Os dois melhores na final da CAN

Ninguém acreditava que o New York Knicks pudesse vencer o Indiana Pacers em 1999, nos playoffs da NBA. Sem a sua principal estrela, Patrick Ewing, contundido, a equipe já era dada como eliminada, mas se superou e, nos últimos quatro jogos da série, venceu três vezes, avançando para as finais. A forma como os Knicks desprezaram os prognósticos para seguir adiante inspirou o colunista da ESPN americana, Bill Simmons, a criar a Lei de Ewing.
A teoria, que explica como alguns times conseguem se virar melhor na ausência de seus destaques, se encaixa perfeitamente nos casos de Gana e Egito. Mesmo com diversos desfalques, as duas seleções romperam com a desconfiança que rondava suas campanhas e chegaram à decisão da Copa Africana de Nações. Entre os problemas de cada lado, estavam nomes como Mohamed Aboutrika, Amr Zaki, Mohamed Barakat, Mido, Michael Essien, Stephen Appiah, John Pantsil, Sulley Muntari e John Mensah.
Não é pouca coisa, como se vê. Mas Gana e Egito souberam contornar essas dificuldades e garantiram vaga na briga pelo título, neste domingo, em Luanda. A chave para o sucesso das equipes está na obediência tática – sim, acreditem. Há algum tempo, o futebol africano deixou de lado a inocência e o descompromisso com o resultado que algumas pessoas insistem em apregoar aos times do continente.
Era até natural que isso viesse a ocorrer. Afinal de contas, se observamos quem está por trás da maioria das seleções, veremos um treinador europeu, que, mesmo em alguns casos, pouco experimentado, traz consigo valores de uma outra cultura. Não é de se admirar, portanto, que países como Nigéria e Camarões apresentem hoje um estilo de jogo tão mecânico. Nada contra, mas me parece claro que a dupla se perdeu justamente naquilo que ganenses e egípcios fazem de melhor: combinar a técnica natural dos africanos com o rigor tático dos europeus.
Essa foi a receita adotada pelas Estrelas Negras após a perda de tantos jogadores importantes. O técnico Milovan Rajevac, que, até semanas atrás, era injustamente criticado pelos torcedores (em seu retrospecto, apresenta vaga na Copa, vice-campeonato da CHAN e agora a final na CAN), preferiu lançar mão de uma postura mais cautelosa e foi premiado pela maturidade da jovem base de seu time, formada pelos atuais campeões mundiais sub-20 e por revelações que já se encontram no velho continente.
Nem mesmo a notícia de que o presidente do país, no momento mais importuno possível, resolveu demitir o ministro dos esportes, grande incentivador da equipe – eles têm outro papel na África –, abalou o grupo ganense. Algo espantoso para um time que, em determinado momento, nesta quinta-feira, teve como jogador de linha mais velho um atleta de 24 anos. Resta ver como os garotos lidarão com a pressão da final, principalmente, se saírem atrás no placar – o que ainda não aconteceu nos mata-matas.
Na batalha tática que deveremos acompanhar no fim de semana, uma das maiores curiosidades que paira no ar diz respeito à estratégia que o Egito utilizará contra a retranca ganense. Não é novidade para ninguém que a equipe sempre fez dos contra-ataques a sua principal arma. Diante das Estrelas Negras, porém, os comandados de Hassan Shehata terão que tomar a iniciativa do jogo e avançar com seus volantes, abrindo espaço para uma possível resposta adversária.
Nada, no entanto, que preocupe muito. Especialmente para um time que, não seria exagero dizer, se reinventou em gramados angolanos. Mérito de Shehata, que, em cinco anos à frente desse grupo, mostrou perspicácia em tirar dele o seu melhor. O maior exemplo disso é o multifuncional Ahmed Fathi, que faz de tudo um pouco no meio-de-campo. Segurou Belhadj, Eto’o e Emana nos últimos jogos e ainda iniciou com qualidade os ataques. Mohamed Shawky já tem um substituto, não há duvida.
Outra aposta do treinador que deu certo foi Mohamed Nagy “Geddo”. Se você não o conhecia até esta CAN, não se preocupe. O talismã egípcio também é novidade para eles e foi catapultado para o sucesso nos últimos meses através das mãos do brasileiro Cabralzinho, técnico do Al-Ittihad-EGI. Sua convocação para a Copa Africana foi uma surpresa, principalmente pelas ausências de Zaki e Mido, e tem gerado elogios de todos os lados no país.
Já quem o veja como sucessor de Mohamed Aboutrika. Um pouco cedo para tal afirmação. Mas, de fato, o desempenho de Geddo é animador. Quem sabe ele não sirva como inspiração para Emad Moteab, o principal alvo de críticas dos egípcios e que, segundo comentam, estaria de malas arrumadas para a Inglaterra. Uma escala para comemoração no Cairo certamente está nos planos do jogador. Cabe a Gana atrapalhá-lo.



