O brilho dos filhos da guerra

Em reportagem publicada no início do mês, o jornal “El País” mostrava a condição miserável em que viviam alguns criminosos numa prisão em Freetown, capital de Serra Leoa. Na avaliação dos espanhóis, pouca coisa se comparava ao cenário encontrado ali e acompanhado no país ao longo dos anos. Talvez o massacre protagonizado entre duas etnias em Ruanda e o regime do Apartheid na África do Sul. Exemplos também, indicava a matéria, de como o ser humano é capaz de superar mágoas e rancores para seguir adiante, em paz.
17 anos se passaram desde o genocídio que deixou um rastro de morte entre os ruandeses. Quase 1 milhão, para se ter ideia. 800 mil mortes, para ser mais preciso. Mas o episódio, como se vê, ainda segue vivo na mente das pessoas. Financiados por políticos de outros lugares, pelo governo, os hutus declararam guerra aos tutsis, numa guerra que tinha muito pouco de local, dizimando 80% da população ruandesa e avançando sobre vizinhos como Burundi e Uganda.
Foi preciso a intervenção da ONU para que o conflito cessasse, num movimento que tornou necessária a blindagem de alguns locais para o abrigo de refugiados. O estádio de Amahoro foi um deles. Por lá, conta-se, passaram 12 mil pessoas da milícia tutsis, deixando o futebol, como não poderia deixar de ser, em segundo plano.
Hoje, não. O panorama em Ruanda é outro. E a realização da final do Africano sub-17 entre os donos da casa e Burkina Faso, nesse mesmo palco, no último domingo, dá a dica disso. 35 mil torcedores, incluindo aí o presidente nacional, foram ao estádio no fim de semana para assistir a decisão do torneio. O resultado não foi o esperado. 2 a 1 para os burquinenses.
Não faz mal, julgavam os anfitriões. Naquela praça em Kigali, capital do país, eles tinham certeza, presenciavam um momento histórico nessa caminhada de Ruanda em busca da paz. No gramado, estavam os chamados “filhos da guerra”. Muitos dos garotos nascidos naquele 1994, ano em que estourou o confronto com a derrubada de um helicóptero, e que hoje representam o futuro de uma nação que dá seus primeiros passos no futebol. Seja avançando para a fase final da CAN, recebendo o Africano Sub-20 ou, como se viu no domingo, brigando por títulos continentais.
Em jogadores como Justin Mico, destaque da equipe no torneio juvenil, Ruanda tem a esperança de dias melhores. Muitos não tiveram a chance de segui-lo em ação contra Burkina Faso. Faltou ingresso. Foi necessário fechar os arredores do estádio. Em uma página no site Flickr, é possível observar algumas fotos que testemunham os bastidores dessa nova era que se abre no país.
Não foi um grande campeonato, relatam. Tive a chance apenas de assistir a decisão na manhã do domingo – em jogo que agradou, diga-se. Algumas promessas, inclusive, pintaram por lá. Já firmadas em casos como o de Bertrand Traoré, de Burkina Faso, com clubes como o Chelsea. Outras prometendo seguir o mesmo caminho, Mico, Mabiala (RD Congo), Lago (Costa do Marfim) e Sana (também de Burkina Faso) assim esperam. Tudo isso, porém, em segundo plano. A exemplo do futebol naquele ano de 1994. Já diria o saudoso treinador Bill Shankly, o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais que isso.



