Africa

Na Nigéria, a celebração dá lugar ao descontentamento

A conquista da CAN 2013 pela Nigéria, que pôs fim a um jejum de 19 anos sem um título continental, ainda está viva na memória de todos que fizeram parte deste momento histórico. Não é pra menos: passaram-se apenas dois meses desde o golaço de Sunday Mba, que garantiu o triunfo sobre Burkina Faso na decisão. No entanto, de lá pra cá, os nigerianos vivem um dilema: não conseguem desfrutar do próprio título. O ambiente, que era pra ser de euforia, é cercado de insatisfação e incertezas.

Tudo porque os dirigentes nigerianos se veem obrigados a gerir uma série de problemas. Um deles é a insatisfação de alguns jogadores, sobretudo os mais experientes, com o técnico Stephen Keshi. Joseph Yobo, que até pouco tempo era capitão da equipe, passou a ser ignorado pelo treinador desde quando reclamou publicamente de sua ausência na convocação para o jogo contra o Quênia, pelas eliminatórias da Copa. Em uma convocatória com 30 jogadores para o cronograma da seleção nigeriana entre o fim de maio e meados de julho (período que engloba a Copa das Confederações, por exemplo), Yobo foi novamente deixado de lado por Keshi.

O ‘racha’ do treinador com um dos líderes da equipe pode provocar um mal-estar na equipe daqui pra frente. Ao contrário de Odemwingie, outro veterano que “rompeu” com Keshi, Yobo é bastante querido pelo elenco e pelos torcedores e já recebeu apoio publicamente de alguns companheiros de seleção, como Enyeama. O Comitê Técnico da Federação Nigeriana de Futebol (NFF) trabalha para agendar uma reunião entre Keshi, Yobo e Odemwingie e esclarecer todas as desavenças. O artilheiro da última CAN, Emenike, também já deixou escapar uma ponta de insatisfação com Keshi. Segundo ele, o treinador não se mostrou interessado em acompanhar a recuperação da lesão que sofreu nas semifinais da CAN.

Como se não bastasse, a relação de Keshi com a NFF também está desgastada. Muito se especulou após o título da CAN que o treinador entregaria o cargo, o que acabou não acontecendo. O que não significa que a sua relação com os mandatários do futebol nigeriano tenha melhorado. Diante desse cenário, até mesmo a Assembleia Nacional do país se viu obrigava a intervir. A intenção é que Keshi se reúna com o Ministro do Esporte, Mallam Bolaji Abdullahi, e com o presidente da federação, Aminu Maigari, para uma reunião daqui a algumas semanas.

Outra preocupação (ainda mais grave) dos dirigentes é a falta de dinheiro. A federação simplesmente está quebrada. Por esse motivo, o bônus prometido para jogadores e comissão técnica pelo título da Copa Africana, que ainda não foi pago, será reduzido pela metade. O corte de gastos também será sentido pelos treinadores das seleções de todas as categorias, que terão seus salários reduzidos. A justificativa é a de que metade do orçamento anual da federação foi gasto na África do Sul para a disputa da CAN.

Tal como acontece com Zâmbia desde o título africano de 2012, a Nigéria não consegue celebrar o seu sucesso. Todos esses fatores externos representam uma ameaça concreta à estabilidade do time, que possui um enorme potencial. Antes que os problemas se transformem em uma bola de neve e a situação fique insustentável, é hora de recuperar a unidade da equipe. Uma boa campanha na Copa das Confederações pode recuperar a autoestima do grupo, mas também pode sepultar um trabalho que se desenha bastante promissor.

Curtas

– Por conta de incidentes envolvendo torcedores egípcios em competições continentais, o Ministério do Esporte do Egito anunciou que todos os jogos realizados no país serão disputados com portões fechados, com exceção apenas das partidas da seleção egípcia.

– A medida tem como objetivo garantir a segurança dos torcedores, das equipes e das instalações em si. Para citar algumas das turbulências recentes, torcedores do Al Ahly atiraram fogos de artifício no gramado em um duelo contra o Tusker e ‘Ultras’ do Zamalek quebraram alguns assentos do estádio de Alexandria no jogo contra o Gazelle.

– Ainda sobre hooliganismo: quase 200 torcedores do FAR Rabat, do Marrocos, foram presos após atacarem lojas, carros, ônibus, bondes e pedestres a caminho do estádio de Casablanca, onde o FAR enfrentou o Raja Casablanca (empate em 1 a 1). Especialmente no norte da África, este é um problema que ainda parece longe de ser solucionado.

– Pressionado pela Fifa e por Issa Hayatou, o ministro dos esportes de Camarões, Adoum Garoua, acusou o golpe e desistiu de suspender as eleições presidenciais da Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot). A entidade máxima do futebol não permite que o governo interfira em questões do futebol, sob ameaça de suspensão da seleção do país por um longo tempo.

– A Premier Soccer League (PSL) estuda proibir a utilização de vuvuzelas nos estádios da África do Sul. O instrumento musical tem sido utilizado em alguns incidentes violentos nos gramados do país.

– Lembram do Sunday Mba, heroi do título nigeriano na última Copa Africana de Nações? Pois bem, desde o gol mais importante da sua carreira, ele ainda não disputou nenhuma partida oficial. Tudo por causa de um impasse entre seu antigo clube, o Warri Wolves, e o Enugu Rangers, com quem tinha um acerto desde janeiro.

– No mês passado, a Federação Nigeriana de Futebol (NFF) determinou que Mba ainda possui contrato com o Warri Wolves. Sendo assim, o Enugu Rangers teria que pagar uma determinada quantia para contar com o jogador. E é justamente por conta do valor da transferência que o acerto ainda não foi oficializado. Pior para o atleta, que não consegue colher os frutos do ótimo desempenho na CAN.

– Melhor jogador do último Africano Sub-20, o ótimo egípcio Saleh Gomaa pode estar de malas prontas para o futebol europeu. O jogador revelou que representantes do Torino (Itália) estiveram no Cairo para discutir com seu clube, o ENPPI, o valor de uma possível transferência, que giraria em torno de € 2 milhões.

– Com mais um gol do artilheiro Meyong, o Kabuscorp bateu o Benfica de Luanda por 2 a 1 e disparou na liderança do Campeonato Angolano com 19 pontos, seis a mais que o vice-líder. Em Gana, mesmo empatando sem gols com o Heart of Lions, o Medeama lidera o campeonato nacional com 39 pontos, seguido de perto por Berekum Chelsea e Asante Kotoko.

– A CAF confirmou a eliminação do Heartland (Nigéria) da Copa da Confederação Africana. Os nigerianos não compareceram ao jogo de volta da eliminatória contra o US Bitam, marcado para o último dia 6, no Gabão. A confederação entendeu que a atitude foi de total responsabilidade do Heartland e, de acordo com o regulamento, desclassificou a equipe. O US Bitam agora enfrenta o USM Alger, da Argélia.

– O jovem irlandês Jonathan McKinstry é o novo treinador de Serra Leoa. Com apenas 28 anos, ele já trabalhou para a federação irlandesa, Newcastle, New York Red Bulls e dirigia uma academia de futebol da Fundação Craig Bellamy em Freetown, capital de Serra Leoa. É uma decisão ousada e, a princípio, parece muito válida.

– Por conta de acusações de fraude, a Fifa invalidou a eleição presidencial da Federação Gabonesa de Futebol, que havia sido vencida por Jean de Dieu Moukagni. Uma nova votação será realizada nas próximas semanas.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo