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O histórico Rigobert Song é o novo técnico de Camarões, após uma controversa mudança de comando num momento decisivo

Mesmo com a boa campanha na Copa Africana, Toni Conceição foi demitido "sob instruções do presidente" e será substituído por Song, nome histórico como zagueiro

Rigobert Song é uma lenda da seleção de Camarões. O zagueiro disputou 14 competições internacionais com os Leões Indomáveis. Esteve presente em quatro Copas do Mundo e em oito Copas Africanas de Nações, com dois títulos continentais. Com 137 partidas disputadas, o veterano ainda é o recordista em aparições pela seleção principal. E agora retorna, aos 45 anos, 12 anos depois de sua despedida, para comandar a equipe nacional. Nesta segunda-feira, a federação camaronesa anunciou que Song será o treinador do time na fase decisiva das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, em duelos contra a Argélia. Toni Conceição, responsável por levar a equipe ao terceiro lugar da CAN 2022, foi demitido “a pedido do presidente”, em decisão controversa.

A carreira de Song como jogador é bastante respeitável. O zagueiro passou por clubes como Liverpool, West Ham, Colônia, Lens, Metz, Galatasaray e Trabzonspor. Pela seleção, manteve-se na ativa de 1993 a 2010, quando pendurou as chuteiras. Já os trabalhos como treinador estiveram basicamente atrelados à federação camaronesa. Primeiro, ele passou três anos como assistente da seleção principal, trabalhando inclusive na Copa do Mundo de 2014 nesta função. Em 2016, Song foi nomeado como treinador da equipe B de Camarões – que concentra os jogadores em atividade no país. Todavia, o trabalho seria interrompido nos primeiros meses, após o veterano sofrer um aneurisma. Recuperado, ele reassumiu o time e também teve nova passagem como assistente da seleção principal, além de alguns meses como interino, mas sem dirigir em nenhuma partida. Desde 2018, o zagueiro orientava a equipe sub-23 de Camarões.

Apesar do simbolismo de Song no novo cargo, a mudança no comando de Camarões parece determinada mais por vaidade que pelos resultados em si. Toni Conceição realizou um bom trabalho à frente dos Leões Indomáveis durante os últimos três anos. O português assumiu uma equipe em crise, sem que tivesse engrenado com Clarence Seedorf, com uma campanha fraca na CAN 2019. Conceição então cumpriu seu objetivo de classificar os camaroneses para a fase decisiva das Eliminatórias e também realizou um bom papel na CAN 2022, dentro de casa. Camarões não tinha o melhor elenco do torneio, mas apresentou um futebol consistente e capaz de garantir pelo menos o bronze.

Ainda durante a CAN 2022, Toni Conceição indicava certa consciência de que não permaneceria na equipe se não levasse o título em casa. Porém, numa competição de futebol modesto, o destaque dos Leões Indomáveis parecia suficiente à sua manutenção. O time vem de uma sequência invicta que dura 11 partidas, apesar da eliminação nos pênaltis diante do Egito nas semifinais. Nada capaz de convencer a gestão do futebol no país. O anúncio oficial seria chancelado por membros do governo, que são os responsáveis pelos salários dos treinadores da seleção principal, embora não esteja claro se, antes disso, a decisão partiu da federação.

Segundo o anúncio do Ministro dos Esportes, Narcisse Mouelle Kombi, a saída de Conceição foi determinada por “altíssimas instruções do presidente da república”. Se foi mesmo assim, não é exatamente surpreendente também, considerando que o ditador Paul Biya, no poder de maneira ininterrupta desde 1982, tem inúmeros episódios de interferência direta no esporte desde a convocação de Roger Milla para a Copa de 1990. Vale lembrar que a Fifa não permite interferências governamentais em suas associações, mas isso é apenas na teoria e depende da forma como a banda toca. Considerando que Gianni Infantino fez um papel lamentável na decisão da CAN, ao atrasar a entrega da taça apenas para que Paul Biya fosse o responsável na tribuna de honra, a demissão deve passar por vista grossa e terminar em pizza.

Do ponto de vista esportivo, a saída de Toni Conceição é bastante arriscada, a menos de um mês da rodada decisiva das Eliminatórias. No entanto, Camarões reitera a aposta sobre os veteranos da seleção. Song servirá como um homem de confiança de Samuel Eto’o, eleito presidente da federação em dezembro. “As próximas partidas da seleção requerem novas orientações e novos ares”, afirmou Eto’o, no anúncio de seu ex-companheiro. O ex-atacante também já tinha se mostrado propenso a valorizar treinadores africanos, e a chegada de Toni Conceição foi responsabilidade da gestão anterior. Ao menos, há uma base bem estabelecida e um time que, se não é o mais estrelado da história dos camaroneses, conta com protagonistas em diferentes setores. Isso facilita a transição de Song, por mais que ocorra em cima da hora.

Camarões fará seus jogos decisivos contra a Argélia no fim de março. Como os argelinos possuem melhor ranking, a primeira partida será em Iaundé, antes do reencontro em Argel. O futebol apresentado nas Eliminatórias e a qualidade do elenco ainda oferecem uma pontinha de favoritismo às Raposas do Deserto. Porém, a CAN diminuiu as distâncias, não só pelo fracasso dos magrebinos, mas também pela competitividade dos Leões Indomáveis. Caberá a Song reviver esses momentos de força, em busca da sexta Copa do Mundo de sua vida, a segunda do lado de fora e a primeira como treinador principal.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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