Como a mudança na Copa Africana de Nações pode ser prejudicial ao futebol no continente
Torneio passa a ser nos moldes da agenda global da Fifa a partir de 2028
Uma grande surpresa em relação à Copa Africana de Nações (CAN) foi divulgada no sábado (20), antes de a bola rolar para Marrocos x Comoros no jogo de abertura do torneio em 2025 neste domingo (21).
O presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF), Patrice Motsepe, anunciou que a competição não será mais realizada no formato bienal a partir de 2028 e passa a se encaixar no calendário da Fifa, isto é, de quatro em quatro anos. O mandatário alegou que objetivo é estabelecer “harmonia” no cronograma do futebol global.
Deve haver CAN em 2027 (Tanzânia, Uganda e Quênia) e em 2028 (sem sede definida) — esta já alinhada ao calendário quadrienal. Portanto, a seguinte está prevista apenas para 2032.
O novo formato, porém, levanta questões acerca de eventuais prejuízos que pode causar no futebol africano, seja na parte financeira ou na visibilidade.
Nuances da mudança no calendário da Copa Africana de Nações
Alterar o calendário era uma mudança que Issa Hayatou, ex-presidente da CAF, relutava em fazer. O camaronês considerava positivo manter o futebol africano “imune” à agenda universal, como destacou o “The Athletic”. Além disso, ele valorizava a “exclusividade” do torneio.
A Copa Africana de Nações é realizada de dois em dois anos desde a primeira edição, em 1957. Se mantivesse o modelo, não ocorreria nas mesmas temporadas de Copa do Mundo, Eurocopa ou Copa América, de modo a não dividir atenções com nenhuma outra grande competição de seleções.
Ajustar o cronograma da CAN a partir de 2028 não a coloca na rota do Mundial, mas a deixa no mesmo ciclo de Euro, Copa América e Jogos Olímpicos.
Isso não significa que “um problema” seria resolvido. A alteração não garante ser mais fácil equipes europeias liberarem seus atletas para as respectivas seleções africanas.
Com o passar do tempo, mais e mais jogadores do continente passaram a se destacar e atrair grandes clubes da Europa, o que gerava impasses com os times em anos de CAN. Os embates normalmente ocorrem entre dezembro e janeiro, com a temporada europeia em andamento.

Porém, não há garantias de que a competição será realizada em paralelo aos demais campeonatos continentais de seleções — geralmente entre junho e julho — devido ao clima. São meses de chuvas intensas em diversos países da África e restringir o período ao meio do ano limitaria a variedade de locais que poderiam ser sedes.
Há outro entrave. As ambições comerciais da gestão de Motsepe são atrair mais investimentos e olhares ao futebol africano. “A África precisa de mais dinheiro do que nunca. Não dá para competir com o restante do mundo sem recursos financeiros”, declarou o presidente.
Houve progresso significativo em acordos de patrocínios e transmissões na atual edição, tanto que a premiação ao vencedor passou de 7 milhões de dólares (R$ 38,6 milhões) em 2023 para 10 milhões de dólares (R$ 55,1 milhões) ao campeão de 2025.
Realizar a CAN ao mesmo tempo que a Euro pode não ser a melhor estratégia para manter o crescimento financeiro ou de visibilidade. “Será que eles conseguiriam os mesmos contratos competindo com a Eurocopa?”, questionou Simon Hughes, jornalista do “The Athletic”.

Outra novidade anunciada por Motsepe é uma Liga das Nações Africanas, semelhante à Nations League da Uefa. Esta deve ocorrer anualmente a partir de 2029 e colaborar nas perspectivas monetárias, segundo ele.
— A Copa das Nações Africanas era o principal recurso para nós, mas agora receberemos recursos financeiros todos os anos. É uma estrutura nova e empolgante que contribuirá para a independência financeira sustentável e garantirá mais sincronia com o calendário da Fifa.
Inclusive, as mudanças são uma “vitória” da Fifa. O “The Athletic” relembrou que, em 2020, o presidente Gianni Infantino disse que o ciclo da Copa Africana de Nações era “inútil”. Porém, não se esperava readequação tão imediata.



