África

O homem dos 107 gols

Zâmbia nunca ganhou tanta repercussão na mídia esportiva como nos últimos dias. Nem mesmo no histórico título da Copa Africana de Nações, no início do ano. Na verdade, um personagem em especial entrou em voga repentinamente: Godfrey Chitalu.

Talvez você nunca tenha ouvido falar neste ex-atacante e técnico dos Chipolopolo. Na melhor das hipóteses, soube de sua existência apenas nesta semana. Para os que se encaixam na primeira suposição, digo-lhes o motivo de tamanha repercussão: enquanto o mundo celebra o recorde de gols em uma temporada atingido por Lionel Messi, a Federação Zambiana de Futebol (FAZ) tenta comprovar que, na verdade, esta marca pertence a Chitalu. Ele teria marcado nada menos que 107 gols em 1972, mesmo ano em que Gerd Müller anotou 85 gols e detinha o recorde batido por Messi.

Parece surreal, mas antes de tudo, vale lembrar que há muito oportunismo neste episódio. A começar por parte da imprensa “madridista” da Espanha – leia-se Tomás Roncero, redator-chefe da seção do Real Madrid no “Diario AS” e, acima de quase tudo, anti-Barcelona -, por motivos óbvios. Nos últimos dias, Roncero “liderou” uma campanha pelo reconhecimento dos gols de Chitalu por parte da Fifa, motivado por uma provocação barata ao rival que procura em qualquer oportunidade. Já a federação zambiana, que nunca correu atrás deste reconhecimento, viu uma grande oportunidade de colocar um jogador do país em destaque no cenário mundial.

No entanto, quem é Godfrey Chitalu? Teria ele realmente marcado tantos gols em um mesmo ano? Alex Stone, porta-voz da Fifa, já declarou que a entidade não vai se envolver na discussão por não possuir uma base de dados de campeonatos nacionais. No entanto, mais do que nunca, como diria Faustão, esta é uma oportunidade excelente para resgatar a história peculiar e vitoriosa de Chitalu no futebol zambiano.

Chitalu foi jogador entre as décadas de 60 e 80 e se consagrou pelo Kabwe Warriors, clube pelo qual atuou por 11 anos (inclusive o de 1972), além de ser o maior artilheiro da seleção zambiana, com 76 gols. Nasceu em um bairro pobre da cidade de Luanshya e tentou iniciar a carreira em um time chamado Roan United, mas não vingou. Decepcionado, rumou para a cidade de Kitwe e conseguiu uma vaga no Kitwe United, um dos dois clubes pelo qual atuou em toda a carreira.

Além do faro de gol apurado, da velocidade e da força física, Chitalu sempre foi um jogador temperamental. Seu estilo “bad boy”, que lhe rendia confusões com árbitros, jogadores adversários e até do próprio time, resultavam em histórias inacreditáveis. Numa delas, Chitalu foi expulso após mentir seu nome para um árbitro, que anotava o seu nome após aplicar-lhe um cartão amarelo. O artilheiro, ao identificar-se para o juiz, disse que se chamava Denis Law, nome de um escocês que fez sua fama no Manchester United.

Chitalu foi eleito Jogador do Ano em seu país cinco vezes, inclusive na premiação inaugural, em 1968. Naquele ano, aliás, o zambiano anotou 81 gols contando todas as competições. Ele superaria esta marca na fatídica temporada de 72, já pelo Kabwe Warriors, com seus 107 tentos. Por um fato curioso, seu apelido era “Ucar”. À época, em 1970, a fabricante de pilhas UCAR patrocinava as transmissões de futebol no rádio em Zâmbia. Foi quando o comentarista Dennis Liwewe, despretensiosamente, soltou a pérola: “Godfrey Chitalu, super carregado como uma bateria UCAR…”. O artilheiro carregaria o apelido pra sempre – os próprios torcedores, a cada toque de Chitalu na bola, gritavam “Uuuuuucaaaaar”.

Como treinador, Chitalu foi campeão nacional com o Warriors em 1987. Ele ainda foi assistente técnico da seleção zambiana nas Olimpíadas de 88 antes de assumir a seleção principal em dezembro de 1992. Fazia um grande trabalho, muito próximo de classificar seu país para sua primeira Copa do Mundo. Contudo, no dia 27 de abril de 1993, o avião que levava a delegação dos Chipolopolo até Dakar, no Senegal, explodiu na costa do Gabão e fez 21 vítimas, incluindo Chitalu.

O pesquisador e historiador Jerry Muchimba, que trabalha para o Zambianfootball.co.zm e possui um banco de dados de jogadores zambianos, investigou o recorde e fez uma tabela com cada um dos gols marcados por Chitalu em 1972. Nela contém os detalhes mais importantes de cada partida, como data, adversário, estádio, competição, placar e número de gols de Chitalu. Confira abaixo:

Muchimba se utiliza, entre outras coisas, de recortes de jornais para fundamentar sua pesquisa. Nela, pasmem, constata-se que Chitalu marcou mais de 107 gols em 72. Nos primeiros meses do ano, “Ucar” anotou nove gols em dois jogos num duelo da preliminar da antiga Copa Africana dos Campeões. No entanto, por algum motivo, as partidas na época não foram consideradas da temporada em questão. A lista de Muchimba também conta com gols marcados em amistosos (dez no total, já que o NFL Trophy também era um torneio amistoso). Sem eles, o recorde diminuiria para 97. Só no campeonato nacional, foram 49 gols anotados.

