África

Renovação?

Dez anos. Imagine a seleção brasileira sem nenhum treinador local por uma década. Adicione ainda a passagem de sete (!) treinadores durante esse período. O futebol africano nunca foi sinônimo de estabilidade de emprego ou privilégio aos técnicos nascidos no continente, mas no caso de Gana, era hora de mudar esse cenário (ou pelo menos a “segunda parte” dele). Após a demissão do sérvio Goran Stevanovic, que fracassou na CAN 2012, a Federação Ganesa se rendeu e nomeou Kwesi Appiah como o novo treinador da seleção nacional. Ele não era a primeira opção para o cargo, e muito menos é tratado como unanimidade. E até que se prove o contrário, realmente não possui o perfil que os Estrelas Negras necessitam no momento.

Não cabe aqui julgá-lo por ser “fruto da terra” ou estrangeiro, até porque não custa lembrar que as quatro Copas Africanas que Gana possui em sua história foram conquistadas com um ganês no comando. Appiah foi um jogador importante da seleção nacional entre o fim da década de 80 e o início da década de 90, mas depois de sua aposentadoria, em 1993, passou pelo menos 15 anos longe dos holofotes até ressurgir como assistente técnico dos Estrelas Negras, cargo que ocupava até a última Copa Africana.

Como treinador, esta será sua primeira experiência profissional – não exatamente, já que ele foi medalhista de ouro nos Jogos Pan-Africanos de 2011, um título inédito para Gana em 56 anos. A seleção ganesa vive um momento conturbado, e não se sabe até que ponto o novo comandante saberá administrar essa pressão por resultados. Espírito de liderança também nunca foi o seu forte desde os tempos de jogador. Na CAN de 1992, por exemplo, ele foi designado para ser o capitão de Gana, mas pouco depois, o até então técnico Charles Kumi Gyamfi decidiu “repassar” a faixa para Abedi Pelé, pelo fato de Appiah “não estar preparado para tal responsabilidade”.

O raciocínio é simples: se a principal experiência profissional de Appiah é o trabalho como assistente da seleção nos últimos quatro anos e todos os treinadores fracassaram durante esse período, o que justificaria sua “promoção” ao cargo? O próprio comportamento da federação mostra que a escolha não teve nenhum fundamento. O preferido dos diretores era Marcel Desailly, campeão do mundo em 1998 pela França, e até a última semana, a negociação estava muito bem encaminhada. Pelo menos até se discutirem valores financeiros.

Desailly atualmente trabalha no Canal+, da França, e ganha aproximadamente dois milhões de euros por ano. Para não sair totalmente no prejuízo, o ganês naturalizado francês pediu nada menos que 100 mil euros mensais (para se ter uma ideia, simplesmente 70 mil euros a mais do que Stevanovic recebia). Como já era de se esperar, a FA disse que não poderia arcar com o valor. Especula-se ainda que Desailly tenha exigido autonomia total no comando, o que deveria significar a chegada de Ray Wilkins, ex-Chelsea, como seu assistente – mais um custo fora da realidade da federação.

A falta de “apelo popular” de Appiah também pode fazer com que jogadores ausentes da seleção, como Kevin-Prince Boateng, não sintam-se suficientemente convencidos a retornar. Apesar do discurso de “preocupação com lesões” e “foco no clube” que motivou sua aposentadoria, não é novidade que o conflito de egos com Stevanovic foi determinante para essa decisão. Pouco carismático, Appiah precisará de muito jogo de cintura para reverter essa situação. Ainda que seja interessante quebrar o ciclo de treinadores estrangeiros (foram três sérvios, dois alemães, um francês e um português desde 2002), a escolha não parece romper com as linhas de trabalho anteriores. Resta ao novo treinador provar como implantou seus próprios conceitos a partir da vivência de trabalhos fracassados num passado recente.

Curtas

 

– Em mais um amistoso disputado pela seleção egípcia aproveitando a paralisação do futebol local, os comandados de Bob Bradley venceram a Nigéria (que só contou com jogadores que atuam no próprio país) por 3 a 2. Temsah, Aboutrika e Mekki anotaram para os faraós. Dias depois, vitória sobre a Mauritânia por 3 a 0, com dois gols de Gedo.

– Uma das joias da seleção egípcia, o atacante Mohamed Salah, que atuava no Arab Contractors, assinou com o Basel para a próxima temporada. Salah firmou contrato por quatro anos e é tido como o substituto de Shaqiri no clube suíço. O atacante destacou-se no Mundial Sub-20 2011 e em partidas pela seleção principal neste ano.

– Outra revelação do futebol egípcio também está de saída: o zagueiro Ahmed Hegazy, companheiro de Salah no Mundial Sub-20 e que atua pelo Ismaily, foi contratado pela Fiorentina para 2012-13 por 1,5 milhão de euros. O clube egípcio deverá receber imediatamente 50% do valor, que será usado para quitar algumas de suas dívidas.

– Fechando o ‘giro egípcio’: o técnico da seleção sub-23 do Egito, Hany Ramzy, divulgou uma lista com 73 jogadores pré-convocados para as Olimpíadas de Londres. Veteranos como El Hadary, Aboutrika e Hassan marcam presença. Entre 15 de abril e 19 de julho, esta equipe disputará 14 partidas amistosas, incluindo o Torneio de Toulon, na França.

– A CAN 2012 se encerrou em fevereiro, mas continua fazendo ‘vítimas’ entre os treinadores. Lito Vidigal, que dirigia Angola há um ano e meio, foi destituído do cargo. O contrato do treinador se estendia até a CAN 2013, mas a federação local optou pela rescisão por conta da atmosfera ruim que tomou conta dos Palancas Negras.

– Pela primeira vez na história, a Líbia conseguiu figurar entre as 50 melhores seleções do ranking da Fifa. Os comandados de Marcos Paquetá alcançaram o 46º posto, subindo nove posições em relação à classificação anterior. A melhor seleção africana segue sendo a Costa do Marfim, 15ª colocada no ranking mundial.

– Quarto colocado na Premier Soccer League, o Kaizer Chiefs não suportou o mau momento e demitiu o treinador Vladimir Vermezovic. O sérvio comandava a equipe desde 2009, mas nesta temporada, não conseguiu montar uma equipe suficientemente competitiva para disputar o primeiro lugar.

– Em Gana, o Asante Kotoko se consolidou como o virtual campeão nacional ao vencer o dérbi contra o Hearts of Oak por 2 a 1, abrindo 12 pontos de vantagem na liderança. Em Angola, com mais um gol de Rivaldo, o Kabuscorp bateu o Sporting de Cabinda por 2 a 0 e subiu pro 6º lugar no Girabola.

– O líder FUS Rabat foi novamente surpreendido e segue balançando na liderança do Campeonato Marroquino. A equipe perdeu em casa para o Olympique de Safi por 2 a 1 e ficou nos 47 pontos. O Moghreb Tétouan, vice-líder, empatou em 2 a 2 com o Hassania Agadir e perdeu a chance de tomar a ponta, chegando aos 46.

– Com gols do capitão Chemmam e de Msakni, o Espérance fez 2 a 1 no Stade Tunisien e abriu quatro pontos de vantagem na liderança da Ligue 1 tunisiana, já que o Bizertin, vice-líder, sofreu sua primeira derrota na temporada, para o Marsa (3º).

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Equipe Trivela

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