África

Revolução nos estádios

A derrocada da ditadura de Hosni Mubarak, que perdurou por quase 30 anos, sinalizava o fim da onda de revoltas que estremeceu o Egito no início do ano. No entanto, as massas egípcias já entraram novamente em cena, agora se opondo a Junta Militar, que substituiu o ditador para assumir o chamado “governo de transição” e agora tenta se perpetuar no poder.

O futebol não está alheio a essas turbulências. Na temporada passada, o campeonato teve de ser paralisado por três meses e a inatividade influenciou diretamente na reta final da competição – o Zamalek, que vinha firme na luta pelo título, não manteve o embalo e perdeu o caneco para o Al Ahly.

A Federação Egípcia de Futebol (EFA) adota o discurso de que os confrontos entre manifestantes e militares em Cairo e outras cidades importantes, que já resultaram em mais de 2 mil feridos e 30 mortes, não ameaçam a continuidade da liga. Não por enquanto, já que, com a justificativa de que a seleção egípcia sub-23 se prepara para a disputa do Pré-Olímpico Africano, o campeonato retorna apenas no dia 12 de dezembro.

Entretanto, os ‘ultras’ já se mostram dispostos a continuar a revolução em estádios de futebol. Uma das grandes divergências entre os torcedores e a EFA é a utilização de fogos de artifício nas arquibancadas. Para os ultras, a pirotecnia não é apenas a satisfação de criar uma ‘atmosfera febril’ nos estádios, mas também simboliza uma forma de ‘limpeza’ dos ‘contra-revolucionários’ do futebol. Para eles, a Federação como um todo e a própria mídia são ‘resquícios de Mubarak’. ‘Vocês não nos ensinarão como apoiar nosso time’, dizia uma faixa dos ultras do Al Ahly no duelo contra o Haras El Hedood, no mês passado.

Obviamente, a necessidade de defender a ‘liberdade’ nas arquibancadas tem criado um enorme tumulto entre torcedores e autoridades. A EFA tem tomado algumas atitudes para contornar o ambiente pesado nos estádios, como proibir a utilização de fogos de artifício e punir os clubes envolvidos com perdas de mando de campo e jogos com portões fechados. Al Ahly, Zamalek, Ismaily, Al Masry, entre outros, já foram ‘vítimas’ da nova medida, mas a situação chegou a um ponto tão incontrolável que os ultras violam até mesmo a proibição de torcedores nos estádios. Os do Zamalek, por exemplo, não deram bola para a medida e invadiram o Cairo Stadium para acompanhar o jogo contra o El-Shorta. Iniciou-se um confronto entre forças de segurança e torcedores, resultando em dezenas de presos e outros tratados duramente pela polícia.

Os ultras do Al Ahly também ensaiaram uma atitude parecida. Os Diabos Vermelhos enfrentariam o El Dakhleya com portões fechados, porém os torcedores do Ahly não hesitaram em invadir o Cairo Stadium. Pouco depois, os mesmos se retiraram entregando uma mensagem de que ninguém poderia privá-los do direito de assistir as partidas. Quando o campeonato retornar, o Al Ahly encara o Ismaily no último jogo em que terá de cumprir a punição imposta pela EFA. Só terão de convencer os ultras, que já deram o recado via Facebook: “Nós dissemos que não estaríamos presentes no jogo contra o Dakhleya, para garantir que os interesses do clube não sejam prejudicados. No entanto, vimos por este meio anunciar oficialmente que estaremos presentes na partida contra o Ismaily. Glória ao povo livre”.

De acordo com o regulamento da EFA, uma equipe que não respeitar a proibição da entrada de torcedores é punida com perda de pontos. Obviamente não é uma maneira de resolver o problema, mesmo porque mancharia o início de um campeonato dos mais equilibrados nos últimos anos no país – ainda que o líder, pra variar, seja o Al Ahly. O futebol, que tinha tudo pra ser uma distração diante dos problemas políticos no país, acaba se misturando com as turbulências. Assim como em 2010-11, a continuidade da temporada está mais do que ameaçada.

CURTAS

– A bola rolou para o Pré-Olímpico Africano, que está sendo disputado no Marrocos e garante vaga direta para três seleções nas Olimpíadas de Londres, em 2012 (o quarto colocado disputa um playoff contra uma seleção asiática). Pelo Grupo A, os anfitriões marroquinos bateram a Nigéria por 1 a 0. A Argélia surpreendeu e bateu Senegal também pelo placar mínimo.

– No Grupo B, um gol de Ahmed Magdi garantiu a vitória do Egito sobre Gabão por 1 a 0. No duelo mais aguardado da rodada inicial, África do Sul e Costa do Marfim empataram em 1 a 1.

– Quebrando um jejum de quatro anos, o Tusker FC sagrou-se campeão queniano no último fim de semana. A equipe bateu o Congo United por 1 a 0 e contou com o tropeço do Ulinzi Stars, derrotado pelo Sofapaka por 2 a 1.

– Vivendo um conto de fadas pela classificação para o Mundial Interclubes, o Espérance precisa acordar para a realidade. Na Ligue 1 tunisiana, a equipe foi derrotada pelo CA Bizertin por 2 a 1 e perdeu uma invencibilidade de quase um ano em jogos pelo campeonato nacional (a última derrota tinha sido para o Etoile du Sahel, em janeiro).

– Pela Premier League ganesa, o Asante Kotoko manteve a liderança da competição ao golear o Wassaman por 4 a 1 – Nathaniel Asamoah e Ahmed Touré marcaram dois gols cada. O Kotoko soma 18 pontos, um a mais que o atual campeão, Berekum Chelsea, e o maior rival, Hearts of Oak.

– No clássico argelino, o líder USM Alger foi derrotado pelo Mouloudia Alger por 2 a 1, mas manteve a liderança da Ligue 1. Foi apenas a segunda vitória do MC Alger na temporada, que neste ano disputou a Liga dos Campeões Africana.

– Para fechar o giro, no Madagascar, o Japan Acteul bateu o ASJF Capricorne por 2 a 1 e sagrou-se campeão nacional.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo