Africa

Magia negra, vudu e mais

Pode soar como tal, mas não é exagero dizer que o futebol africano é hoje o mais rico do mundo – culturalmente, claro. Talvez pelo fato de ter parado no tempo, ou simplesmente não ter evoluído ainda tanto quanto os demais, ele apresenta alguns traços que dão a ele uma aura toda especial. Há coisas que, por exemplo, acontecem por lá e que soam inacreditáveis por aqui. Mas, acredite, elas acontecem. Nas últimas semanas, ouvimos falar da morte de um jogador nos gramados do continente. A tragédia repercutiu por aqui, mas, pouco tempo depois, outras duas se repetiram e a impressão que se tem, ao menos de longe, é a de que não se trata de algo que foge da normalidade.

Há grandes tabus que não foram derrubados por aqui, e que provavelmente não o serão tão cedo. Aspectos do futebol africano que podem, inclusive, chocar algumas pessoas dentro de alguns meses, quando for dada a largada para a Copa. Um exemplo? Ok. Você acredita em magia negra, vudu, essas coisas? Não? Pois, então, saiba que essas práticas são comuns no continente negro e, inclusive, poderá ser acompanhadas de perto no próximo Mundial.

Para se ter uma ideia do quanto às vezes elas podem estar próximas e você não se toca, basta dizer que, em entrevista a um jornal nigeriano no último de fim de semana, o ex-zagueiro Taribo West admitiu que fez uso de magia negra durante a sua carreira. Para quê? Com ele, a resposta. “Eu queria superpoderes para jogar futebol. Costumava ir num lugar no Senegal onde eles me “cozinhavam” e depois disso eu tinha a certeza que nenhum atacante passaria por mim em campo e vazaria meu goleiro”.

Aparentemente, não funcionou muito, já que West nunca foi o que podemos chamar de uma “rocha” no centro da defesa. Superá-lo, vá lá, não era grande problema. Mas, veja só, em 1996, na Olimpíada de Atlanta, ele estava do outro lado do campo na vitória sobre o Brasil que levou a Nigéria à final dos Jogos. Teria ele tido alguma influência no gol contra de Roberto Carlos? Difícil dizer.

No momento, não me recordo bem quem falou, mas é aquela coisa, convenhamos: se tudo isso funcionasse, a África certamente já teria uma seleção campeã mundial, confere? Acredito que sim. De qualquer forma, não deixa de ser inusitado. Algumas histórias que acontecem pelo continente chamam a atenção. Mais ainda, talvez, a forma como seus personagens a narram.

O francês Philippe Troussier, cotado para assumir a Costa do Marfim, certa vez contou que, durante uma passagem pela Argélia, ela almoçava sozinho numa mesa quando, de repete, dois pigmeus teriam sentado ao seu lado e trazido com eles uma virgem, uma moça muito bonita. Em segundos, todos desapareceram. Fruto da imaginação de Troussier? Vá saber.

Outro fato curioso foi a onda de críticas que recaiu sobre o experiente Rigobert Song após uma partida contra Gabão, pelas últimas Eliminatórias. Relegado ao banco de reservas, o zagueirão camaronês foi acusado pelos torcedores de ter feito magia negra para que seu substituto, Sébastien Bassong, se contundisse – o que, de fato, acabou acontecendo, e se repetiria mais adiante, já em jogo pelo Tottenham, quando teria sofrido possivelmente uma concussão e teve que ser levado ao hospital no meio da partida.

Não poderia ser de outra forma, a Copa Africana de Nações é o torneio que mais centraliza esse tipo de histórias. Em 2002, o goleiro camaronês Thomas Nkono foi preso em campo pela polícia malinesa por ter supostamente feito uso de magia negra na semifinal contra Mali. Depois, acabou sendo libertado. Outra dessas coisas veio à tona no mesmo ano, quando bruxos marfinenses ameaçaram lançar uma maldição sob a seleção do país porque os dirigentes não teriam pago pelos “serviços” feitos dez anos atrás, na conquista do título da CAN, a maior glória dos Elefantes. Ao que parece, a praga não foi forte, já que a seleção só cresceu desde então (por outro lado, os grupos da morte, hein, hein).

Didier Zokora, um dos principais jogadores da Costa do Marfim, já admitiu em entrevista ao jornal inglês The Guardian que a prática de vudu é mesmo comum em seu país. “É algo grande, quando você é pequeno você aprende vudu, vudu, vudu. É magia negra – parentes e amigos falam sobre isso, é algo místico. Se você ganha, você diz, OK, isso funciona. Então, antes de um jogo, vamos dizer, contra Gana, não usamos isso? É claro que sim. De forma simples. Dizemos, por exemplo, que Essien não vai jogar bem e pronto.”

A Fifa aparentemente não se preocupa muito com isso para a Copa. Os remédios locais, todos desconhecidos do grande público, inclusive, dos médicos da entidade, causam maior preocupação. Ainda assim, será que vale mesmo levar a sério essas crenças religiosas? Mais: trata-se de algo muito diferente de outras práticas relacionadas à fé de cada um? Há quem conteste, por exemplo, o fato de Maradona levar todos os seus jogadores à igreja antes de um jogo contra o Paraguai ou Marcelo Lippi ter carregado consigo, no Mundial de 2002, uma garrafa de água benta. É uma discussão pra lá de complicada.

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Equipe Trivela

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