Gana supera Angola e suas “armadilhas”

Gana esteve longe de empolgar na primeira fase. Não teve chance contra Costa do Marfim e conquistou uma vitória simples diante de Burkina Faso. No domingo, a seleção comandada por Milovan Rajevac fez sua melhor partida na Copa Africana de Nações e eliminou Angola ao vencer por 1 a 0. Um confronto recheado de detalhes interessantes que explicam por que os ganenses mostram hoje uma base formada por campeões mundiais sub-20 e ainda como reagiram na competição.
Não é exagero dizer que tudo passa pelos Palancas Negras. Em novembro do ano passado, as duas equipes disputaram um amistoso que ficou marcado pelas ausências de Asamoah Gyan, Michael Essien e Sulley Muntari. Convocados, eles não se apresentaram e foram fortemente criticados no país. Como punição, os dirigentes decidiram multá-los e obrigá-los a se desculparem. Gyan e Essien fizeram o que foi pedido, mas Muntari, não, resultando em sua exclusão do elenco.
Com a abertura de um espaço no meio-de-campo, somada ao desfalque de Stephen Appiah, mais uma vez contundido, o técnico Rajevac pôde, então, aproveitar os juniores. Na fase de grupos, a exemplo do que aconteceu no domingo, Samuel Inkoom, Lee Addy, Dede Ayew e Emmanuel Agyemang-Badu estiveram todos em campo. Além deles, revelações como Isaac Vorsah e Kwadwo Asamoah também receberam oportunidades.
Asamoah, aliás, é um caso à parte. Com 21 anos, o jogador da Udinese já faz por merecer um apelido que faça jus à maturidade de seu futebol, comparado ao de Essien, o Bisão, e Appiah, o Tornado. Marca com eficiência, sobe bem ao ataque, possui bom passe e chuta com força com a perna esquerda. É um meio-campista praticamente completo que não demorará a deixar Friuli e se transferir para um clube maior. A Juventus estaria interessada em sua contratação.
Se com o amistoso os garotos ganenses ganharam a confiança de Rajevac, novamente num episódio envolvendo Angola eles encontraram o estímulo que parecia estar faltando no campeonato. Primeiro, um torcedor do país foi espancado por policiais angolanos durante o confronto com Burkina Faso, sob a alegação de que estava praticando magia negra. A acusação é negada e ele se encontra agora internado num hospital.
Por fim, mais um caso de violência, dessa vez com um jornalista do país, que, mesmo credenciado, não teve a sua entrada para uma coletiva permitida e foi agredido pelos seguranças do local. Uma possível tentativa de intimidação por parte dos angolanos? O treinador Manuel José devolve a pergunta com outra: “vocês acham que eu estou por trás disso?”. Acredito que não, mas não se pode ignorar que na raiz desses episódios pode estar o impulso que faltava a Gana para apostar nessa geração e partir em busca do pentacampeonato da CAN.
Mais duas vítimas
Gana não foi a única seleção a suspeitar de um possível favorecimento a Angola na Copa Africana de Nações. Mali e Malaui, adversários do país na primeira fase, também fizeram críticas à organização, que, inconscientemente ou não, prejudicou a preparação da dupla para os jogos contra os donos da casa. Quatro dos cinco pontos angolanos foram somados nessas partidas.
No confronto que abriu o campeonato, Mali não pôde fazer o treino de reconhecimento no estádio. Uma situação que surpreendeu os atletas da equipe, mas que não causaria nenhuma estranheza se por outro lado os Palancas Negras tivessem recebido o mesmo tratamento. Não foi o que acabou acontecendo e o resultado foi um time perdido no primeiro tempo.
Malaui sofreu ainda mais com a falta de critério dos dirigentes angolanos. Na véspera da partida contra os anfitriões, pela segunda rodada, a equipe, que, em sua estreia, surpreendeu ao vencer a Argélia por 3 a 0, não pôde fazer seu treino devido à falta de um campo disponível. Na última de suas três investidas atrás de um local, receberam a sugestão para se dirigir até onde Angola fazia suas atividades.
