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Orgulho nacional

O conto de fadas de Cabo Verde na Copa Africana de Nações se encerrou no último sábado. A derrota para Gana, no entanto, esteve longe de manchar a campanha histórica dos Tubarões Azuis no torneio. A mobilização do país por conta da competição foi impressionante. Aliás, podemos dizer que em cada pedacinho do mundo havia uma torcida pela seleção comandada por Lúcio Antunes. Por conta da diáspora, 800 mil cabo-verdianos estão espalhados pelo mundo, ocupando principalmente países como Portugal, França e Holanda. Este número supera o de habitantes do próprio arquipélago (500 mil), população apenas seis vezes maior do que a capacidade do estádio Soccer City, que receberá a final da CAN, por exemplo.

Os cabo-verdianos receberão jogadores e comissão técnica na volta pra casa como heróis. Além dos bons resultados e da entrega do time, Cabo Verde pode se orgulhar de ter jogado um bom futebol e enfrentado gigantes do futebol africano de igual pra igual, como já havia feito contra Camarões nas eliminatórias. Uma equipe que joga sempre com a bola no chão, compacta, que conta com jogadores individualmente muito interessantes como Platini e Ryan Mendes, mas que se destaca pelo coletivo. No jogo que culminou na sua eliminação, talvez tenha atuado até melhor do que Gana. Mas por um acaso, ou melhor, por Mubarak Wakaso, autor de dois gols, acabou dando adeus ao torneio.

O sucesso de Cabo Verde na África do Sul é fruto de um trabalho de longo prazo. Um trabalho de reestruturação do futebol local, que caminha para a profissionalização. Todos os estádios no arquipélago possuem gramado sintético (a salinidade extrema do solo na ilha dificulta o crescimento adequado de grama), escolinhas de futebol difundiram-se pelo país, a formação de treinadores foi desenvolvida…são muitos os fatores a serem destacados. Um dos principais deles também foi convencer diversos jogadores que atuam no futebol europeu a vestirem a camisa da seleção.

Muitos já sabem que jogadores como Nani, Henrik Larsson, Rolando e Silvestre Varela nasceram em Cabo Verde ou possuem ascendência cabo-verdiana, e que todos jamais consideraram representar os Tubarões Azuis no futebol internacional. Para reverter este quadro, foi desenvolvido um trabalho de captação de jogadores em diversos países, visando convencê-los a jogar por Cabo Verde. O resultado disso é que o futebol português, por exemplo, cedeu dez jogadores para a seleção. Atletas que atuam em Angola, Romênia, França, Holanda e até Luxemburgo e Chipre também estiveram com a seleção na CAN. Apenas dois jogadores ‘locais’ viajaram para a África do Sul – os dois goleiros reservas, Fock e Rilly.

O trabalho do treinador Lúcio Antunes também merece muitos elogios. Ele foi o grande mentor da reformulação da equipe, após um longo tempo trabalhando nas categorias de base da seleção. Antes da CAN, o técnico estagiou durante uma semana no Real Madrid com José Mourinho e absorveu muitos conceitos. Controlador aéreo de profissão, está acostumado a uma pressão muito maior do que a que se vive a beira dos gramados. As atenções agora estão voltadas para as eliminatórias da Copa de 2014. Após o ótimo desempenho nos gramados sul-africanos, quem poderá dizer que o sonho de estar no Brasil em 2014 é impossível?

Você sabia?

Pra se ter noção da façanha de Cabo Verde em atingir as quartas de final em sua estreia na CAN, seleções com muito mais tradição no continente não conseguiram tal feito. Nigéria, Marrocos, Argélia e Angola foram eliminados ainda na primeira fase nas edições em que respectivamente disputaram pela primeira vez a competição.

A maldição dos pênaltis (e os estádios vazios)

Gabão na CAN 2012; Argentina na Copa América de 2011; Bayern de Munique na final da Champions League. Definitivamente as disputas de pênaltis pelo mundo afora não estão colaborando com os anfitriões. A África do Sul foi a mais nova equipe a se juntar a essa lista. Jogando em Durban, acabou eliminada nos pênaltis para Mali. Com uma seleção limitada tecnicamente, a verdade é que os Bafana Bafana chegaram ao seu limite.

