Africa

Lições de uma tragédia

Voltemos dez anos, mais precisamente ao dia 9 de maio de 2001. A princípio, tal data não remete a nenhum fato relevante, porém na África, tornou-se um símbolo de perda profunda e desafios que ainda precisam ser atingidos. Naquele exato dia, um desastre sem precedentes na história do futebol africano vitimou 123 pessoas no antigo Accra Sports Arena em Accra, capital de Gana, no clássico entre Hearts of Oak e Kumasi Ashanti Kotoko.

A tragédia é considerada a terceira maior em estádios na história do futebol (apenas Peru x Argentina em 1964 e Spartak Moscow x Haarlem em 1982 registraram um número maior de vítimas). Desde então, o incidente tornou-se uma ocasião anual no calendário do futebol ganês, durante o qual programas são organizados em homenagem as vítimas e visando combater o vandalismo entre torcidas.

Em partida pelo Campeonato Ganês de 2001, Hearts of Oak e Ashanti Kotoko construíam mais um capítulo do maior clássico do futebol local. O Kotoko vencia por 1 a 0, mas os donos da casa viraram a partida e sustentaram o placar até os minutos finais. Faltando aproximadamente cinco minutos para o apito final, torcedores do Kotoko, revoltados, começaram a arrancar assentos das arquibancadas e arremessá-los no campo.

A polícia respondeu com gás lacrimogêneo, alimentando ainda mais a fúria da torcida visitantes. Entretanto, a grande quantidade de gás fez com que os torcedores se apressassem em direção aos portões de emergência. Para surpresa geral, as portas estavam trancadas e centenas de pessoas foram esmagadas até a morte pelas massas que vinham atrás.

A história moderna do futebol certamente não presenciou tamanho desastre. Aliás, este foi um dos períodos mais nebulosos em gramados africanos: aproximadamente 200 pessoas morreram em 12 meses naquele período. Confrontos entre torcedores e polícia também vitimaram pessoas na Costa do Marfim, no Congo e na África do Sul.

Dez anos depois, o futebol africano não esqueceu (e certamente jamais esquecerá) a fatídica tragédia, mas a impressão que fica é a de que as lições não foram completamente assimiladas. Estádios de futebol na África ainda são predominantemente antigos e mal regulados. A polícia tem pouco (para não dizer nenhum) treinamento em controle de multidões, além do mau comportamento de alguns grupos de torcedores.

Como consequência, os estádios encontram-se cada vez mais vazios, especialmente em Gana. Este visível declínio acentuado tem feito com que a Associação de Futebol Ganesa lute contra esse fenômeno, mas as atitudes tomadas não parecem suficientes. A verdade é que o aumento na popularidade do futebol no continente é desproporcional às modernas instalações.

A superlotação desenfreada pelos compradores de bilhetes é outro problema crônico nos estádios africanos. Os ingressos são vendidos no dia do jogo – muitas vezes de forma irregular -, o que prejudica o fluxo dos torcedores nos arredores dos estádios, mesmo porque muitos deles acabam extrapolando seus respectivos limites de capacidade. O que não é exclusividade da África, diga-se de passagem.

Na prática, em fevereiro de 2009, novamente um clássico entre Hearts e Kotoko ficou marcado por cenas lamentáveis nas arquibancadas. Ao todo, foram quatro mortes e nada menos que 417 feridos no superlotado estádio Baba Yara. Em mais de 54 anos de afiliação com a FIFA, a estrutura do futebol ganês continua sem nenhuma perspectiva de evolução. Enquanto o próprio Conselho Nacional de Esportes não respeitar os regulamentos previstos na organização dos jogos, tragédias como essas estão sujeitas a se repetirem.

Todavia, algumas atitudes merecem ser louvadas. O governo de Gana, por exemplo, criou uma bolsa especial para as crianças das vítimas. Hearts e Kotoko fariam um amistoso “comemorativo” neste sábado, que acabou adiado por um motivo, no mínimo, curioso. Esperava-se que os times reunissem personagens dos dois times que viveram aquele fatídico 9 de maio, porém, o Kotoko foi a campo com sua equipe habitual. O Hearts, com um time inteiro composto por membros da administração e ex-jogadores, se dirigiu ao vestiário e não voltou mais.

Após a tragédia, o Accra Sports Arena foi rebatizado de Ohene Djan Stadium e um monumento foi criado em frente ao estádio para homenagear as vítimas de dez anos atrás. Tão duradouro quanto este monumento deve ser o aprendizado de que o esporte também a missão de promover a paz e a união. Num país historicamente dividido, esses elementos são fundamentais.

Liga dos Campeões: grupos sorteados

A Confederação Africana de Futebol sorteou os grupos da edição 2011 da Liga dos Campeões continental. Com a desclassificação do Mazembe pela inscrição de um jogador irregular, Simba e Wydad Casablanca disputarão um playoff no dia 28 de maio pra decidir quem fica com a última vaga no Grupo B.

Confira as chaves:

Grupo A: Raja Casablanca (Marrocos), Coton Sport Garoua (Camarões), Enyimba (Nigéria) e Al Hilal (Sudão)

Grupo B: Espérance (Tunísia), Al Ahly (Egito), MC Alger (Argélia) e Wydad Casablanca (Marrocos) ou Simba (Tanzânia)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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