Beira o absurdo este número de gols marcados em um ano? Sim. Mas existem alguns aspectos a serem considerados. O futebol zambiano, obviamente, não era profissional. E os registros dos campeonatos disputados naquela época, como se pode notar, são bastante escassos (os campeonatos oficiais em Zâmbia começaram apenas em 1962). E se o recorde é legítimo ou não, isso é o que menos importa. A história de Chitalu no futebol africano, acima de tudo, já está eternizada.

Curtas

– O Al Ahly terminou o Mundial Interclubes em 4º lugar. Decepção? Pelo contrário. Pra quem viveu o período mais tumultuado de seus 105 anos de história, fechar a temporada nesta condição é um orgulho. E a equipe, em que pese os resultados finais, deixou uma ótima impressão no Japão.

– Kwesi Appiah anunciou a lista de 26 jogadores pré-convocados para a CAN 2013. Além das ausências esperadas, como John Mensah (sem clube) e Michael Essien, a grande surpresa foi o atacante Jordan Ayew, do Marseille, ter sido preterido. Muntari, contundido, e Frimpong, recentemente naturalizado ganês, também estão fora.

– A Fifa suspendeu a ajuda financeira para a Federação Togolesa de Futebol (FTF), após uma sequência de escândalos de má administração em Lomé. Vários casos de desvio de dinheiro foram descobertos no país do Oeste Africano. Togo ainda vive o dilema de provavelmente não contar com Adebayor para a CAN 2013.

– Ainda sobre a Fifa, um relatório da entidade encontrou evidências que “um ou mais” jogos da África do Sul antes da Copa de 2010 foram manipulados. A Associação Sul-Africana de Futebol (Safa) admitiu que foi “infiltrada” há dois anos por Wilson Pemural, posteriormente condenado por manipulação, e sua falsa empresa de futebol Football4U, que na verdade era uma fachada para empresas de apostas da Ásia. Especula-se que os árbitros tenham sido os encarregados pelos resultados forjados.

– Semana de clássicos no futebol africano. O Espérance perdeu a invencibilidade na Ligue 1 tunisiana: derrota por 2 a 1 para o Club Africain no dérbi de Tunis, porém liderança do Grupo A mantida com 15 pontos. No Marrocos, o clássico de Casablanca entre Raja e Wydad terminou empatado em 1 a 1. O Raja lidera com 24 pontos, um a mais que o Wydad.

– Wahbi Khazri, uma das revelações do Campeonato Francês pelo time do Bastia, concordou em naturalizar-se tunisiano e deve disputar a CAN no ano que vem. Sami Trabelsi, técnico de seleção da Tunísia, certamente comemora a decisão, já que está empenhado a rejuvenescer o time.

– O marroquino Adel Taarabt declarou que “provavelmente” disputará a CAN 2013. O meia vive uma situação incômoda, já que pode desfalcar o Queens Park Rangers, que corre sério risco de rebaixamento no Campeonato Inglês, por até cinco partidas. O anúncio oficial do jogador será feito após o Natal.

– Boa notícia: o meia Rainford Kalaba, da seleção de Zâmbia e um dos melhores jogadores da última CAN, já voltou aos treinos e deve jogar no amistoso do próximo sábado, contra a Tanzânia. Ele está lesionado desde outubro e terá de cumprir um programa de treinamento cuidadosamente planejado.

– O jovem volante egípcio Mohamed El Nenny, presente nos Jogos de Londres e integrante da seleção principal egípcia, viaja para a Suíça no início de janeiro para fazer testes no Basel por uma semana. Ele foi liberado pelo seu clube, o Arab Contractors, e caso o negócio seja selado, El Nenny jogará no futebol europeu ao lado de Mohamed Salah, companheiro de seleção e ex-companheiro de Arab Contractors.

– Kaizer Chiefs e Orlando Pirates seguem disputando ponto a ponto a liderança do Campeonato Sul-Africano. O Chiefs manteve a liderança mesmo com o empate em 1 a 1 com o Pretoria University, chegando aos 32 pontos. O Pirates, por sua vez, bateu o Maritzburg fora de casa por 2 a 1 e já soma 31.

– Adam Ndlovu, ex-jogador da seleção do Zimbábue, morreu no último sábado em um acidente de carro. Ele tinha 42 anos. O irmão Peter Ndlovu, outro ex-jogador da seleção e com passagens por Coventry, Birmingham e Sheffield United, também se envolveu no acidente. Ele está consciente, mas encontra-se hospitalizado com ferimentos internos, ferimentos na cabeça, costelas quebradas e uma perna quebrada. Torcemos pela sua recuperação.

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