma liga onde seu ídolo se consagrara. “Sempre desejei conhecer o Eusébio. Era o melhor jogador de futebol africano de sempre. Eusébio é africano, nasceu em Moçambique. Certo, jogou pela seleção portuguesa, mas é africano, acima de tudo. Sempre o admirei. Mesmo quando ainda jogava no Mali, nos anos 60. Aliás, os seus feitos chegavam a Bamako com facilidade. Adorava-o. A ele, Eusébio, mais Pelé e Muhammad Ali. O meu trio black power perfeito”, declarou Keita, em entrevista ao site Mais Futebol, em 2019. O malinês estaria presente inclusive na partida em que Eusébio anotou seu último gol na liga, pelo Beira-Mar.
Salif Keita recuperou sua forma no Campeonato Português de 1976/77. O Sporting terminou com o vice-campeonato, mas o malinês formou um potente ataque com Manuel Fernandes e Manoel Costa. Foram 14 gols do Pantera Negra, pintando como vice-artilheiro da equipe. Já na temporada seguinte, em 1977/78, Keita chegou a ser treinado pelo brasileiro Paulo Emílio e teve como seu pupilo Rui Jordão, histórico atacante nascido em Angola e consagrado na seleção de Portugal. Os sportinguistas só não conseguiram ir além na tabela, com a terceira colocação no Campeonato Português, em edição na qual o malinês contribuiu com nove gols. O sucesso ficou para a conquista da Taça de Portugal, com a vitória por 2 a 1 sobre o Porto na final. Keita deu sua maior contribuição nas quartas, quando fez gol na classificação contra o Benfica. A liderança do veterano era importante, a ponto de se tornar o primeiro capitão estrangeiro da história leonina.
A última temporada de Salif Keita no futebol europeu aconteceu em 1978/79. O jejum do Sporting no Campeonato Português persistiu, mas o atacante teve bom rendimento, com dez gols em 21 aparições na liga. Entretanto, sequer terminou a campanha em Lisboa. Os Estados Unidos se transformaram num Eldorado para jogadores em final de carreira, com o investimento da NASL em estrelas internacionais. Keita tinha badalação o suficiente para ser uma das referências nos estádios americanos. Assim, viveria sua aventura com a camisa do New England Tea Men, franquia da região de Boston que dividia seu estádio com o New England Patriots, da NFL. A mudança para Massachusetts também tinha interesses acadêmicos, com Keita se dedicando aos estudos numa universidade local.
O homem de negócios e o exemplo

A passagem de Salif Keita pela NASL seria bem curta. O atacante disputou apenas 39 partidas pela liga, mas com uma boa marca de 17 gols. Porém, estava numa equipe que mal conseguiu se classificar para os playoffs e não era mais do que uma coadjuvante na competição. Em 1980, o Pantera Negra decidiu pendurar as chuteiras aos 34 anos de idade. Sua contribuição ao futebol estava concluída, pronto para ser lembrado como uma lenda sobretudo no Mali e na França. Ainda ficou por mais quatro anos nos Estados Unidos, trabalhando como executivo de marketing num banco local. Só em meados da década de 1980 que a lenda retornou a Bamako, acompanhado pela esposa e pelos filhos. Realizou investimentos no setor hoteleiro.
Salif Keita ainda continuou como uma figura cultuada no futebol. A Pantera Negra onipresente no Saint-Étienne é a mais clara referência ao ídolo. Sua história também serviria de base ao filme Le Ballon d’Or, de 1994. O veterano atuou no papel de treinador de um garoto que tentava se tornar jogador de futebol. E o fim da vida do craque foi dedicado a desenvolver o futebol de Mali. O veterano criou a primeira academia de futebol profissional do país nos anos 1990, que formou jogadores importantes como o volante Mahamadou Diarra e o atacante Cheick Diabaté. Já na década de 2000, Keita atuou por quatro anos como presidente da Federação Malinesa de Futebol e também participou do governo como ministro. Em 2013, numa volta à velha casa, foi nomeado embaixador do Saint-Étienne.
Paralelamente, familiares de Salif Keita seguiram empilhando títulos no futebol europeu. Seydou Keita é sobrinho da lenda e inclusive começou na academia do tio. O meio-campista conseguiu conquistar a Champions League duas vezes pelo Barcelona, onde viveu o auge da carreira, e disputou sete edições da Copa Africana de Nações. É o recordista em partidas e gols pela seleção malinesa, tornando-se a principal companhia do tio entre os maiores jogadores da história do país. Outro sobrinho de Salif é o meio-campista Mohamed Sissoko, que nasceu na França e não atuou na academia da família. O volante triunfou no Valencia e conquistou La Liga em 2003/04, além de ter faturado a Ligue 1 pelo PSG em 2012/13. Passou ainda por Liverpool e Juventus, além de estar presente em cinco edições da CAN.
Em 1994, Salif Keita protagonizou outro pioneirismo: se tornou o primeiro jogador africano a receber a Ordem do Mérito da Fifa. Era mais uma marca de como o atacante abriu caminhos a tantos outros craques africanos que seguiram seus passos. Inspirou. Como um pioneiro, seguiu exaltado nas últimas décadas e citado em qualquer lista de maiores futebolistas da África ou do Campeonato Francês. Assim sua memória se preservará por muito mais tempo.
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* Como complemento, vale conferir o vídeo gravado pelo jornalista Luis Fernando Filho, no canal África Mamba, que serviu como uma das bases para esse texto e que oferece informações complementares. Fica também o convite para seguir o excelente trabalho realizado pelo canal, o melhor em português sobre futebol africano.



