Não há vida fácil rumo à Copa-2010?

Na semana passada, foi realizado o sorteio dos grupos da fase final das Eliminatórias africanas para a Copa do Mundo. Uma coisa é certa: teremos muita emoção daqui pra frente. Com o emparelhamento definido na sede da Fifa, em Zurique, é possível garantir que nenhuma seleção terá vida fácil. Não que as mais favoritas estejam passando por uma má fase técnica ou algo do tipo. O ponto é que as demais estão crescendo e vem alcançando um nível que só anima este colunista a fazer a seguinte afirmação: a África já está fazendo por merecer ter mais representantes no Mundial.
Atualmente, o continente possui cinco vagas, enquanto que a Europa, por exemplo, tem 13. Não se pretende aqui, obviamente, querer comparar a tradição dessas duas regiões do planeta no futebol, mas o fato é que os europeus, há algum tempo, vêm mandando equipes para a Copa que quase nada acrescentam ao torneio. Em contrapartida, pode-se dizer que o mesmo se sucede em relação à África, tendo como exemplo a última edição, disputada na Alemanha.
Mais uma vez, porém, cabe ressaltar que a participação de quatro países estreantes do continente na competição em nada contribuiu para o baixo nível técnico que se registrou na oportunidade. Gana surpreendeu em sua chave, Costa do Marfim foi um dos times que mais encantou, Angola e Togo resistiram mais do que muita gente imaginava e chegaram a sonhar com classificação, enquanto que a Tunísia, mais experiente, é que passou batida pelo Mundial.
Dito isso, partamos, então, para o que interessa, com uma análise do que se pode esperar de cada um dos cinco grupos das Eliminatórias. Algo não muito aprofundado porque, afinal de contas, as partidas desta fase só serão disputadas a partir de março de 2009 e muita coisa pode mudar daqui até lá. Vale lembrar, em tempo, que só os vencedores das chaves seguem para a Copa da África do Sul. Sem mais delongas, confira!
Grupo A – Camarões, Marrocos, Gabão e Togo
Ao contrário do que vem se comentando, o sorteio não foi tão ingrato para Camarões. Donos da segunda melhor campanha da fase anterior, os Leões Indomáveis vêm bem e não deverão ter dificuldades para garantirem sua vaga. Vale à pena ficar de olho em Gabão, que surpreendeu em sua chave, quase desbancando Gana. Marrocos, por sua vez, vem de uma troca no comando técnico e não empolga, enquanto Togo vive em crise com seu astro, Adebayor, mas deve ser considerada, pois ressurgiu das cinzas para se classificar.
Grupo B – Moçambique, Nigéria, Tunísia e Quênia
Cenário semelhante ao de Camarões se desenha para a Nigéria. Salvo algum imprevisto, o país assegurará seu retorno à Copa do Mundo com relativa facilidade. Como dito na última coluna, as Super Águias atravessam um excelente momento, de muita paz interna e ótima fase técnica. Ainda assim, não se deve menosprezar a Tunísia, de presença assídua nos últimos Mundiais e que está passando por um processo de renovação agora sob o comando de Humberto Coelho. Quênia também está no páreo e, após superar a crise interna de seu futebol, pode roubar pontos preciosos. Moçambique, por outro lado, não desponta bem.
Grupo C – Ruanda, Argélia, Egito e Zâmbia
Depois do bicampeonato africano, muita gente espera que o Egito volte, enfim, a disputar uma Copa do Mundo. A tarefa, porém, é um tanto quanto complicada. Na etapa anterior, os Faraós não foram tão bem e estiveram longe de convencer seus torcedores. Precisarão melhorar para bater seus adversários da chave. Zâmbia agradou na última CAN e tem bons nomes como Felix Katongo e Mulemba. A Argélia está se reorganizando após a saída de Cavalli e conta com Saifi e Ziani, entre outros, para seguir crescendo. Ruanda, por fim, é a grata surpresa dessa fase.
Grupo D – Gana, Benin, Sudão e Mali
Esse talvez seja o grupo mais difícil dos cinco sorteados. Gana não pode ser considerada como favorita absoluta, pois teve dificuldades para se classificar e ainda conta com um treinador recém-chegado, Rajevac, que não tem o mesmo respaldo de seu antecessor, Le Roy. O alento é que seu ataque pode, enfim, voltar a funcionar com a boa fase de Amoah no NAC Breda. Como possíveis surpresas, temos Benin e Mali. Os Esquilos estão numa fase crescente e possuem peças como Sessegnon e Omotoyossi, enquanto Mali tem, possivelmente, a sua última chance de vingar com a atual geração. Finalizando, o Sudão vem no embalo de seu futebol local, que tem feito bonito no continente com Al Hilal e Al Merreikh.
