Africa

O Todo Poderoso Mazembe nem tão poderoso assim

Um choque. Assim pode ser definida a eliminação do Mazembe ainda na fase preliminar da Liga dos Campeões Africana. No último domingo, os vice-campeões mundiais em 2010 derrotaram o Orlando Pirates por 1 a 0, porém a derrota no jogo de ida, por 3 a 1, selou a eliminação da equipe. É a primeira vez em seis anos que o Mazembe não disputará a fase de grupos da LC. Um vexame para um clube que possui um orçamento irreal para os padrões africanos. Mas como explicar a perda da soberania no continente apesar dos altos investimentos?

Financiado desde 1997 por um dos principais empresários da África, Moise Katumbi – que também acumula o cargo de governador da província de Katanga, uma área rica em recursos minerais no extremo sul da República Democrática do Congo -, o Mazembe caminha na contramão da realidade do país e esbanja riqueza.

O clube tem sua própria frota de aviões (atualmente dispõe de dois, e por esse motivo é um dos poucos no continente que não sofrem com dificuldade de locomoção), um estádio moderno, uma clínica e um ginásio. Mantém uma folha salarial equivalente a muitos times europeus e é bastante agressivo no mercado interno. Só na última janela de transferências, o Mazembe contratou dez jogadores, todos do futebol africano. Nenhum congolês, diga-se.

Talvez por esse motivo, o “Tout Puissant” (Todo Poderoso), como o clube se autointitula, não atrai muita simpatia quando atua no continente. Muitos acusam o Mazembe de ser favorecido pela CAF (Confederação Africana de Futebol), como no último domingo, na vitória sobre o Pirates. Uma arbitragem pra lá de tendenciosa por pouco não influenciou na definição do classificado. Uma expulsão injusta de um jogador do Pirates ainda no primeiro tempo e dois pênaltis muito mal marcados para o Mazembe – que desperdiçou ambos – geraram revolta da torcida sul-africana.

Jogar em Lubumbashi não é tarefa fácil para nenhuma equipe. Prova disso é que o Mazembe não perde em seus domínios pela Liga dos Campeões há mais de uma década. O ambiente criado pelos anfitriões é bastante hostil e gera controvérsias. Um episódio que levantou grande polêmica no último fim de semana envolveu a SABC, uma rede de televisão sul-africana que foi impedida de transmitir a partida direto do estádio. Uma declaração do chefe da delegação da Associação Sul-Africana de Futebol (Safa), Elvis Shishana, também causou bastante impacto: “nossas vidas estiveram em risco”.

Não se pode dizer, entretanto, que o Mazembe joga dinheiro fora, gasta por gastar. As contratações são sempre bem pensadas, o que se percebe nas entrevistas de Katumbi, um apaixonado por futebol que, apesar de suas outras ocupações, é muito envolvido com o planejamento do clube. Nesta temporada, foram trazidos cinco jogadores de Gana, três de Mali, um de Zâmbia e outro de Uganda. O plantel ainda conta com jogadores de Malaui, da Tanzânia, da Costa do Marfim e de Senegal. O time titular, no entanto, contra com seis congoleses.

Apesar da qualidade do plantel (jogadores como Kalaba, Mputu e Samatta são acima da média na África), tantas mudanças de uma temporada pra outra demandam um período de adaptação e consistência. A eliminação que agora revolta  pode ser benéfica no futuro, já que a equipe terá tempo para se reconstruir. O clube já caminha para resolver seus problemas internos, outro fator decisivo para o fracasso neste ano. O técnico Lamine N’Diaye, desgastado, passa a ter uma nova função na equipe: ele será o diretor-técnico, enquanto quatro interinos (isso mesmo, quatro) passam a ocupar o seu antigo posto. A comissão de esportes também foi totalmente dissolvida pelo milionário.

Palavras do próprio Moise Katumbi: “construir uma equipe, por vezes, leva muito tempo, mas esperamos que possamos ficar cada vez melhores”. De fato, a eliminação não pode ser vista como o fim do mundo. O Mazembe tem estrutura, elenco e poder aquisitivo para voltar a reinar no futebol africano. No entanto, por hora, não faz jus ao “Tout Puissant” presente no nome do clube.

