Guerra sem fim
Daqui a pouco mais de uma semana, no dia 8 de setembro, a seleção de Camarões tem um confronto importantíssimo pelas eliminatórias da CAN 2013. Os Leões Indomáveis viajam para encarar Cabo Verde, procurando abrir alguma vantagem para o jogo de volta, em Yaoundé, que decide a classificação para a fase final do torneio. Em que pese o momento conturbado vivido pela equipe, os torcedores locais haviam ganhado um motivo para comemorar na última semana: Samuel Eto’o, após cumprir uma suspensão de oito meses (que inicialmente era de 15 jogos) imposta pela Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot), voltara a ser convocado.
O mal estar entre o ídolo e a Fecafoot tinha tudo para ser uma página virada. No entanto, ela acabou ganhando mais um polêmico capítulo nesta segunda-feira. Através de uma carta aberta ao presidente da federação, Iya Mohamed, Eto’o simplesmente recusou a convocação – ou nas suas palavras, colocou seu retorno “em espera”. Os argumentos são indiscutíveis. O atacante alega que a seleção “segue em um ambiente caracterizado pelo amadorismo e pela má organização, incompatível com um esporte de alto rendimento”, e diz que os problemas levantados por ele no papel de capitão “ainda não foram resolvidos”.
Aliás, essa foi uma questão que gerou muita expectativa quanto ao seu retorno. Muito se falou que o técnico Denis Lavagne, com o aval da Fecafoot, estava decidido a retirar a braçadeira de capitão de Eto’o – o que, convenhamos, seria uma humilhação pela qual o craque não precisaria passar. A diminuição da pena imposta pela federação, como já dito anteriormente nesta coluna, também teve uma dose de oportunismo. A seleção camaronesa vive um momento delicado desde a desclassificação nas eliminatórias para a CAN 2012, e a punição ao atacante, que era de 15 jogos (o que equivale a mais de 2 anos, um absurdo), diminuiu para 8 meses (cinco jogos), num claro ato de desespero em busca de melhores resultados.
Pois a decisão de Eto’o apenas reafirma sua insatisfação com questões como os conflitos de interesses mantidos pelo Ministério do Esporte e pela Fecafoot, a má gestão da equipe e os longos voos de classe econômica, como o que provavelmente será enfrentado até Praia, capital de Cabo Verde. A situação de Eto’o remete ao que já foi vivido por Abebayor em Togo ou Keita em Mali, ou seja, um líder com a preocupação de profissionalizar a gestão da seleção. O atacante inclusive já classificou os dirigentes da Fecafoot como “corruptos, preocupados em desviar dinheiro”, e conta com o apoio de figuras importantes, como Roger Milla.
Em princípio, por mais que a decisão ameace a classificação para a CAN, os torcedores também estão ao lado do ídolo. Os mais exaltados afirmam que Eto’o faz apenas o que qualquer torcedor camaronês tem vontade de fazer, ou seja, desafiar o controverso (pra dizer o mínimo) Iya Mohamed e sua “legião” na Fecafoot. E não é qualquer jogador que se encoraja a assumir uma postura tão radical. Jogadores importantes como Alexandre Song e Achille Emana, outrora críticos da Fecafoot, agora estão de volta à seleção.
Outros, como Benoit Assou-Ekotto, Jean Makoun e Benoit Angbwa, seguem a linha de raciocínio de Eto’o e também já cortaram relações com a entidade. Obviamente a decisão do craque não é definitiva, mas atenta para os problemas que estão destruindo a reputação dos Leões Indomáveis e, principalmente, coloca uma pressão enorme por um bom resultado contra Cabo Verde – uma equipe cada vez mais ascendente. Os camaroneses não ficam ausentes de duas edições consecutivas de fase final da CAN há 32 anos, mas não seria surpresa se um novo fiasco aumentasse ainda mais a crise na seleção.
Curtas
– O Ministério do Interior do Egito finalmente concordou com o retorno de torcedores aos estádios pela primeira vez desde a tragédia em Port Said. Partidas específicas terão capacidade limitada de público, a começar pelo duelo entre Zamalek e Berekum Chelsea, no próximo sábado, pela Liga dos Campeões. A nomeação de El-Amry Farouq como o novo Ministro dos Esportes teve papel decisivo na reviravolta.
– Falando em Liga dos Campeões, o Etoile du Sahel foi desclassificado da competição. Por conta do vandalismo de seus torcedores no jogo contra o Espérance, suspenso aos 70 minutos, a Confederação Africana de Futebol optou pela exclusão do clube tunisiano e apagou seus resultados com efeito imediato. Sendo assim, Espérance e Sunshine Stars, agora com seis pontos cada, já estão classificados no Grupo A.
