África

Parece que não é logo ali

A notícia de que Parreira estaria deixando o comando da África do Sul surgiu há cerca de duas semanas. E para a surpresa geral, logo no momento em que o treinador brasileiro atravessava sua melhor fase no país desde que assumiu a seleção. A vitória sobre o Paraguai, em amistoso realizado no fim de março, não só fez cessar as críticas feitas pela imprensa ao seu trabalho depois da CAN, como também indicou que os atletas estavam finalmente assimilando sua proposta de jogo.

Durante os últimos dezesseis meses, não houve praticamente nenhum instante em que a SAFA deixou de apoiá-lo. Após um início agitado, com direito a críticas dos jornalistas às cifras de seu salário e de algumas confusões envolvendo detalhes burocráticos, tudo foi assentado em seu devido lugar e a federação sul-africana conseguiu conduzir, com sucesso, o período de aclimatação de Parreira.

Mesmo após o fracasso na última CAN e as primeiras insurgências de políticos, desejosos por interferir no trabalho da comissão técnica, com propostas mirabolantes como a criação de um grupo permanente de atletas, ela seguiu apostando no projeto que vinha sendo realizado. Por isso, surpreendeu a saída de Parreira, mesmo que por motivos pessoais, que, desde sua contratação, já vinham sendo expostos na imprensa.

Não é de hoje que ele demonstra sentir saudades do Brasil. Ainda em março, chegou a se emocionar ao declarar numa entrevista o quão difícil era ficar distante da família e dos amigos. Detalhes como esse, por si só, já serviam como indício do que estaria prestes a acontecer, e que veio à tona dois meses depois. Sensatamente, a imprensa sul-africana deixou sua tradicional acidez de lado e compreendeu as razões do técnico.

Ainda assim, apesar de o próprio Parreira ter afirmado que os motivos de sua saída estão ligados à saúde de sua esposa, é possível especular acerca de outros detalhes que, em menor grau, podem ter pesado sobre sua decisão. A falta de iniciativa por parte dos dirigentes para atender algumas de suas sugestões é certamente um ponto a ser considerado. O tetracampeão mundial não se limitou, durante sua passagem, em trabalhar apenas com as questões relacionadas à seleção. Ele tentou modificar a estrutura das categorias de base do país, mas, nesse quesito, não obteve o respaldo necessário.

Se não conseguiu criar campeonatos destinados aos jovens, Parreira ao menos logrou sucesso na promoção de uma liga para jogadores que se encontravam encostados em seus clubes, mantendo-os em atividade e, quem sabe, desenvolvendo seus potenciais. Preocupações como essa sempre estiveram na pauta de trabalho do treinador, que, diante de toda a sua experiência, sabia que, mesmo não podendo colher os frutos dessas ações agora, deixaria o legado para quem viesse a sucedê-lo.

O pulso firme apresentado durante todo o tempo em que esteve à frente dos Bafana Bafana terá que ser mantido, como modo de não só fazer esvair as críticas que certamente virão da imprensa, mas também evitar o desgaste com os cartolas. Apesar de ter tido sua opção de jogo contestada durante a CAN, com jogadores e uma proposta de renovação que não despertavam confiança em ninguém, ele se manteve fiel às suas idéias – fazendo jus à fama de teimoso.

Os comentários negativos que vêm sendo feitos por alguns jornalistas brasileiros em nada afetam a imagem deixada por Parreira na África do Sul. Ele assentou pilares fundamentais para a criação de um bom time para 2010. Ainda que nem os números – 9V, 6E e 6D com 61 jogadores utilizados -, e nem os adversários batidos ao longo de sua passagem – Chade, Ilhas Maurício, Canadá, Zimbábue, entre outros – deponham a seu favor, não se pode ignorar os feitos galgados fora de campo.

As críticas a Joel Santana

Se a saída de Parreira já pegou a todos de surpresa, a escolha de seu sucessor o fez ainda mais. Joel Santana terá um imenso trabalho para provar sua capacidade e contornar as críticas que já vêm sendo feitas à sua chegada. A falta de experiência internacional, a instabilidade verificada em seu currículo nos últimos anos, a fluência no idioma inglês são todos fatores que estão sendo utilizados pelos jornalistas sul-africanos para pregar o treinador flamenguista na cruz e carimbar seu atestado de pára-quedista.

