ÁfricaCopa Africana de Nações

O verdadeiro Faraó: Aos 44 anos, El Hadary botou o Egito em mais uma final de Copa Africana

Essam El Hadary tem um sonho. O goleiro egípcio quer encerrar a carreira disputando ao menos uma Copa do Mundo. Aos 44 anos, completados no último dia 15, ainda não teve esta oportunidade. O veterano defende os Faraós há mais de 20 anos, desde 1996, mas nunca teve sucesso nas Eliminatórias. Seu objetivo palpável é o Mundial de 2018, apesar da concorrência de Gana no mesmo grupo. Contudo, não é a falta do torneio em seu currículo que tira do arqueiro o rótulo de lenda do futebol africano. El Hadary já conquistou quatro títulos da Copa Africana de Nações, três como titular e três também como melhor de sua posição no torneio. Em 2017, a despeito da idade, vai em busca da quinta taça. Nesta quarta, o capitão defendeu dois pênaltis, colocando o Egito em sua nona final continental, após o empate por 1 a 1 com Burkina Faso.

O acaso jogou a favor de El Hadary nesta Copa Africana. O veterano começou o torneio na reserva de Ahmed El-Shenawy, bom arqueiro do Zamalek. No entanto, uma lesão sofrida pelo titular logo na estreia abriu espaço ao jogador de 44 anos. O camisa 1 assumiu a braçadeira de capitão e liderou a forte defesa da equipe de Héctor Cúper. Nos primeiros quatro jogos, os Faraós não sofreram um gol sequer, avançando para as semifinais, onde Burkina Faso seria o desafio.

A noite em Libreville contou com defesas decisivas de ambos os goleiros. El Hadary entrou para a história logo no primeiro tempo: somando também sua participação em 2010, ele estabeleceu o mais novo recorde sem tomar gols da história da Copa Africana, chegando aos 675 minutos no total. Aos 22 do segundo tempo, o Egito ficou mais próximo da classificação, em belíssimo chute de Mohamed Salah, na gaveta. Contudo, Burkina buscaria o prejuízo 11 minutos depois. O iluminado Aristide Bancé, herói nas quartas de final contra a Tunísia e também nas semifinais de 2013 diante de Gana, anotou o gol de empate. Dominou no peito, mesmo cercado por marcadores, e fuzilou, finalmente vencendo El Hadary. A aflição se estenderia até o fim do tempo regulamentar e dos 30 minutos de prorrogação. A vaga na final acabaria sendo decidida nos pênaltis.

O goleiro Kouakou Hervé Koffi deu a vantagem para Burkina logo na primeira cobrança. O camisa 16 voou no canto e, com a ponta dos dedos, desviou a cobrança de Abdallah Said. A partir de então, as seis cobranças posteriores terminaram nas redes, três para cada lado. Koffi parecia mais próximo de defender. Chegou a tocar na bola quando Ramadan Sobhi arriscou uma ousada cavadinha, mas não evitou o pior. Já quando Mohamed Salah bateu, o goleiro acertou o canto. O chute caprichado tocou a trave e entrou.

Na quarta cobrança de Burkina Faso, o próprio Koffi foi para a marca da cal. Começou a consagrar El Hadary. Bateu a meia altura, para fácil defesa do veterano. Depois, quando poderia se redimir, viu Amr Warda finalizar com perfeição, mesmo caindo para o lado certo novamente. Pela primeira vez, o Egito ficou em vantagem, 4 a 3. E, no chute derradeiro, Bertrand Traoré parou nas mãos milagrosas do verdadeiro Faraó. El Hadary era festejado por seus companheiros, enquanto os adversários caíram no pranto, sobretudo Koffi.

Ao menos momentaneamente, o Egito iguala Gana como país que mais disputou finais de CAN, nove no total. E pode ir ao seu oitavo título, o quinto com a segurança de El Hadary sob as traves. Bela maneira de demonstrar quem manda na África. Depois do tricampeonato consecutivo entre 2006 e 2010, os Faraós se ausentaram das três edições seguintes da Copa Africana. Voltaram justamente neste ano, rumo à decisão. Agora, aguardam o vencedor de Gana e Camarões, que se enfrentam nesta quinta.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo