Orgulho do leste

A CAN 2012 tem proporcionado grandes epopeias. Quem poderia imaginar que Botsuana e Níger estariam entre as 16 melhores seleções do continente (na teoria, claro), ou que a Líbia, em meio a uma guerra civil que pôs fim à ditadura de Muammar Gaddafi e deixou mais de 25 mil mortos, pudesse alcançar a fase final da competição? Quem poderia imaginar que Gabão e Guiné-Equatorial, os dois países-sede do torneio, pudessem superar a primeira fase deixando pra trás potências como Marrocos e Senegal, respectivamente? Como se não bastasse, outro enredo espetacular ganhou um capítulo importante na última segunda-feira. O Sudão, que não vencia uma partida de Copa Africana há 42 anos, bateu Burkina Faso por 2 a 1 e se garantiu nas quartas-de-final desta edição.
Mas não apenas por isso. Na última década, o país viveu uma das piores crises humanitárias do século XXI (o conflito em Darfur, que vitimou entre 200 e 400 mil pessoas), e ainda viu o Sudão do Sul, após uma longa guerra civil, se tornar um país independente na metade de 2011. Em campo, desde o título da CAN em 1970, a seleção nacional amargava um jejum de vitórias na maior competição do continente. Este tabu foi quebrado com a supracitada vitória sobre os burquinenses, após vender caro uma derrota para a Costa do Marfim por 1 a 0 e empatar com Angola em 2 a 2 jogando de igual pra igual. Vice-líder do Grupo B, o Sudão agora encara Zâmbia nas quartas-de-final.
Um orgulho e tanto para uma seleção classificada pelo índice técnico nas eliminatórias, e que ao contrário de todos os outros participantes, conta com um plantel formado exclusivamente por jogadores que atuam no futebol local – aliás, há quem diga que esta é a grande razão para a estagnação do futebol sudanês, uma potência nos anos 50 e 60. A boa campanha na CAN possivelmente abrirá espaço para os jogadores locais no futebol europeu, onde imagina-se que desenvolvam suas capacidades técnicas e táticas.
Em contrapartida, nem todos se mostram seduzidos em deixar o país, já que o Sudão vem crescendo economicamente e os jogadores recebem bons salários. Na verdade, o que preocupa mesmo é a monopolização do campeonato nacional, que só teve dois vencedores nos últimos 19 anos: o Al Hilal e o Al Merreikh, patrocinados por dois dos homens mais ricos do país. Não surpreende que 19 dos 23 convocados atuem nestes clubes, e que oito dos onze titulares sejam do Al Hilal, semifinalista da última Liga dos Campeões africana. Em que pese o entrosamento dos jogadores, é um fator prejudicial no tocante ao nível de competitividade dos atletas. Para piorar, o campeonato tradicionalmente termina em novembro. Isso significa que manter os jogadores em forma para a CAN foi um desafio e tanto.
Méritos para o excelente trabalho de Mohamed ‘Mazda’ Abdalla, que conseguiu desenvolver uma equipe que não havia impressionado na Copa da CECAFA (realizada anualmente e que reúne países do leste africano e da África central) com um modesto 3º lugar. Com uma seleção jovem (média de idade de 24 anos), o Sudão tem se caracterizado pela aplicação tática, sempre variando do 4-3-1-2 (atacando) para o 4-1-4-1 (defendendo). Haitham Mustafa, capitão e ídolo do futebol local, é o “ponto de equilíbrio” do time. O ataque, formado por Mohamed Bashir e Mudathir El Tahir – cada um com dois gols na CAN -, também merece atenção especial.
A trajetória do Sudão não orgulha somente a população do país, mas também o leste africano como um todo. Desde o vice-campeonato de Uganda em 1978, esta importante região do continente não era representada na CAN até 2008, quando o Sudão retornou ao torneio (e perdeu todos os seus jogos na fase de grupos). Vale lembrar que o Sudão ainda joga pelo Sudão do Sul, algo semelhante ao que aconteceu com Servia e Montenegro na Copa do Mundo de 2006.
Daqui pra frente, um fator que preocupa é a possível diminuição de recursos financeiros para o desenvolvimento do futebol no país. Mais de 75% das receitas de petróleo estão localizadas no Sudão do Sul, e devem ser a fonte para que o país possa investir em infra-estrutura, formar uma liga, construir campos, clubes e outras necessidades, o que pode afetar diretamente o país vizinho. Até aqui, o que realmente causa impacto é a ótima performance do Sudão na CAN, premiando um povo que, ao menos nas próximas semanas, pode desviar o foco de todas as turbulências que tem afetado o país.
Curtas
– Já eliminados, Senegal e Marrocos são as grandes decepções da CAN 2012. Os senegaleses mostraram que ainda não estão preparados para lidar com o favoritismo, o que certamente contribuirá com o amadurecimento dos comandados de Amara Traoré.
– No caso de Marrocos, faltou paciência para o técnico Eric Gerets, que mexeu em todo o setor ofensivo para o jogo contra o Gabão na segunda rodada. Apesar da derrota na estreia para a Tunísia, a equipe havia dominado as ações e demonstrado uma filosofia interessante, valorizando a posse de bola e invertendo bastante as jogadas. Desnecessária uma mudança tão radical de um jogo pra outro.
– Gilson Paulo, técnico brasileiro que classificou Guiné-Equatorial para a fase final da CAN, teve seu contrato renovado por um ano. O salário? 15 mil dólares por mês. Justo para quem tanto fez em pouco tempo de trabalho.
– Líbia venceu Senegal por 2 a 1 na última rodada e se despede do torneio em alta. Os líbios não venciam uma partida de CAN desde 1982, quando foram vice-campeões. A continuidade de Marcos Paquetá no comando da seleção, entretanto, não está garantida. O técnico exige mudanças na Federação local, a começar pelo esforço em encontrar clubes para os jogadores locais.
– Assim como nas eliminatórias, Angola jogou um futebol decepcionante e perdeu a vaga na última rodada do Grupo B. Burkina Faso, que não pontuou na chave, pecou pela fragilidade de seu sistema defensivo e pelo amadorismo de sua Federação, que não conseguiu passaporte para três jogadores convocados para o torneio. Paulo Duarte, o “Mourinho da África”, balança no cargo.
– Com uma seleção reserva na última rodada da fase de grupos, Costa do Marfim ratificou toda a profundidade de seu plantel. O atacante Wilfried Bony (Vitesse), autor de um gol contra Angola e destacado no nosso guia, foi um dos suplentes mais destacados.
– Melhor momento da CAN até aqui: vitória heroica do Gabão sobre o Marrocos por 3 a 2 com gol de Zita no último lance do jogo. Linda festa dos gaboneses, que aliás, contam com o melhor jogador deste início de competição: Pierre Aubameyang.
– Fica a expectativa para que Níger e Botsuana vençam suas primeiras partidas na história da competição. Seria mais um momento marcante da CAN 2012, ainda que ambas já estejam eliminadas.
– Confrontos já definidos das quartas-de-final: Zâmbia x Sudão e Costa do Marfim x Guiné-Equatorial. Nos próximos dias, serão definidos os grupos C e D.



