África

O fim de um ciclo

Em meio a uma das maiores crises que o futebol egípcio vive nos últimos anos, em todos os aspectos, Hassan Shehata entrega o cargo de treinador da seleção nacional após quase sete anos. O comandante se despede como o homem que colocou os faraós no mapa do futebol mundial e que estabeleceu uma hegemonia sem precedentes no continente africano. Tricampeão consecutivo da Copa Africana de Nações (2006, 2008 e 2010), Shehata também reforçou seu nome na história ao conduzir seu país a um inédito nono lugar no ranking da FIFA, entre julho e setembro do ano passado.

Apesar da idolatria e gratidão pelos serviços prestados, Shehata parece estar saindo pela porta dos fundos. A perda da vaga na última Copa do Mundo para a Argélia estremeceu sua relação com torcedores e membros da federação local. Aliás, esta certamente é sua grande frustração em pouco mais de seis anos sob o comando dos faraós: ter falhado na qualificação para dois Mundiais, especialmente o do ano passado.

Mas este foi o menor dos motivos. Aliás, talvez nem tenha sido um deles. A campanha abaixo das expectativas nas eliminatórias da CAN 2012 foi determinante. Faltando duas rodadas para o seu encerramento, os egípcios ocupam a lanterna do Grupo G com dois pontos somados em quatro jogos, atrás de seleções como Níger e Serra Leoa. Uma (improvável) possibilidade de avançar pelo índice técnico, que garante vaga na fase final do torneio para os dois melhores segundos colocados na classificação geral, ainda existe. Criticado pelas estratégias táticas até certo ponto grotescas, pelos métodos disciplinares controversos e, principalmente, pela iminente necessidade de renovação do elenco, Shehata chegou a ser classificado como um ‘treinador ultrapassado’.

Em quatro jogos na CAN, os egípcios marcaram apenas um gol e amargaram resultados inaceitáveis como um empate em casa contra Serra Leoa e uma derrota para Níger. No plantel atual, apenas quatro atletas possuem idade igual ou menor que 23 anos. Jogadores como Essam El-Hadary, Wael Gomaa e Ahmed Hassan, que já atuam pela seleção principal há mais de dez anos (no caso de Hassan, desde 1995), seguem intocáveis. Shehata se despede com um retrospecto de 59 vitórias, 19 empates e 18 derrotas em 96 jogos (aproximadamente 68% de aproveitamento).

Entretanto, como já era de se esperar, questões políticas também pesaram na demissão. A chamada ‘Revolução Egípcia’ que eclodiu no início do ano, determinante na destituição de Hosni Mubarak do poder, teve reflexos diretos no futebol. Shehata, que não fazia questão de esconder sua simpatia por Mubarak, teve sua imagem arranhada – assim como alguns jogadores importantes que preferiram o silêncio diante da crise. Isso poderia passar despercebido, não fosse a importância do futebol na maioria das discussões no país. Não por acaso, Mubarak apoiava-se na reabilitação do futebol egípcio com o objetivo de conquistar popularidade para seu regime repressivo. Não funcionou.

Em sua defesa, Shehata alegava que não contestava a manifestação dos militantes, mas sim implorava pelo restabelecimento da paz no país, o que na sua visão, passava pela manutenção de Mubarak no poder até o fim de seu mandato, em setembro. “Mubarak é um símbolo da nação. Não devemos ignorar o fato de que a estabilidade e a segurança eram características de sua era”, chegou a declarar. Porém, ainda no dia 11 de fevereiro, Mubarak oficializou sua renúncia. E somado ao fato da virtual eliminação na CAN, o treinador acabou se transformando em um bode expiatório.

A seleção egípcia não falhava uma qualificação para a CAN desde 1978 – desconsiderando a edição de 1982, quando precisou abrir mão da disputa por motivos políticos. Todavia, a crise do futebol local vai muito além da crise administrativa do país ou dos métodos de trabalho ultrapassados de Shehata. O conservadorismo, a desorganização da Associação Egípcia de Futebol, a falta de competitividade do campeonato nacional (paralisado por três meses no início do ano, prejudicando a preparação de diversos atletas “locais” que servem a seleção) e a carência de novos talentos destroem, aos poucos, a reputação da seleção nacional.

A última afirmação chega a ser até contraditória, visto que os egípcios são considerados a grande força do futebol africano entre os juvenis. Individualmente, trata-se de uma boa safra, mas que ainda necessita de competitividade. O Africano Sub-20 foi prova disso, com os ‘pequenos faraós’ apresentando um futebol envolvente, porém morrendo na praia nas semifinais. O Mundial da categoria, que será realizado no mês que vem, poderá ser um retrato ainda mais fiel desse panorama.

Antes de mais nada, a saída de Shehata marca o (início do) fim da “seleção de Mubarak”, ou “seleção do Partido Democrático Nacional”, como ficou estigmatizado o atual selecionado egípcio. Vale lembrar que o treinador recusou ofertas de diversas seleções do Golfo no início do ano e agora está disposto a reconsiderar suas escolhas. Apesar dos pesares, Shehata foi e sempre será uma lenda no Egito. A reconstrução do futebol local passa pela sua demissão, mas essa não deve ser a última medida a ser tomada.

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Equipe Trivela

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