África

Nigéria precisa de continuidade

O futebol nigeriano vive um momento delicado. Só neste mês, o Enyimba foi surpreendentemente eliminado da Liga dos Campeões Africana e o Sunshine Stars, atual líder do campeonato local, foi derrotado pelo Club Africain, da Tunísia, no jogo de ida das semifinais da Copa da Confederação Africana. Entretanto, nada repercute na mídia esportiva local tanto quanto a ausência da Nigéria na Copa das Nações Africanas do ano que vem.

Como de praxe, as opiniões são unânimes em favor da demissão do técnico Samson Siasia. Para quem teve oito treinadores nos últimos oito anos, convenhamos, não seria nenhuma novidade. Além do mais, quando nomeou Siasia como treinador da seleção nacional, a Federação Nigeriana de Futebol estipulou dois objetivos muito claros: chegar às semifinais da CAN e garantir vaga na Copa do Mundo de 2014. A primeira meta passa a ser motivo de piada, afinal, as Super Águias sequer conseguiram classificação para o torneio.

Após o empate contra Guiné, que selou a eliminação dos nigerianos, todos imaginavam que o próprio Siasia renunciaria ao cargo, sem esperar qualquer definição da NFF. Uma definição que parecia muito óbvia, mas diante de uma novela que se arrasta por um longo tempo, se tornou uma incógnita. Shaibu Amodu, treinador que classificou a Nigéria para os Mundiais de 2002 e 2010 e não participou de nenhum deles (simplesmente porque a NFF não estava satisfeita com o futebol apresentado pela seleção) é um exemplo de uma cultura que tem arruinado a reputação do futebol do país. E por mais que este seja um dos momentos mais vexatórios das Super Águias nas últimas décadas, o problema não está no comando.

E por mais que seja contraditório, a Nigéria tem apresentado uma melhora relativamente significativa sob o comando de Siasia. Em nove partidas, venceu cinco, empatou três e perdeu apenas uma, marcando 20 gols e sofrendo nove. Para uma seleção tão criticada na Copa do Mundo pela inoperância ofensiva, com apenas três gols marcados em três jogos, os números falam por si só: Siasia conseguiu montar uma equipe muito mais agressiva ofensivamente. Na última convocatória, justamente para o jogo contra Guiné, nada menos que oito atacantes foram chamados.

E para extrair tão bem essa abundância de bons jogadores no ataque, Siasia ainda teve o mérito de fazer uma alteração providencial no esquema tático, substituindo um metódico 4-4-2 por um flexível 4-2-3-1. Mas se dentro de campo o time caminha para uma evolução, fora dele não se pode dizer o mesmo. Por ser um treinador muito rígido e não conceder privilégios a ninguém, Siasia tem colecionado conflitos com os principais jogadores do time. A desavença com Odemwingie, que inclusive já foi tema desta coluna, foi a mais repercutida. Obi Mikel, ainda nas Olimpíadas de 2008, também já se desentendeu com o comandante.

Recentemente, outra ‘vítima’ dos métodos de Siasia foi o goleiro Vincent Enyeama, que supostamente teria idealizado um ‘boicote’ por não concordar com o plano de viagem determinado pelo treinador para enfrentar a seleção de Madagascar, em Antananarivo. Pelo mesmo motivo, o arqueiro do Lille foi ignorado na lista de convocados para o jogo contra Guiné, ao contrário de Obi Mikel, um dos defensores de Enyeama no episódio. Aliás, tanto Mikel quanto Odemwingie, perdoado por Siasia, iniciaram o duelo como titulares e foram muito mal – o primeiro, disperso, e o segundo, perdendo muitos gols. Posteriormente, o próprio Siasia admitiu que errou em ambas as escolhas.

Apesar da iminente dificuldade em administrar a ‘rebeldia’ das estrelas do time, não se pode virar as costas para os méritos de Siasia. A coragem em rejuvenescer o plantel, apostando alto em talentos como Joel Obi, Ahmed Musa, Ekigho Ehiosun e Nosa Igiebor têm sido um indicativo de que a equipe só tem a melhorar. Clemens Westerhof, que fez história por ser o primeiro treinador a classificar a Nigéria para uma Copa do Mundo e é considerado o último grande treinador que a seleção já teve, precisou de cinco anos para implantar sua filosofia. Continuidade precisa ser a palavra de ordem. Caso contrário, fica difícil imaginar que os nigerianos consigam sair do fundo do poço.

Curtas

– A seleção camaronesa, que também está fora da próxima CAN, já está sem treinador. O espanhol Javier Clemente foi demitido.

– Clemente ainda tinha oito meses de contrato e deve lutar pela sua remuneração. Denis Lavagne, treinador do Coton Sport, atual campeão camaronês, é o favorito para assumir o cargo.

– Henri Michel, que havia se demitido da seleção de Guiné Equatorial (uma das sedes da CAN do ano que vem) na semana passada, está de volta ao seu ‘antigo’ posto.

– O francês entrou em choque com a Federação local por divergências quanto à escolha dos jogadores para as próximas convocações e pediu o boné, mas aparentemente ‘fez as pazes’ com a Feguifut.

– Sofhiane Feghouli, do Valencia, recebeu autorização da Fifa para atuar pela seleção da Argélia. O meia chegou a atuar pelas seleções de base da França, mas em reunião com oficiais da Federação Argelina, em maio, manifestou interesse em representar a seleção de seus pais.

– Na semana passada, o Mazembe selou seu 11º título congolês ao vencer o Motema Pembe por 2 a 0 e se isolar na ponta com 30 pontos. Festa para Kidiaba, Kabangu e outros desafetos dos torcedores do Internacional.

– Finalista da LC africana, o Wydad Casablanca também segue impossível no Campeonato Marroquino. O WAC bateu o MA Tetouan por 1 a 0 e chegou aos 12 pontos em quatro partidas, um a mais que o vice-líder CR Al Hoceima, que disputou um jogo a mais.

– Pelo Campeonato Egípcio, apenas uma equipe possui 100% de aproveitamento em três rodadas: o El Shorta, que folgou na última rodada e tem seis pontos. Al Ahly, com apenas cinco, e Zamalek, com quatro (e um jogo a menos), decepcionam até aqui.

– Precisando apenas de um empate para conquistar o Campeonato Angolano, o Recreativo do Libolo perdeu para o Progresso por 2 a 1 e deixou a definição para a última rodada, quando enfrenta o FC Cabinda e pode conquistar o primeiro título nacional de sua história.

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Equipe Trivela

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