A má notícia é que os estádios sul-africanos dificilmente terão casa cheia nos próximos jogos. Como previsto, o público em jogos que não envolvem a África do Sul (com exceção da Etiópia, que já foi eliminada) são decepcionantes. Além dos ingressos caros, quem acompanha a competição in loco possui uma explicação: a divulgação do torneio pelo país é quase inexistente, inclusive na capital Joanesburgo. Poucos cartazes, espaço limitado na TV e no rádio… Muito diferente do que se viu durante a Copa de 2010.

Finalistas em 2012, decepções em 2013

O primeiro título continental da história de Zâmbia parecia determinar o surgimento de uma nova potência na África. No entanto, o que se viu dos Chipolopolo no período pós-título já era um mau presságio: classificação suada contra Uganda nas eliminatórias para a CAN e derrotas para seleções como Sudão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Tanzânia e Angola. Não deu outra: sem nenhuma vitória, os atuais campeões caíram na fase de grupos da CAN 2013. A última vez que isso havia acontecido foi em 1994, quando a Argélia, que defendia o título, também caiu na fase inicial.

A Costa do Marfim, vice-campeã da CAN 2012, também fez um papelão. A campanha na primeira fase foi bastante tranquila, se impondo em todas as partidas, rodando vários jogadores do elenco e conquistando sete dos nove pontos disputados. Nas quartas de final, no entanto, mais uma frustração na conta da “geração de ouro” dos marfinenses: derrota para a Nigéria. Ainda é incerto se o técnico Sabri Lamouchi continua no cargo.

Anglófonos x francófonos ou africanos x expatriados

Os quatro semifinalistas da CAN 2013 são da África Ocidental: Gana, Mali, Nigéria e Burkina Faso. A última vez que uma destas seleções conquistou o título foi a Nigéria, em 1994, sendo que Mali e Burkina Faso nunca foram campeãs e Gana não fatura a taça há 31 anos. Curiosamente, os confrontos reservam dois duelos entre países anglófonos (que adotam o inglês como língua oficial) e francófonos (os que falam francês): Mali (francófona) x Nigéria (anglófona) e Gana (anglófona) x Burkina Faso (francófona).

As quatro seleções também podem ser divididas entre equipes comandadas por treinadores locais e equipes comandadas por treinadores estrangeiros. Neste caso, a divisão curiosamente seria a mesma: Mali (estrangeiro, o francês Patrice Carteron) x Gana (local, Kwesi Appiah); Nigéria (local, Stephen Keshi) x Burkina Faso (estrangeiro, o belga Paul Put).

Mali se garante entre as quatro melhores seleções do torneio pela segunda vez consecutiva. O desafio é acabar com a “maldição das semifinais”, onde caíram em 1994, 2002, 2004 e 2012. Trata-se de uma das poucas equipes da África que sabem jogar sem a bola, além de ser um time que se impõe muito fisicamente (apenas um dos titulares, o lateral-esquerdo Tamboura, possui altura inferior a 1,80m).

Stephen Keshi, treinador da seleção nigeriana, foi ordenado pelos dirigentes a conduzir a equipe no mínimo até a semifinal da competição. Missão cumprida. A credencial é nada menos do que ter derrotado a poderosa Costa do Marfim nas quartas de final. Olho na dupla Moses e Emenike, que tem sido a chave do sucesso do time.

Burkina Faso já igualou a sua melhor campanha na história da Copa Africana de Nações: semifinal em 1998. Naquela ocasião, no entanto, o país sediou o torneio. Longe de casa, os burquinenses já fizeram história. Alcançar a final, no entanto, será uma missão delicada, sobretudo pelo desfalque de Alain Traoré, que se lesionou contra Zâmbia. Pitroipa, no entanto, tem chamado a responsabilidade e feito grandes partidas. É um dos destaques individuais da CAN.

Gana, a princípio, desponta como a favorita ao título. Isso não significa muita coisa, como prova a eliminação da Costa do Marfim. Mesmo porque, acima de tudo, não existe nenhuma disparidade técnica gritante entre os ganeses e os outros semifinalistas. Com um futebol até certo ponto pragmático, os Estrelas Negras tem tido sucesso até aqui. No entanto, ainda devendo uma grande atuação, pode perfeitamente ser eliminada.  Este talvez seja o grande ingrediente da CAN: a imprevisibilidade.

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