Ao chegar no lugar, após mais de quatro horas presos no engarrafamento, os malauianos aguardaram até que Manuel José e seus comandados deixassem o gramado para só então receberem a notícia de que não poderiam treinar. A comissão técnica e os jogadores do país foram convidados a se retirar de campo por policiais e nada puderam fazer para demover as autoridades da ideia.
A força dos mundialistas
Ao fim da primeira rodada, nenhum dos classificados para o Mundial havia vencido na Copa Africana de Nações – em virtude da desistência de Togo, Gana não jogou. A impressão que se tinha era a de que ao menos uma das seleções poderia se despedir precocemente da competição. Uma sensação reforçada pela forma com que a Argélia, por exemplo, tratou o campeonato, como uma mera obrigação imposta pelo calendário, após a ressaca pela campanha nas Eliminatórias.
No final das contas, no entanto, os cincos países confirmaram o favoritismo e avançaram para os mata matas. Além de Gana, a Argélia foi outra a sobreviver às quartas de final. Costa do Marfim, por outro lado, não fez por merecer a sua condição de principal candidata ao título e, contra as Raposas do Deserto, mostrou pouca inspiração, sucumbindo possivelmente à sua falta de ritmo, já que, por conta das mudanças que atingiram sua chave, ficou oito dias sem atuar.
Os Elefantes se despedem de Angola mais uma vez sem mostrar por que são tão badalados no continente. Ninguém em sã consciência pode questionar a qualidade de seu elenco, muito superior aos demais e que, nesta CAN, apresentou como novidade o lateral esquerdo Siaka Tiéné. Ainda assim, parece faltar à equipe de Vahid Halilhodzic maior conjunto, uma dificuldade comum a seleções com muitas estrelas e que aparentemente afeta os marfinenses.
Egito e Camarões, por sua vez, fizeram uma partida mais equilibrada do que se esperava. Os egípcios são mais talentosos, não há dúvida. Mantêm a mesma dinâmica de jogo dos últimos anos. Seguem com os contra-ataques mortais. Mas o técnico Hassan Shehata não possui, nesta edição, um jogador com as características de Mohamed Aboutrika. Shikabala poderia ser esse nome, se não fosse preterido entre os titulares e relegado ao banco de reservas.
Até por conta do menor brilho dos Faraós nesta edição, Camarões conseguiu ser superior durante boa parte do confronto. Mas não venceu. O técnico Paul Le Guen faz, de fato, um trabalho excepcional com o país, porém, não é capaz de milagres. Sem um meio-campista criativo, os Leões Indomáveis, assim como a Nigéria, que encontrou dificuldades para superar a limitada Zâmbia, continuarão com apresentações medíocres que lhe restringirão ao papel de meros coadjuvantes na África do Sul.
Rivalidade em campo
Camarões e Egito já foi um jogo com clima de revanche. Nigéria e Zâmbia também. De qualquer forma, nada que possa ser comparado ao que deveremos acompanhar nesta quinta-feira, com as semifinais da Copa Africana de Nações. Quis o destino que rivais históricos se encontrassem em cada uma das partidas. Argélia e Egito agitarão o Norte do continente, com a promessa de invasão de torcedores em Angola – o governo argelino já teria, inclusive, reservado voos. Na parte Oeste, Nigéria e Gana, em momentos diferentes, medirão forças. Palpites?
Complexo de inferioridade, enfim, superado?
Milovan Rajevac de um lado. Shaibu Amodu, Hassan Shehata e Rabah Saadane do outro. Os quatro técnicos que conduziram suas seleções até as semifinais da competição. Um estrangeiro e três africanos. Será que agora os dirigentes, enfim, enxergarão que nem sempre os treinadores que vêm de fora são melhores que os locais? Está mais do que na hora de entender isso.