Grupo E – Costa do Marfim, Malaui, Guiné e Burkina Faso
Dificuldade parecida com a de Gana deverá ser experimentada pela Costa do Marfim, que tem toda uma moral no cenário mundial, mas que também ficou devendo até aqui. Caso queiram voltar a uma Copa, os Elefantes terão que melhorar bastante, pois, em seu grupo, está a maior surpresa das Eliminatórias, Burkina Faso. Conduzidos pelo português Paulo Duarte, os Cavalos apresentam como destaque o atacante Dagano, artilheiro do torneio com sete gols. Guiné, por sua vez, já faz barulho no continente e conta com jogadores talentosos, enquanto que Malaui deverá ser o fiel da balança.
Mais uma final
Como já era esperado após os jogos de ida da semifinal, Dynamos e Enyimba acabaram ficando pelo caminho e Al Ahly e Coton Sport disputarão o título da Liga dos Campeões e o direito de representar o continente no próximo Mundial de Clubes. A primeira partida entre as equipes será jogada neste domingo, em Cairo, e será marcada por um confronto que opõe experiência e juventude.
Na última vez que o futebol camaronês conquistou um título africano, em 1981, com o Union Douala, o Coton não havia nem sequer sido criado. Somente cinco anos depois é que sua fundação se deu e iniciou-se, então, o seu crescimento no cenário local. O time vem sendo hegemônico em seu âmbito interno, tendo assegurado a sua última conquista no domingo passado, com a vitória na final da Copa da Liga camaronesa. É mais um fator motivacional para a equipe.
Em sua primeira decisão continental, o Coton aposta numa garotada que já vem sendo assediada por clubes estrangeiros e que não demorará muito a sair em busca de novos desafios. Os principais pilares dessa geração que vem despontando são o meia-atacante Ousmaila Baba, que esteve, inclusive, na Olimpíada em agosto, e o artilheiro Kamilou Daouda, que soma oito gols na competição. Nenhum dos dois possui mais do que 23 anos. Detalhe que, porém, não deverá ser problema no fim de semana se o Al Ahly mantiver a escrita recente.
Mais do que os próprios camaroneses, os egípcios têm se preocupado bastante com seu desempenho dentro de casa. Na semifinal, contra o Enyimba, o time só selou sua passagem para a final com um magro 1 a 0. Para piorar ainda mais a situação, nas últimas duas LCs, ele não se saiu bem nos jogos de decisão disputados diante de seus torcedores. No ano passado, foi surpreendido pelo Étoile du Sahel, enquanto que, em 2006, empatou em 0 a 0 com o CS Sfaxien.
É de se admirar que o Ahly tenha um obstáculo como esse pela frente, visto que seu grupo de jogadores é composto por nomes experientes que já vem jogando juntos há um bom tempo e o mais importante: chegando sempre na frente. A equipe precisará superar esse detalhe para fazer valer seu imenso favoritismo, deixar para trás o arqui-rival Zamalek e se tornar o maior vencedor do torneio no continente. A única dúvida do time para a partida é o meio-campo, Ahmed Hassan, que se recupera de uma pancada no tornozelo.
Worgu no Sudão
Autor de 13 gols em 14 jogos na Liga dos Campeões, Stephen Worgu foi a sensação dessa edição do torneio e um dos grandes responsáveis pelo Enyimba ter chegado até as semifinais. Paralelamente a isso, o atacante também esteve envolvido em algumas polêmicas em torno de sua transferência. A primeira delas envolveu o Al Ahly, que, por incrível que pareça, enquanto decidia uma vaga na decisão com os nigerianos, declarava seu interesse e negociava com o jogador. Uma atitude que, porém, não teve maior reprovação do continente.
Garantido seu lugar na final, os egípcios entraram de vez na briga pela contratação de Worgu, mas não conseguiram atingir as pretensões salariais do artilheiro, que pedia 1 milhão de dólares por ano. Com o espaço em aberto, o Al Merreikh entrou na jogada e, rapidamente, com uma boa quantia de dinheiro e uma dose simpatia de seus dirigentes, fecharam um acordo com a revelação de 19 anos, que rendeu ao Enyimba cerca de 2,5 milhões e se juntará a mais de 30 nigerianos que, atualmente, jogam no campeonato sudanês.
A opção de Worgu pelo Al Merreikh foi muito criticada pelos jornalistas do país, que esperavam que ele fosse seguir com sua carreira na Europa e não disputar uma liga que se encontra polarizada entre seu time e o Al Hilal. O jogador, no entanto, se defende e afirma que esse não era o momento ideal para dar esse passo e que aguardará mais um pouco até que se sinta preparado. É esperava pra ver e torcer para que ele siga crescendo, e não se torne um novo Tresor Mputu, que causou impacto semelhante na LC em 2007, foi comentado no Arsenal e caiu bastante nesta temporada.