Curtas

– Estão definidos os oito classificados para a fase de grupos para a Liga dos Campeões Africana. Além do Orlando Pirates, que tirou o Mazembe, temos outras grandes surpresas. A principal delas é o AC Léopards, que derrotou o ES Sétif (Argélia) nos pênaltis e se tornou no primeiro time do Congo a se classificar para a fase de grupos da LC desde a adoção do formato atual do torneio, em 1997.

– Angola, que não emplacava uma equipe na fase de grupos há 10 anos, também terá um representante. É o Recreativo do Libolo, lanterna do campeonato nacional, que derrotou o Enugu Rangers por 3 a 1. O Séwé Sports, da Costa do Marfim, é outra zebra das grandes. A equipe eliminou o FUS Rabat, do Marrocos pelo critério do gol fora de casa (1 a 1 na ida, 0 a 0 na volta).

– O Egito, com Al Ahly e Zamalek, é o único a emplacar duas equipes. O Ahly eliminou o Bizertin, enquanto o Zamalek contou com a inspiração de Abdoulaye Cissé (autor de dois gols) para empatar com o Saint George em 2 a 2. Os etíopes, aliás, merecem elogios pela brava campanha. Um gol aos 42 do 2º tempo arruinou os sonhos da equipe. Espérance e Coton Sport (Camarões) são os outros classificados.

– O supracitado Al Ahly, aliás, se despedirá de seu atual treinador em junho. Hossam El-Badry, que liderou a equipe no título da Liga dos Campeões em 2012, acertou um pré-contrato com o Al-Ahly Tripoli, da Líbia. O técnico afirmou que “problemas familiares” motivaram a sua saída. A questão econômica também pesou, já que o Ahly, assim como todos os clubes egípcios, vive uma crise financeira.

– Pela Copa da Confederação Africana, foram definidos os confrontos dos playoffs classificatórios para a fase de grupos. Esta etapa reúne as oito equipes classificadas na fase anterior e as oito eliminadas na última rodada qualificatória da Liga dos Campeões.

– Os duelos: FUS Rabat x FAR Rabat (clássico marroquino); Mazembe x Liga Muçulmana (Moçambique); ENPPI x Saint George; Bizertin x Ismaily; Stade Malien x LLB Académic (Burundi); Enugu Rangers x CS Sfaxien; ES Sétif x US Bitam (Gabão); JSM Béjaïa x Etoile du Sahel.

– A surpresa ficou por conta da classificação de equipes de Moçambique, Gabão e Burundi, países com pouca ou nenhuma tradição no cenário continental de clubes. Mais uma prova de que as forças do futebol africano estão cada vez mais niveladas, o que é ótimo para o continente.

– No maior clássico do futebol argelino, o USM Alger derrotou o MC Alger por 1 a 0 e sagrou-se campeão da Copa da Argélia. Irritados com a arbitragem, os jogadores do MC Alger boicotaram a entrega das medalhas após o apito final. Pra piorar, cerca de 50 torcedores da equipe apedrejaram o ônibus do USM Alger na saída do estádio.

– O maior clássico do futebol ganês também agitou a semana. Com casa cheia, Hearts of Oak e Asante Kotoko empataram em 1 a 1. Cobbinah fez o gol do Hearts, enquanto Helegbe marcou para o Kotoko, vice-líder com 42 pontos. O Berekum Chelsea, com a mesma pontuação, empatou sem gols com o New Edubiase e assumiu a liderança.

– O futebol em Camarões tornou-se profissional, mas os problemas administrativos ainda assolam o país. No fim do mês passado, clubes da primeira e segunda divisão do Campeonato Camaronês paralisaram a liga por conta do não pagamento de subsídios governamentais. Uma reunião com o Ministro do Esporte do país, Adoum Garoua, fez as duas partes chegarem a um acordo e os campeonatos serão retomados.

– Na temporada passada, a liga já havia sido suspensa por dois meses pelo mesmo motivo. O presidente da Liga Profissional de Futebol de Camarões, Pierre Semengue, é alvo de inúmeras acusações de peculato. Dirigentes de clubes, Federação Camaronesa de Futebol e Ministério do Esporte não “falam a mesma língua” no país. O conflito de interesses é constante e impede a progressão do futebol local.

– Parabéns ao KCCA, que sagrou-se campeão nacional em Uganda. Este é o nono título da equipe, que não o conquistava desde a temporada 2007-08.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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