De fato, se nem no Brasil, Joel é unanimidade, o que dizer, então, na África do Sul? Os torcedores foram dormir sonhando com a contratação de Felipão, Sven-Göran Eriksson e José Mourinho e acordaram com um técnico que possui como trabalho mais relevante, nos últimos anos, ter salvado o Flamengo do rebaixamento duas vezes e o conduzido até a Libertadores em uma das oportunidades. Não são façanhas que devam ser desconsideradas, mas cabe discutir o peso delas na contratação de um treinador para um país que receberá uma Copa do Mundo.

Em meio a tudo isso, uma coisa é clara: Parreira exerceu grande influência na opção por Joel. Esse é um ponto que pode ser diagnosticado a partir da própria postura dos dirigentes sul-africanos, que, em suas declarações, ainda demonstram certa falta de conhecimento sobre o substituto do tetracampeão mundial. Essa insegurança só reforça as críticas por parte da imprensa. Nesse ponto, a federação tem falhado, como também o fez na condução do acerto contratual, realizado à distância, sem sequer ter havido uma conversa pessoal com o treinador.

Ao menos, dessa vez, não foram ouvidos, como é comum nos países africanos, pedidos de chances para técnicos locais. Uma ou outra voz discordante defendeu nomes como o de Gavin Hunt, do SuperSport, e Gordon Igesund, ex-Mamelodi Sundowns, mas não encontrou respaldo entre os jornalistas. Um tratamento diferente foi dado por eles à postura da SAFA perante as sugestões de Parreira para a sua sucessão. Já há quem fale que o novo paraíso para treinadores do Brasil não é mais o Oriente Médio e, sim, a África do Sul. Algo gratuito, claro.

Joel Santana deve desembarcar no país na semana que vem e iniciar, tão logo, os trabalhos, pois seu primeiro grande teste já o aguarda, em menos de um mês. A estréia pelos Bafana Bafana será fora de casa, contra a Nigéria, que também se encontra em situação parecida, com o início do trabalho de Shaibu Amodu. A partir daí, vamos poder verificar se Joel será fiel ao projeto que Parreira vinha mantendo ou não. No que diz respeito às suas características, os dois são parecidos, com uma proposta de jogo mais defensiva e ortodoxa, o que, certamente, ajudará na compreensão dos atletas. É esperar pra ver o que vai dar essa aposta.

Surpresas na Liga dos Campeões

As partidas de ida da segunda fase da Liga dos Campeões trouxeram à tona algumas surpresas que, se confirmadas na volta, derrubarão diversos prognósticos ao redor do continente africano. Em sua estréia nessa edição do torneio, o Al Ahly, que garantiu recentemente mais um título nacional, visitou o Platinum Stars e perdeu pela primeira em vez em sua história para um clube sul-africano. Os Tycoons se apoiaram na força de seu meio-de-campo formado por Edward Williams, Stanley Kgatla e Solomon Mathe para superar o favoritismo egípcio.

Outra derrota surpreendente foi a do Étoile du Sahel, que sofreu mais um revés fora de casa, e agora precisará de outra bela atuação em Sousse para eliminar o Dynamos, do Zimbábue. O compatriota Club African também não foi nada bem e só se classificará para fase de grupos com um milagre. A equipe foi goleada pelo Enyimba por 5×1 e se tornou mais uma presa daquele que vem sucedendo Tresor Mputu, do TP Mazembe, como a sensação do campeonato – Stephen Worgu, de 19 anos. Até aqui, o atacante nigeriano já marcou nove gols.

O ASEC Mimosas também não conseguiu fazer valer sua maior tradição e não passou de um empate em 0x0, dentro de casa, com o marroquino Olympique Khourigba, que estréia na competição. Foi a única equipe que jogando diante de seus torcedores não alcançou um resultado positivo. Em contrapartida, Zamalek, Cotonsport, Al Ittihad e Al Hilal o fizeram, assegurando uma maior tranqüilidade para seus jogos de volta.
 

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Equipe Trivela

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