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Raízes coloniais: um espanhol e um francês definiram o placar na abertura da Copa Africana

As raízes coloniais continuam muito vivas na África. Os anos de exploração deixaram marcas profundas no continente. Mas no futebol, por mais que muitos talentos tenham deixado os seus países de origem rumo às metrópoles, tem sua utilidade. Afinal, muitas seleções acabam montando elencos mais competitivos ao recrutarem seus descendentes. Algo que ficou muito claro na abertura da Copa Africana de Nações. Um espanhol e um francês deram números ao empate por 1 a 1 entre Guiné Equatorial e Congo, em partida disputada na cidade de Bata.

Copa Africana de Nações: a história do torneio reconstrói a libertação do continente

Sem muita relevância futebolística, a Guiné Equatorial passou a pensar um pouco mais em sua equipe nacional a partir de 2012, quando sediou a CAN. E o jeito encontrado para formar o time foi apostando em naturalizações, sobretudo espanhóis, os antigos colonizadores do país de 622 mil habitantes. Uma política que se seguiu neste ano, com os equato-guineenses recebendo o torneio outra vez. E os 37 mil torcedores que lotaram o Estádio de Bata certamente não ligaram muito para a procedência dos jogadores para começar a festa.

Emilio Nsue anotou o primeiro gol da CAN 2015. O atacante nascido na Espanha fez toda a sua carreira no país e chegou a atuar nas seleções de base por seis anos, do sub-16 ao sub-21. Porém, a falta de espaço na Fúria o fez optar pela nacionalidade de seu pai, defendendo a Guiné Equatorial a partir de 2013. Camisa 10 e principal referência do time, anotou o gol após grande jogada de Kike Boula – este, nascido em Malabo, mas que se mudou para a antiga metrópole ainda na adolescência, para se desenvolver nas categorias de base do Almería. Dos 11 titulares de Guiné Equatorial, somente três não são espanhóis de nascimento.

Pressionando bastante no segundo tempo, o Congo buscou o empate aos 41 minutos. E, mais uma vez, a antiga relação entre colônias prevaleceu. O gol saiu dos pés de Thievy Bifouma, atacante nascido em Saint-Denis e que também passou pelas seleções de base da França antes de escolher a nacionalidade de seus ascendentes. Recebeu a assistência de Chris Malonga, outro dos oito franceses convocados para a seleção congolesa.

Apesar da certidão de nascimento apontar outros países, a postura de Nsue e Thievy apenas reforça os nacionalismos africanos, transmitidos para uma geração de imigrantes. Ainda que seja estranho o fato de que nenhum jogador nascido no continente marcou gols na Copa Africana de Nações, apesar do 1 a 1 no placar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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