África

Recordista de títulos

O Coton Sport foi além das expectativas, mas não teve jeito. O Al Ahly soube tirar proveito de sua maior experiência e, atuando fora de casa, resistiu à pressão dos camaroneses para assegurar o seu sexto título da Liga dos Campeões e se tornar o maior vencedor do torneio no continente. Porém, engana-se quem pensa que foi fácil. Como tem sido a tônica das últimas finais da competição, o equilíbrio marcou os confrontos decisivos e, por mais clichê que possa parecer, foram nos detalhes que o destino da taça foi decidido.

Ao contrário do que se esperava, o clima tenso que marcou a preparação dos dois times para o jogo em Garoua não acabou se consumando, tendo a torcida se comportado de modo exemplar durante a partida. Dessa forma, restou, então, ao Coton se impor nas quatro linhas para reverter a vantagem do Ahly, que havia vencido o primeiro encontro por 2 a 0. E foi isso que a equipe fez, sufocando os egípcios em sua defesa e chegando, por diversas vezes, perto de abrir o placar. No entanto, o atacante Ousmaila Baba mostrou, logo no início, não estar em uma jornada inspirada.

Ainda assim, o clube camaronês seguiu pressionando os Vermelhos, que, até a metade do primeiro tempo, ainda não haviam dado um chute sequer a gol. Os comandados de Manuel José apostavam no jogo de paciência, com a manutenção da posse de bola e a troca de passes para reverter a atmosfera do estádio a seu favor e tentar, nos contra-ataques, sair na frente no marcador. Para isso, colaborava a mobilidade de nomes como Ahmed Hassan e Barakat, que, jogando juntos, concentravam as ações no meio-de-campo.

Essa dinâmica levou o Ahly a se aproximar ainda mais do título, com um gol do próprio Hassan, num momento em que o Coton parecia próximo de furar a meta do goleiro Abdul-Hamid. Contudo, a alegria durou pouco e os camaroneses viriam, nos acréscimos do primeiro tempo, a igualar o placar. Nada mais justo, tendo em conta o que fora produzido nos 45 minutos iniciais. Àquela altura, porém, era preciso marcar mais três vezes para ver derrubado, pelo segundo ano consecutivo, o favoritismo egípcio.

Chegou-se até a pensar que isso poderia se repetir depois que Baba colocou os anfitriões em vantagem na etapa complementar. Entretanto, uma exibição impecável de Abdul-Hamid, mais um gol de pênalti do capitão Shady Mohamed, acabaram com qualquer chance de o filme de 2007 voltar a acontecer. Assim, coube ao Ahly fazer o que mais sabe e tocar a bola até que o apito do árbitro soasse e os jogadores pudessem, enfim, comemorar o terceiro título da LC em quatro anos. Estava retomada a hegemonia continental.

Continuidade, a chave do sucesso

Se voltarmos no tempo, em mais ou menos um ano, veremos que, nessa mesma época, em 2007, havia muito barulho ao redor do Al Ahly. Porém, o clamor naquele momento não era fruto da comemoração de algum título e, sim, da necessidade de renovação que todos acreditavam ser latente. Isto se devia, sobretudo, à derrota para o Étoile du Sahel, dentro de casa, na final da Liga dos Campeões. O fracasso impediu o clube de conquistar o terceiro título consecutivo do torneio. Feito, ainda hoje, inédito no continente.

Os pedidos iam desde a reformulação total do elenco, que, mais maduro, aparentava estar desgastado, até a demissão do técnico Manuel José, que, a bem da verdade, nunca teve uma boa relação com a imprensa local. Por meses, pairou a sensação de que, a qualquer momento, o clube iniciaria a debandada de jogadores para o exterior, abrindo, assim, espaço para que uma nova base fosse formada e um novo trabalho fosse iniciado. Porém, essa expectativa nunca se consolidou.

Alguns atletas, de fato, deixaram o time. À revelia, o goleiro Al-Hadari se transferiu para o suíço Sion, enquanto Gomaa e Moteab foram emprestados ao futebol árabe. Os três se somaram a Mohamed Shawky, que, no meio de 2007, já havia sido negociado com o Middlesbrough. No fim das contas, no entanto, suas ausências não foram tão sentidas, tendo o zagueiro retornado, inclusive, a tempo de participar de mais essa vitoriosa campanha. E, dessa forma, os egípcios mantiveram a mesma filosofia que vem pautando seu sucesso nesta década.

