África

O preço do sucesso em Marrocos

Fundado há 62 anos, o Raja Casablanca só conseguiu se estabelecer como a grande força do futebol marroquino na metade da década de 90. De lá pra cá, a supremacia é tão grande que nos últimos 15 anos, o clube faturou nove dos dez títulos que possui da liga marroquina (Botola), três Copas do Marrocos, duas edições da Liga dos Campeões Africana, entre outros títulos importantes. Contudo, tantas conquistas em sequência deixaram os torcedores mal acostumados. No último fim de semana, o Raja foi eliminado da LC continental com uma rodada de antecedência, provocando uma onda de protestos dos ‘ultras’. Em outras palavras, pode-se dizer que o clube paga pelo preço do sucesso.

Campeão nacional com uma rodada de antecedência (e sete pontos de vantagem para o vice Maghreb Fez), o Raja não empolgou durante a trajetória do título e a diretoria entendeu que era hora de trocar de treinador. M’hamed Fakhir, demitido após divergir com a diretoria quanto à montagem do elenco para a temporada seguinte, deu lugar ao romeno Ilie Balaci pouco antes do início da fase de grupos da Liga dos Campeões. Considerado favorito no Grupo A, o “clube do povo” logo percebeu que as coisas não seriam nada fáceis. Nos primeiros quatro jogos, duas derrotas e nenhum gol marcado.

Nesse ínterim, a eliminação precoce na Copa do Marrocos para o Olympique de Safi incrementou ainda mais a má fase do Raja. Pressionado pela torcida, que realizou uma série de protestos nas últimas semanas, o time sofreu o golpe final no último sábado. A derrota por 2 a 1 para o Coton Sport, de virada, acabou com quaisquer chances dos marroquinos avançarem para as semifinais do torneio. Nada muito diferente do ano passado, onde a equipe deu adeus à competição logo na primeira fase preliminar. Mas afinal, o que mudou desde a conquista sem sustos da Botola até a vexatória eliminação na LC africana?

Em tese, praticamente nada. Mas ao contrário de massacrar o elenco ou o treinador europeu, os torcedores tiveram o mérito de irem à raiz do problema: a má administração do presidente Abdeslam Hanat. Ocupando o cargo desde junho do ano passado, Hanat acumulou uma série de contratações de alto investimento que só resultaram em prejuízo financeiro ao clube – muitos jogadores trazidos na última temporada estão encostados ou emprestados a equipes menores.

Além do caixa esvaziado, os métodos desatualizados e a lentidão da diretoria nas negociações têm feito com que o clube perca diversos reforços para rivais locais – mesmo com a vontade dos atletas em atuar pelo Raja. O caso de Lys Mouithys é o mais emblemático. Faltando apenas detalhes contratuais para que o congolês fosse anunciado pelo Raja, de última hora, o atacante aceitou uma proposta do rival Wydad Casablanca.

Para mudar este panorama, Hanat foi inteligente e nomeou dois ex-ídolos do Raja como diretores do clube: Youssef Rossi e Salaheddine Bassir. O primeiro foi o mentor da reestruturação das categorias de base do clube há pouco tempo, enquanto o segundo é conhecido por ter disputado a Copa de 98 e as Olimpíadas em 2000. Jogadores como o defensor Driss Belaamri e o atacante El Hassan Issoufou (foram apenas quatro reforços na janela de transferências, que fecha hoje) desembarcaram em Casablanca, mas o barco já estava afundado.

A conquista da liga marroquina escondeu uma série de deficiências da equipe. Sem um armador de ofício e um centroavante para empurrar a bola pras redes, o futebol previsível do time dirigido por Balaci não condiz com uma das principais tradições do Raja desde sua fundação: o futebol bonito, até certo ponto despreocupado, que alcançou o auge no Mundial Interclubes de 2000. Entretanto, à época, o clube também era conhecido por fraquejar na reta final das grandes competições. Os tempos mudaram, e infelizmente, pra pior. O clube segue acumulando um longo jejum de conquistas continentais e, agora, jogando um futebol medíocre. Para “voltar” a ser grande, o Raja precisa pensar como tal. E essa filosofia não condiz com a administração de Hanat.

Liga dos Campeões: Enyimba é o primeiro classificado

Na penúltima rodada da LC Africana, apenas uma equipe garantiu classificação antecipada para as semifinais. O Enyimba visitou o bom time do Al Hilal e, com um gol de pênalti nos acréscimos, garantiu uma vitória por 2 a 1 que faz com que os nigerianos não possam mais ser alcançados na liderança do Grupo A. No outro jogo da chave, o Coton Sport bateu o Raja Casablanca por 2 a 1 e, além de eliminar os marroquinos, pulou para a vice-liderança. Na última rodada, os camaroneses só dependerão de si para garantir classificação, mas o difícil confronto frente ao Enyimba fora de casa reserva fortes emoções. O Al Hilal visita o Raja precisando vencer e torcer por um tropeço do Coton Sport para chegar às semifinais.

Do Grupo B saiu o grande destaque individual da rodada: o atacante Yannick N’Djeng, de apenas 21 anos. Contratado há dois meses, o jovem camaronês marcou três gols e deu assistência para Mejdi Traoui na goleada do Espérance por 4 a 0 sobre o eliminado Alger, da Argélia. Já o Al Ahly segue no seu calvário, desta vez empatando em 1 a 1 com o Wydad Casablanca e amargando grandes chances de ser eliminado. Na última rodada, os egípcios encaram outro gigante do continente africano, o Espérance, precisando vencer por uma boa margem de gols. Já o Wydad, vice-líder da chave com 7 pontos (um a mais que o Al Ahly e dois a menos que o Espérance), visita o Alger e deve vencer, salvando o futebol marroquino no torneio.

CURTAS

Angola

– Faltando seis rodadas para o fim da Girabola, elite do futebol angolano, o assunto do momento na imprensa local é…a vitória de Leila Lopes no Miss Universo. Bem, vamos pular essa parte. A briga pelo título segue embolada, com o Recreativo do Libolo se mantendo a duras penas na ponta, com 44 pontos.

– O Kabuscorp, que vem de uma goleada por 5 a 1 sobre o 1º de Maio, é o vice-líder com 43. Interclube, com 40, Petro de Luanda, com 39, e Primeiro de Agosto, com 37 (os dois últimos com um jogo a menos), também seguem na briga.

África do Sul

– O Orlando Pirates deu um importante passo para a repetição da conquista da tríplice coroa no futebol sul-africano. No último sábado, os Buccaneers bateram o rival Kaizer Chiefs por 1 a 0 na prorrogação e faturaram o bicampeonato da MTN 8. Num jogo fraco tecnicamente, o volante Oupa Manyisa garantiu o caneco com um gol na segunda metade do tempo extra.

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Equipe Trivela

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