Nos últimos anos, o leste africano ficou conhecido como o “patinho feio” do futebol do continente. Em que pese a relevância histórica da região, inclusive com dois representantes desempenhando um papel fundamental no processo de criação da Copa Africana de Nações (Etiópia e ), o fato é que as equipes da África Oriental não conseguem ameaçar a soberania dos times da África Ocidental e do norte da África, que combinam 22 dos 29 títulos da CAN.

Outras estatísticas também fundamentam esta tese. Nunca uma seleção do leste africano disputou uma Copa do – aliás, a última equipe ao menos próxima da região a ter disputado um Mundial foi o Zaire, atual República Democrática do Congo, em 1974. Nos últimos nove anos, apenas quatro equipes do leste disputaram a Copa Africana (Quênia em 2004, Ruanda em 2010, Sudão em 2012 e Etiópia em 2013). Um número irrisório, considerando que este é, por exemplo, o mesmo número que a África Ocidental emplacou só de semifinalistas na última CAN (Gana, Burkina Faso, Nigéria e Mali).

No futebol europeu, a disparidade também é gritante. Muito se fala do protagonismo dos africanos no Velho Continente, mas os países do leste seguem expatriando poucos jogadores. Prova disso é que o único jogador da região a conquistar a Champions League em toda a história é o queniano McDonald Mariga, com a Internazionale em 2009/10. O irmão de Mariga, (Celtic), se encarregou de quebrar mais um tabu: tornou-se o primeiro jogador da África Oriental a marcar um gol na UCL. E não foi contra qualquer time: a vítima foi ninguém menos que o Barcelona, em novembro do ano passado.

Depois de toda essa contextualização, vamos ao ponto principal: este cenário está mudando. A última rodada das eliminatórias africanas para a Copa pode ter marcado uma nova fase no futebol do leste. Com seleções mais competitivas, os resultados já começam a aparecer.

A vitória da Tanzânia sobre o Marrocos por 3 a 1, sem dúvida, foi o principal deles. Uma vitória convincente, autoritária, que seria por 3 a 0 não fosse o gol marcado pelos marroquinos aos 48 do segundo tempo. Os tanzanianos, comandados pelo dinamarquês Kim Poulsen, contam com uma seleção bastante promissora, liderada por Mbwana Samatta, ótimo atacante do Mazembe. Não se classificarão para o mata-mata simplesmente pelo fato de ter a Costa do Marfim na sua chave, mas plantam uma ótima semente para o futuro. Olho também em jogadores como Ulimwengu (outro do Mazembe e autor de um gol e uma assistência contra o Marrocos), Kazimoto, Kaseja (goleiro e capitão) e Abubakar.

A Etiópia, que já fez história ao se classificar para a CAN após 31 anos, está muito próxima de desbancar a África do Sul e avançar para o mata-mata, ficando a dois jogos de um inédito Mundial. Em todo caso, a seleção comandada por Sewnet Bishaw segue superando suas próprias limitações. Um prêmio para o povo etíope, que conta com uma das torcidas mais barulhentas e apaixonadas da África. O Quênia, que empatou com a campeã africana Nigéria, também foi destaque no último fim de semana. A seleção de Wanyama e Oliech, em que pese a péssima administração dos dirigentes locais, tem tudo para evoluir.

Depois de anos de negligência no leste africano, no sentido de falta de estrutura e deficiência na formação de jogadores, a África Oriental já enxerga uma luz no fim do túnel. A região especialista na produção de grandes corredores de longa distância também quer provar que forma boas seleções de futebol. Ainda falta muito para competir com os rivais continentais, mas já é um ótimo começo.

Curtinhas das eliminatórias

– A derrota de Marrocos para a Tanzânia foi classificada como “humilhante” pela imprensa marroquina. O técnico Rachid Taoussi, que se disse “decepcionado” com os jogadores que atuam na Europa após o fracasso na CAN, decidiu radicalizar e convocou 16 jogadores do futebol marroquino para o confronto, excluindo jogadores como Belhanda, Taarabt, Boussoufa, El Hamdaoui e Assaidi. O resultado…

– Estreia pela seleção com hat-trick e vitória. Melhor impossível, não? Que o diga Emilio Nsue, de Guiné-Equatorial, autor de três gols na vitória por 4 a 3 sobre Cabo Verde em seu primeiro jogo oficial pela seleção. Por outro lado, a simpática não tem mais chances de disputar a Copa no Brasil.

– Gana e Costa do Marfim golearam sem dificuldades na rodada. Os ganeses derrotaram o Sudão por 4 a 0 (grande partida do estreante Waris, do Moscow, com gol e assistência), enquanto os marfinenses bateram Gâmbia por 3 a 0 em exibição magistral de Gervinho.

– Campeã africana em 2012, Zâmbia não consegue espantar a crise. O empate com o Lesoto em 1 a 1 só aumentou a desconfiança em torno do trabalho de Hervé Renard. Jogadores inativos em seus respectivos clubes, como Sunzu, Himoonde, Sinkala e Chansa, comprometem a consistência da equipe.

– Claude Le Roy não é mais técnico da República Democrática do Congo. Ele se demitiu após o frustrante empate sem gols contra a Líbia, em casa, onde Kaluyituka ainda perdeu um pênalti. Na mesma chave, Camarões, ainda sem jogar bem, venceu Togo por 2 a 1 com dois gols de Eto’o.

– Alain Giresse estreou no comando de Senegal com um empate amargo contra Angola em 1 a 1. Moussa Sow marcou o gol dos senegaleses, que ainda perderam um pênalti com Demba Ba.

– Vice-campeã da CAN 2013, Burkina Faso goleou Níger por 4 a 0, mas precisa de um milagre para manter vivo o sonho de vir ao Brasil. Isso porque a equipe somou seus primeiros três pontos no grupo, contra nove de Congo e restando apenas três rodadas. As duas seleções se enfrentam no próximo dia 14 de junho, pela 5ª rodada, com mando de campo do Congo.

– África do Sul e venceram sem brilho. A Tunísia venceu Serra Leoa por 2 a 1, enquanto os sul-africanos bateram a República Centro-Africana (que teve sua capital, Bangui, tomada por rebeldes no último domingo) por 2 a 0.

– Os jogadores da República Centro-Africana, aliás, devem ficar no mínimo uma semana em Douala, no Camarões, por conta das turbulências em Bangui – com exceção dos que atuam na Europa, que já viajaram para Paris. A Associação Sul-Africana de Futebol (Safa) comunicou que é muito cedo para pensar em transferir o jogo contra a República Centro-Africana em junho, a princípio em Bangui, para outro país.