África

Reflexos da revolução

Em meio à iminente derrocada da ditadura de Muammar Khadafi, que já ultrapassa quatro décadas, a Líbia corre o risco de abrir mão de um dos trabalhos mais promissores já realizados com a seleção nacional em toda a história. Obviamente, diante de um interminável conflito entre insurgentes e tropas leais a Khadafi (que já tirou a vida de mais de 1.300 pessoas), uma das últimas coisas com a qual o povo está preocupado é o futebol. Todavia, vale analisar o panorama atual com carinho.

A seleção líbia está sob a batuta do brasileiro Marcos Paquetá, campeão mundial sub-17 e sub-20 em 2003 com a Seleção Brasileira e técnico da Arábia Saudita na Copa do Mundo de 2006. Com ele, a Líbia atingiu sua melhor colocação na história do ranking de seleções da Fifa: um honroso 58º lugar. O desempenho nas eliminatórias da Copa Africana de Nações é ainda mais promissor. Em quatro jogos, duas vitórias e dois empates. Entretanto, independente de como se desenhar a situação política do país nas próximas semanas, é muito provável que os dois próximos confrontos da seleção líbia, contra Moçambique e Zâmbia, não aconteçam.

Todas as estradas que dão acesso a Trípoli, capital da Líbia, estão bloqueadas, bem como a fronteira com a Tunísia, que teoricamente ainda é comandada pelas tropas do ditador. Portanto, viagens para Mali (onde a Líbia mandaria seu jogo contra Moçambique) e Zâmbia nos próximos meses tornaram-se praticamente inviáveis. A situação instável coincide com um dos melhores momentos da história da seleção nacional, que vivia uma enorme expectativa de garantir vaga na CAN 2012.

Não é pra menos. Os líbios ocupavam a vice-liderança do Grupo C, com oito pontos, duelando de igual pra igual contra seleções tecnicamente superiores como Zâmbia e Moçambique (derrotados pela Líbia na segunda e na terceira rodada, respectivamente). Marcos Paquetá assumiu o comando da seleção nacional com um discurso pra lá de ambicioso: falou em criar uma integração entre a base e a seleção principal e até em vaga inédita ao país na próxima Copa do Mundo.

Nos últimos dias, o técnico manifestou a possibilidade de deixar o comando da seleção nacional por razões óbvias. Paquetá sempre conviveu com situações delicadas durante seu trabalho, mas a situação parece ter se tornado insustentável – Paquetá não acompanha de perto, já que está no Brasil desde março. Apenas para ilustrar a relação direta entre política e futebol na Líbia, em junho, quatro jogadores da seleção nacional e o técnico Adel bin Issa, do Al Ahly (um dos maiores clubes do país), se uniram aos rebeldes locais em prol do fim do regime de Khadafi.

Aliás, a queda do ditador já representaria por si só uma revolução no futebol local. Nunca é demais lembrar que, nos últimos anos, os clubes do país e até a Federação Líbia de Futebol estiveram nas mãos de pessoas ligadas a Khadafi. O filho mais velho do ditador, Muamar Al-Saadi, atuou por algum tempo no futebol líbio e rapidamente conseguiu destaque (com a ajuda dos goleiros adversários, que não hesitavam em facilitar as coisas para o “filho do homem”).

Em uma dessas situações, torcedores do Al Ahly, da cidade de Benghazi – que atualmente se tornou num reduto dos rebeldes líbios – viram seu clube prejudicado e foram à luta, literalmente, queimando cartazes do ditador e tacando fogo na sede da Federação Local. Como resposta, o governo demoliu o estádio do Al Ahly e impôs uma punição ao clube por tempo indeterminado, que acabou se encerrando em 2005.

Isso sem contar o conhecido investimento de Khadafi no futebol italiano em meados de 2002, comprando 7,5% das ações da Juventus e adquirindo a Triestina por um preço irrisório. Seu filho também perambulou pelo calcio, acumulando passagens fracassadas por Perugia, Udinese e Sampdoria. O fato é que, além dos novos conflitos que se desenham no país (afinal, a criação de uma sociedade livre não acabará com os conflitos internos pelo poder), o trabalho de Paquetá à frente da seleção nacional deverá ficar pelo caminho. Mas a boa campanha na CAN deixa uma lição: o futebol líbio está pronto para emergir. Só que agora, terá de recomeçar do zero.

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Equipe Trivela

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