África

Messi doa chuteiras para caridade em programa egípcio e causa ira no país

Em entrevista a uma emissora de televisão egípcia, Messi doou um dos seus pares de chuteiras para que a apresentadora leiloasse e entregasse o dinheiro para uma instituição de caridade. Uma tradição do programa Yes I am famous, que pede lembranças de todos os seus convidados em nome de uma boa causa. O ato de generosidade, porém, não foi bem interpretado por representantes de alguns setores do Egito, que o consideraram, ao contrário, uma humilhação ao país.

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A questão é cultural. No Egito e em muitos países árabes, o sapato muitas vezes representa desrespeito ou um insulto, por ser ser considerado sujo, sempre no chão e associado com os pés, as partes mais baixas do corpo. A expressão “bater em alguém com o sapato” e o ato de mostrar as solas do calçado podem ser especialmente ultrajantes. Quando um jornalista iraquiano quis protestar contra a ocupação americana no país, atirou um sapato no então presidente George W. Bush, que fazia uma visita a Bagdá. No final do último mês de fevereiro, um parlamentar egípcio chamado Kamal Ahmed fez a mesma coisa com um colega político, Tawfik Okash, que recebeu o embaixador de Israel para um jantar, sob aplausos da Casa.

No seu programa de televisão, um terceiro parlamentar egípcio, Said Hasasin, retirou o próprio sapato dos pés e começou a balançá-lo diante das câmeras enquanto repudiava a generosidade de Messi. “Os sapatos de quem você quer vender, Messi? Quanto você acha que consegue? Você não sabe que a unha de um bebe egípcio vale mais que os seus sapatos? Fique com eles. Nós, egípcios, somos um povo de 90 milhões de pessoas, temos orgulho, temos sapatos. Não comemos com o dinheiro dos sapatos dos outros. Eu teria entendido se ele doasse seu uniforme do Barcelona para os egípcios, isso é aceito. Mas apenas os sapatos? É humilhante para todos os egípcios e não aceito essa humilhação. Egípcios podem não encontrar comida, mas têm orgulho. Nós egípcios nunca fomos humilhados durante os sete mil anos da nossa civilização”, disse.

Said Hasasin, Messi
Said Hasasin segura o seu sapato na televisão

Espantosamente, Azmy Megahed, um porta-voz da federação egípcia de futebo, foi um pouco mais ofensivo porque colocou a Argentina no meio da conversa. “Se Messi tem a intenção de nos humilhar, então digo que ele deveria colocar os sapatos em cima da sua cabeça e na cabeça das pessoas que o apoiam. Dê seus sapatos para o seu país. Tem muita pobreza na Argentina”, afirmou, no programa de televisão de Hasasin.

Muito difícil que Messi tenha tido a intenção de humilhar o povo egípcio ao doar as suas chuteiras a uma instituição de caridade. Parece ser meramente um caso clássico de divergências culturais porque, do ponto de vista do argentino, ele estava apenas cedendo um item caro (as chuteiras do Messi valem bastante) para ajudar outras pessoas. E segundo a apresentadora do programa que o entrevistou, Mona El-Sharkawy, o destino final da doação não foi sequer mencionado na conversa e nem mesmo está confirmado que o dinheiro irá para uma instituição egípcia.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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