África

Na Argélia, Madjer tentará fazer uma lenda funcionar no banco de uma seleção africana

Não é tão estranho assim ver um grande jogador da história de um país treinar a seleção de sua própria nação – pela qual atuou, na maioria das vezes. Nas Américas e na Europa, vez por outra há tal fenômeno. Porém, ele se torna mais raro nas seleções mais tradicionais da África. Fora da Copa, a Argélia decidiu tentar recolocar sua seleção nos eixos fazendo isso. Nesta quarta-feira, a federação anunciou o novo técnico dos Guerreiros do Deserto. Novo em termos: afinal, pela quarta vez a seleção argelina terá como comandante Rabah Madjer, 58 anos, um dos melhores jogadores argelinos – talvez até da África – na história do futebol.

É possível dizer: se hoje jogadores como Islam Slimani, Sofiane Feghouli e Riyad Mahrez têm espaço e reconhecimento em grandes centros, Madjer foi um dos grandes responsáveis por isso. Em clube e seleção, o meio-campista foi protagonista na década de 1980. Pela seleção (dividindo o protagonismo com Lakhdar Belloumi), Madjer brilhou nas edições da Copa Africana de Nações, torneio em que a Argélia foi uma das nações mais constantes daqueles anos: vice-campeã em 1980, terceira colocada em 1984 e 1988, quarta colocada em 1982 e, finalmente, campeã em 1990.

Em Copas, o magrebino foi um dos responsáveis pela surpreendente campanha das Raposas na edição de 1982: mesmo com a eliminação, a equipe africana mostrou qualidade técnica, e conseguiu uma das grandes e mais conhecidas zebras da história dos Mundiais, com o 2 a 1 na Alemanha – partida na qual Madjer fez o primeiro gol, aliás. Mesmo com brilho menor, o meio-campista também apareceu no torneio de 1986. Clubes? Pois bem: o argelino até hoje é ídolo do Porto, onde ficou entre 1985 e 1991 (como esquecer seu gol de calcanhar na final da Copa dos Campeões 1986/87?). De mais a mais, também jogou no Racing Paris e no Valencia.

Não bastasse os 14 anos jogando pela Argélia (1978 a 1992), Madjer já treinou quatro vezes a equipe nacional. A primeira delas, aliás, tão logo encerrou a carreira, entre 1993 e 1995, saindo após fracassar nas eliminatórias da Copa de 1994 – e após a turbulenta revogação da classificação do país para a CAN do mesmo ano. Depois, ainda voltou rapidamente em 1999. Finalmente, Madjer comandou a equipe entre 2001 e 2002, sendo demitido após a péssima atuação na Copa Africana – a Argélia foi eliminada na fase de grupos, ainda.

Pela própria irregularidade das federações africanas, poucas são as seleções do continente que tiveram êxito com destaques em campo sendo treinadores. Exemplos raros são o marroquino Ezzaki “Zaki” Badou – goleiro que surpreendeu na Copa de 1986, com grandes atuações, Zaki comandou os Leões do Atlas entre 2002 e 2005, além de rápida passagem entre 2014 e 2015. Mais recentemente, houve o nigeriano Stephen Keshi (1962-2015), que conduziu a Nigéria ao título da Copa Africana em 2013 e a uma campanha razoável na Copa de 2014. O sucesso de Keshi até motivou a aposta em nativos de êxito como jogadores para treinarem as Super Águias, com as recentes vindas de Sunday Oliseh e Samson Siasia, mas estes foram rapidamente despachados.

O exemplo derradeiro talvez seja de François Zahoui, da Costa do Marfim: Zahoui teve carreira notável nos anos 1980, jogando na Itália (Ascoli) e França (Nancy), e treinou os Elefantes por dois anos, entre 2010 e 2012, conseguindo até o vice-campeonato na Copa Africana de 2012. Dá ainda para citar Jomo Sono, dos grandes futebolistas da África do Sul, treinador dos Bafana Bafana na Copa de 2002, e Sami Trabelsi, zagueiro tunisiano que esteve na Copa de 1998, em campo, e foi até melhor sucedido como treinador das Águias de Cartago, entre 2011 e 2014. Mas é raro ver apostas em ex-jogadores no banco de seleções africanas – para se ter uma ideia, em Camarões, houve apenas a passagem interina do antológico Thomas N’Kono no comando, em 2009. É mais fácil apontar treinadores africanos com várias passagens por suas seleções (no Egito, Mahmoud El Gohary e Hassan Shehata; na Nigéria, Christian Chukwu e Amodu Shuaibu; em Gana, Fred Osam-Duodu, Sellas Tetteh e James Kwesi Appiah; em Camarões, Jules Nyongha e Jean Manga-Onguené) do que ex-atletas. Para não falar em treinadores de países europeus.

Embora não seja garantia de sucesso, tal fenômeno é bem mais comum na Europa e nas Américas. O Brasil pode citar os exemplos de Zagallo (com sucesso), Paulo Roberto Falcão (sem sucesso) e Dunga (com relativo sucesso na primeira passagem, sem sucesso na segunda). Na Espanha, a seleção foi dirigida na Copa de 1990 por Luis Suárez Miramontes, dos mais técnicos meio-campistas que o país teve em sua história (em clubes, Suárez foi o grande destaque da Internazionale campeã europeia em 1964/65). Na Holanda, a passagem de Marco van Basten foi mediana, é verdade. Mais sucesso teve Dino Zoff, técnico da Itália na elogiável campanha do vice-campeonato europeu em 2000. No México, merece lembrança Hugo Sánchez, considerado ainda o grande jogador da história de El Tri, e que tradicionalmente mencionava o desejo de treiná-la, enfim realizado entre 2006 e 2008. E acima de tudo, houve os exemplos de Alemanha e Argentina, com os grandes craques de suas histórias a comandarem as seleções em Copas – Franz Beckenbauer se consagrando de vez em 1990 (sem contar o vice de 1986), Diego Maradona se confundindo e mostrando falta de preparo tático em 2010.

Madjer chegou à Argélia mostrando o desejo de pacificar o ambiente prejudicado pelas brigas dos destaques técnicos com seu antecessor, Lucas Alcaraz: “Vou escolher os melhores, joguem eles na Argélia ou no exterior. Mahrez, Slimani e Bentaleb tiveram problemas com o técnico anterior. Mas tudo isso ficou para trás”. E já definiu a prioridade: a classificação para a CAN 2019. Se conseguir o respeito das estrelas atuais, meio caminho estará andado. Impor respeito pelo passado, ele pode muito bem impor. História não lhe falta.

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