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‘Menino negro, menino branco’: Falas racistas e sexistas de técnico geram crise antes da Copa Africana

Partido denuncia treinador da África do Sul por declarações consideradas discriminatórias; federação fala em mal-entendido linguístico

As vésperas do início da Copa Africana de Nações (CAN ou AFCON), a seleção da África do Sul vive um ambiente de tensão após declarações do técnico Hugo Broos desencadearem uma queixa formal do partido Movimento Democrático Unido (UDM). A legenda acusa o selecionador de ter feito comentários de teor racista e sexista.

O episódio teve início quando Broos criticou publicamente o jovem zagueiro Mbekezeli Mbokazi, que perdeu um voo e se apresentou com atraso à seleção.

Embora tenha classificado a atitude como “pouco profissional”, o treinador ampliou o tom ao declarar que o jogador “é um menino negro, mas sairia do seu escritório parecendo um menino branco”.

A insatisfação de Broos aumentou depois da justificativa apresentada pelo Orlando Pirates, então clube do jogador. O técnico afirmou que o time tentou proteger o atleta e atacou também a agente de Mbokazi, classificando a explicação como frágil e inaceitável.

— Nem sequer é uma equipe de ponta na MLS. Ouvi dizer que ele vai jogar na MLS 2. Aquela mulherzinha que é agente dele acha que é esperta, acha que entende de futebol. Como é possível fechar esse acordo antes da AFCON e da Copa do Mundo?

Natural de Hluhluwe, pequena cidade localizada no norte de KwaZulu-Natal, na África do Sul, Mbokazi é o novo reforço do Chicago Fire. Revelado no Pirates — clube de seu país natal — o zagueiro foi apresentado recentemente pela equipe da MLS.

O UDM formalizou uma queixa junto à Comissão Sul-Africana de Direitos Humanos, argumentando que as declarações não podem ser tratadas como simples comentários isolados. O secretário-geral do partido, Yongama Zigebe, endureceu o tom: “O racismo e as atitudes de supremacia branca não têm lugar na nossa sociedade. Hugo deve ser responsabilizado”.

Hugo Broos responde às acusações de racismo e sexismo

Diante da repercussão negativa das suas falas, Hugo Broos se manifestou para rebater as acusações levantadas pelo Movimento Democrático Unido. O treinador afirmou que suas declarações foram retiradas de contexto e reforçou que as críticas tiveram como alvo exclusivo o comportamento profissional do jogador e a condução do caso, não a sua origem.

— É lamentável que minha forte repreensão à conduta do jogador e meus comentários subsequentes tenham sido interpretados erroneamente como racismo e sexismo. Distancio-me de qualquer acusação de racismo e sexismo — disse.

Em nota oficial, a Associação Sul-Africana de Futebol (Safa) afirmou que uma barreira linguística contribuiu para que a frustração expressada por Hugo Broos não fosse comunicada de maneira plena ou precisa durante a entrevista, o que teria levado a interpretações equivocadas sobre o real sentido de suas declarações.

A entidade também ressaltou que não houve qualquer motivação discriminatória nas falas do treinador. Segundo a Safa, ao longo dos quatro anos de trabalho de Broos à frente da seleção, nunca houve registros ou queixas por parte de jogadores, ou membros da comissão técnica relacionados a racismo, sexismo ou qualquer outra forma de discriminação.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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