Se a agressividade apresentada nas conquistas continentais de 2001 e 2005 foi deixada um pouco de lado, em seu lugar emergiu uma postura mais equilibrada, sustentada principalmente pela experiência de seu elenco. Foi assim que o Ahly soube se reciclar nesses últimos anos, com a entrada de novas peças na equipe, sem que isso ocasionasse em mudanças profundas em sua forma de jogar. O esqueleto formado por estrelas como Shady, Barakat, Gilberto, Aboutrika e Flávio serviu como apoio para que atletas chegassem e se encaixassem rapidamente no 3-5-2 que, durante todo esse tempo, poucas vezes foi abandonado.

Observando a situação por essa perspectiva, percebe-se como um criticado Abdul-Hamid assumiu o lugar do experiente Al-Hadari e já chegou até mesmo à seleção egípcia. O mesmo valendo para o já rodado Ahmed Hassan, que depois de uma passagem bem sucedida pelo Anderlecht, retornou ao Egito e encontrou seu espaço no meio-campo dos Vermelhos. É com toda essa força que o time partirá para o Japão no mês de dezembro, ciente de que, a se julgar pela tabela, é possível, sim, alcançar a decisão do Mundial de Clubes neste ano.

Futuro incerto?

Apesar da derrota na final, a campanha do Coton Sport deve ser saudada também. Chegar até onde chegou o clube significou muito para Camarões, que, depois de ver sua seleção se reerguer na CAN, agora acompanha ao retorno de seus times a posições de destaque no continente. Resta torcer para que tudo isso se reverta num comportamento mais profissional por parte dos dirigentes do país, que, nos últimos tempos, tanto prejudicaram a imagem do futebol camaronês.

Um fenômeno local, o Coton só ficou uma vez, desde 1993, ano de sua promoção, fora dos dois primeiros lugares do campeonato nacional. Agora, a equipe quer expandir essa sua força para todo o continente. Para isso, já planeja a construção de um centro de formação de jogadores, que lhe possibilitará gastar menos em contratações e investir em infra-estrutura e na manutenção de suas revelações. Cabe lembrar que a situação financeira do clube não é nada ruim, se comparada a de seus rivais da região.

Esse fator, porém, não deverá se mostrar forte o bastante para garantir a manutenção da base vice-campeã africana. Antes mesmo da decisão da LC, já se comentava, nos bastidores, que, na próxima janela de transferências européia, os principais nomes da equipe seriam negociados com o velho continente. Kamilou Daouda e Ousmaila Baba são os nomes mais especulados até aqui. A saída de ambos certamente enfraquecerá o grupo do clube de Garoua, porém, a se cumprir com os planos que vêm sendo feitos por seus dirigentes, novos jovens de qualidade estarão vindo por aí. É esperar pra ver.

Agora vai?

Num jogo cercado pela polêmica decorrente da ausência de Eto'o, Song e Geremi no time camaronês, a África do Sul bateu Camarões por 3 a 2 e venceu a quarta partida consecutiva neste ano. O confronto, válido pelo Nelson Mandela Challenge, torneio realizado anualmente em homenagem ao ex-presidente sul-africano, serviu não só para que a relação entre os dois países fosse abalada, mas também para que Joel Santana pudesse respirar um pouco mais aliviado e a pressão da imprensa sobre si diminuísse.

Exceção feita aos três jogadores supracitados, que, segundo o técnico Otto Pfister, não vieram por falha da federação local, os Leões Indomáveis foram a campo com força máxima, o que só valorizou o triunfo dos Bafana Bafana. Nos embates anteriores, os adversários não inspiravam tanta confiança: Malaui, Guiné Equatorial e uma equipe B de Gana. Sob essas circunstâncias, é que já se acompanha a um clima de mais otimismo entre jornalistas e jogadores.

O tira-teima final para saber se a seleção de Joel está mesmo evoluindo será conferido no ano que vem, quando deverá disputar três amistosos antes da Copa das Confederações, em junho. Dois deles já estão confirmados – serão contra Chile e Noruega, duas forças intermediárias do futebol mundial que podem trazer uma maior dificuldade. O outro encontro provavelmente será jogado frente um time europeu tradicional. Aí, então, teremos a certeza quanto ao crescimento, ou não, dos sul-africanos.

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Equipe Trivela

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