Quase lá

“Foi a melhor série de três derrotas de nossa história”. A afirmação é de Richard Maguire, editor da principal revista de futebol da África do Sul, Kick Off, em conversa com este colunista. A partir da conclusão de Maguire, já é possível ver que a participação da seleção sul-africana na Copa das Confederações deixou marcas no país anfitrião do próximo Mundial. A empolgação local com o desempenho do time de Joel Santana é geral, e o treinador brasileiro parece, enfim, ter caído nas graças de imprensa e torcedores. Ainda assim, ele terá que ficar de olho em alguns pontos para evitar imprevistos nos próximos meses.
E não estamos falando aqui da fluência de Joel no idioma inglês. O esforço do ex-flamenguista na adoção da língua em suas entrevistas, por si só, já é louvável, e por mais que soe como piada por aqui, repercute bem por lá. Natalino, como é conhecido na África do Sul, bem sabe disso, já que foi criticado justamente por conceder coletivas em português. Dito isso, podemos, então, apontar onde Joel pode melhorar para conquistar de uma vez por todas o coração dos sul-africanos. O gerenciamento do grupo é uma boa largada nesse sentido.
Basta uma olhada nas estatísticas para verificar que Joel foi o treinador que menos utilizou seu elenco na competição em casa. Até pode-se argumentar que ele estava sob pressão e que não poderia fazer testes nesse momento, porém, em algumas oportunidades, ficou clara a necessidade de se sacar de campo alguns jogadores que ou já não rendiam mais tão bem ou se mostravam sem condições físicas de seguir no gramado. Faltou um maior tato ao brasileiro, ou, como os sul-africanos vêm indicando, maior capacidade de leitura para o técnico.
Em se tratando de um torneio de tiro curto, como foi a Copa das Confederações e será o Mundial de 2010, é interessante Joel se atentar para essa questão. Pode estar aí a receita para a vitória contra adversários que, a princípio, surgem como imbatíveis, mas que não são, casos de Espanha e Brasil. E por falar na seleção brasileira, aqui reside uma outra observação feita ao trabalho de Joel na África do Sul. De certa forma, os sul-africanos ficaram mal acostumados com a postura posta em prática pelos Bafana Bafana diante da equipe de Dunga. Não seria exagero afirmar que a formação que foi a campo naquele dia habita, desde aquela noite, os sonhos dos torcedores locais.
Uma das críticas mais ferrenhas que se faz ao treinador Joel Santana diz respeito a um suposto defensivismo que acomete a sua prancheta mesmo em jogos disputados dentro de casa. É consenso entre os jornalistas locais que a seleção rendeu muito mais quando o ferrolho no meio-de-campo, com três volantes dedicados praticamente só à marcação, foi desfeito. A partir daí, o talento de alguns jogadores desabrochou. Como ignorar a força apresentada por nomes como Khune, Gaxa, Booth, Mhlongo, Pienaar e Mphela?
Peço a sua permissão, leitor, para um parêntese nesse momento. É necessário fazer justiça aqui. Antes da Copa das Confederações, Joel teve a sua relação de convocados bastante questionada pela imprensa. Nomes como Booth, Mhlongo e Mphela não eram bem vistos pela mídia e pelos torcedores, que apontavam o dedo para outros atletas mais badalados. O ex-técnico flamenguista, porém, teve coragem para, mesmo num momento delicado, bancar suas apostas e ir com elas até o fim. Como já foi dito nessa coluna, não seria descabido afirmar que uma família Natalino pode estar surgindo na África do Sul.
Mas para que a unidade da mesma seja mantida, Joel Santana terá que tomar uma decisão muito importante nas próximas semanas. Entre setembro e outubro, os Bafana Bafana terão quatro amistosos oficiais (Alemanha, Irlanda, Noruega e Islândia, nessa ordem) e Joel terá que se mostrar suficientemente forte para barrar mais uma vez veteranos como Benni McCarthy, que vem tendo o seu retorno pedido na imprensa. Acredito que todos concordamos que a volta do jogador do Blackburn seria bem-vinda para o ataque, porém, será que o elenco sul-africano pensa assim? Creio que não, e até por isso, seria compreensível uma decisão de Joel em diálogo com a vontade de seu grupo.
Além de tudo, o momento também parece ser propício para tal atitude. A fase atual, na verdade, só revela um perigo maior: a participação dos jogadores sul-africanos na Copa das Confederações não passou batida pelos olheiros, e os nomes desses atletas já estão sendo falados na Europa. Existe a chance de até cinco figuras da seleção deixarem seus clubes, o que é preocupante pelo simples fato de que, no Velho Continente, eles não jogam com regularidade. Em ano de Copa do Mundo, isso pode se mostrar decisivo para uma seleção, que, a princípio, pretende iniciar a sua preparação muito antes das demais. Abre o olho, Joel!
Egito: saldo positivo
Que o grupo do Egito na Copa das Confederações era difícil, todo mundo já sabia. Mas não foi por conta desse detalhe que a eliminação precoce dos Faraós foi amenizada por imprensa e torcedores no retorno do time pra casa. O desempenho dos egípcios no torneio, na verdade, aliviou a preocupação de muita gente, que já via em campo um time envelhecido e que, aparentemente, ficaria mais uma vez pelo caminho na briga por uma vaga na Copa do Mundo. Essa sensação foi, ao menos por enquanto, deixada de lado.
No próximo domingo, o Egito tem compromisso importantíssimo contra Ruanda pelas Eliminatórias e a inspiração para conseguir a vitória será buscada justamente nos jogos contra Brasil e Itália. A derrota para o Estados Unidos é, de certa forma, ignorada pelos jornalistas locais em virtude de uma série de fatores que influenciaram no resultado daquela partida. Primeiramente, e mais importante, a confusão no hotel egípcio e a acusação de uma suposta festa com prostitutas entre os jogadores da equipe. E segundo, a condição física dos atletas, com os desfalques e as contusões que atrapalharam alguns nomes.
Até por conta dessa situação, a despedida mais cedo da África do Sul, acredite ou não, foi comemorada. Não chega a ser tão difícil entender o porquê disso. Veja bem: ganhando a Copa das Confederações, o que mais você leva para casa? Pouca coisa. O mais importante, que era a recuperação da auto-estima, os egípcios já haviam conseguido no torneio. Feito isso, o momento passaria a ser, então, de concentrar energias na decisão contra Ruanda. Afinal de contas, de nada vale ir bem agora e não voltar, no ano que vem, para saborear o filé pelo qual tantos jogadores correm atrás.