– A notícia mais estúpida do futebol africano na semana: Mahmoud Alaa, zagueiro titular nas Olimpíadas com o Egito, foi dispensado de seu clube, o Haras El Hodood. Até aí, tudo bem. O motivo? Não quis cortar o cabelo. Isso mesmo, amigos. O defensor foi dispensado porque tem cabelo grande.
– Alaa estava à espera de propostas de clubes como Everton e Braga quando, na última quarta-feira, Helmi Toulan, novo técnico do El Hodood, exigiu que o atleta raspasse o cabelo. Diante da recusa, acreditem, o jogador passou a ser multado em 500 euros por dia e foi ordenado a treinar com a equipe juvenil. O próprio Alaa solicitou a dispensa. Certamente, Neymar não seria bem vindo no clube.
– A convocação da República Democrática do Congo para o duelo contra Guiné-Equatorial também reservou surpresas para a promissora seleção comandada por Claude Le Roy: Mvuemba (Lorient), Kembo Ekoko (Rennes) e Makengo (Auxerre), todos com passagem pelas seleções de base da França, farão suas estreias com a seleção de seus ascendentes. A perspectiva é ótima.
– Henri Michel foi confirmado como o novo treinador do Quênia. Após fracassar no comando de Guiné-Equatorial em 2011, o francês terá muito trabalho com uma seleção que vive carência de bons jogadores, já está fora das eliminatórias para a CAN 2013 e não tem perspectiva alguma de chegar à Copa. Em que pese o apoio da federação, a pressão dos torcedores será enorme.
– Patrice Carteron, treinador de Mali, viajou para a França para persuadir o meia-atacante Bakary Sako, do Saint-Etienne, a defender a seleção africana. Filho de pais malineses, Sako nasceu na França e já jogou pela seleção sub-21 dos Bleus, mas pode ser naturalizado. Jogador e técnico tiveram uma longa conversa, mas Carteron decidiu não revelar nada.
– Passadas duas rodadas do Campeonato Sul-Africano, apenas Kaizer Chiefs e Free State Stars possuem 100% de aproveitamento. O Chiefs, líder pelo saldo de gols, mostrou força ao vencer o Sundowns por 2 a 1. O Orlando Pirates, atual bicampeão, empatou com o SuperSport United fora de casa sem gols.
– Falando em futebol sul-africano, SuperSport United e Moroka Swallows garantiram-se na final da MTN 8. O SuperSport, sem dó nem piedade, surpreendeu ao golear o atual campeão, Orlando Pirates, fora de casa por 3 a 0. Já o Swallows, após um 3 a 3 na ida, venceu o Mamelodi Sundowns por 3 a 2.
– Faltando cinco rodadas para o fim, o Bizertin é o novo líder da Ligue 1 tunisiana. Após oito semanas com o campeonato paralisado, a equipe venceu o Monastir por 2 a 0 e contou com um inesperado tropeço do Espérance, derrotado pelo Olympique de Béja, 10º colocado, por 3 a 1. Bizertin e Espérance somam 57 pontos.
– Numa rodada com cinco empates em oito jogos no Girabola, o grande “vencedor” da rodada foi o Primeiro de Agosto. O time da capital Luanda venceu o Santos por 2 a 0 e diminuiu a diferença pro líder Recreativo do Libolo (há 23 jogos invicto), que empatou sem gols com o Recreativo da Caála, para nove pontos. O Kabuscorp, de Rivaldo, não passou de um 0 a 0 com o Benfica de Luanda e segue em 3º.
– O Séwé Sport, da cidade de San Pédro, fez história ao conquistar o Campeonato Marfinense de forma inédita. Em confronto direto com o ASEC Mimosas, a equipe empatou em 1 a 1 com um gol de pênalti marcado nos acréscimos.
– Este resultado marcou o fim de uma hegemonia. Nas últimas 27 temporadas, apenas duas equipes “revezaram” os títulos nacionais: o próprio ASEC e o Africa Sports. E desde 1976, quando o Gagnoa foi campeão, uma equipe fora da capital Abidjan não ficava com o trofeu.
– Parabens ainda para o Horoya, que sagrou-se bicampeão nacional consecutivo em Guiné. O clube da capital Conacri conquistou seu 12º título e disputará a Liga dos Campeões Africana em 2013, tal como o Séwé. Na última rodada, a equipe goleou o Satellite FC por 4 a 1.



