O futebol mercenário em sua essência

Jorge Fossati possui múltiplas facetas no Brasil. A de um técnico que conseguiu levar a LDU a bater o Fluminense no Maracanã, em plena final de Libertadores. E também a de alguém que está lá, no início da caminha triunfal do Inter no torneio continental, mas que deixou Porto Alegre enxotado. Você pode fazer a sua escolha, eleger qual desses aí é o verdadeiro Fossati. Talvez não seja preciso, nem tanto ao sol, nem tanto à terra, Fossati é um bom treinador.
Experiente, por aqui lidou com problemas de adaptação, acarretados por questões culturais, sua comissão técnica de múltiplas facetas nacionais. Ele sabe bem o que é isso. É um homem do mundo, mas ao mesmo tempo defendo os valores de gente da casa, que por lá já estava antes de sua chegada.
Pode muito bem não saber lidar com as vaias, mas tem consciência de que o caminho para o sucesso passa pela base, pela formação de jogadores para o futuro. Esteve no Catar, sede da Copa de 2022, e por lá deixou esse legado. Nunca entendeu muito bem essa coisa de passar uma malinha de petrodólares para cá em troca da vinda de um atleta que jamais pisou naquele país. Achava que o catariano precisava ter mais confiança em si próprio. De não adiantaria, no entanto, se os técnicos, os dirigentes não sustentassem essa mesma fé nos boleiros locais.
Sexta passada, o time do Oriente Médio fazia a abertura da Copa da Ásia contra o Uzbequistão. Derrota por 2 a 0. Em determinado momento do jogo, o Catar tinha em campo seis jogadores nascidos fora de suas fronteiras, em lugares como Brasil, Uruguai, Senegal, Kuwait e Gana. É algo que já se desenhava no começo da década, ainda em 2004. Ao deixar o comando da seleção, Fossati foi substituído por alguém de dogmas distintos, partidário da ideia de se buscar talentos em outras regiões do planeta. Foi com o francês Philippe Troussier no comando que os catarenses chegaram perto de naturalizar os brasileiros Ailton, Leandro e Dedé, todos então no futebol alemão.
Não deu certo. A Fifa interveio, sob a alegação que não havia uma conexão clara entre os jogadores e o país. A partir daquele momento, para casos como esse, seria necessário ter vivido ao menos dois anos na nova casa ou ter alguma ligação ancestral. Não era o caso do trio canarinho. Nem tampouco dos outros cinco compatriotas levados no ano anterior por Togo para a disputa das Eliminatórias da CAN. O episódio passou batido. Como quase tudo quando se trata de África.
Até ali, ao menos não havia qualquer legislação da Fifa nesse sentido – algo motivado apenas pelo Catar. Como explicar, porém, a atual situação de Guiné Equatorial? Primeiro, o futebol feminino. Causou muita polêmica recente a suspeita de que duas ou até três jogadores do país seriam, na verdade, homens. Algo que, assinalam, não confere. Aparentemente são apenas garotas com excesso de testosterona masculina.
Acompanhadas, e aqui, sim, vem o real problema, como atesta a edição de janeiro da revista “World Soccer”, por colegas, quando não conterrâneas, dos lugares mais distintos do mundo. O time que bateu a África do Sul na recente campanha do vice-campeonato africano tinha, por exemplo, apenas três atletas de origem local. Brasileiras, camaronesas, burquinenses, nigerianas completavam a escalação. Nenhuma jamais morou no país. Todas pagas para jogar por lá.
A seleção masculina trilha caminho semelhante. Desbravado em seu início por Antonio Dumas, responsável por trazer atletas daqui– alguns que, inclusive, ainda o defendem –, e mantido por seus sucessores. Sede da Copa Africana de 2012, Guiné Equatorial vem se armando já com novos estrangeiros, caso de Mamadou Balde (ex-Bordeaux) e Seth Apiah (ex-Gana Sub-20). Tudo com a conivência do Senhor Joseph Blatter e do Senhor Issa Hayatou, presidente da CAF.
Até quando? Bem, enquanto jorrar petróleo nesse outrora pobre país de crescimento recente e menos de um milhão de habitantes, dizem. É o futebol mercenário em sua essência.



