Futebol respira

As notícias são contraditórias. Por um lado, dão nota de que o presidente egípcio, Hosni Mubarak, tenta ganhar tempo aumentando o salário dos servidores. Por outro, sugere o jornal alemão “Der Spiegel”, o ditador já estaria preparando a sua escapada, acertando o seu exílio na Alemanha sob o argumento de que deixaria o país para uma prolongada revisão médica.
Pois bem, qualquer que seja o caminho, findando ou não o período de 30 anos de Murabak à frente do governo egípcio, para sempre será lembrada a participação dos torcedores em todo o episódio. Por lá, já era conhecido, o futebol contava com essa força. Hoje, porém, o mundo inteiro tem conhecimento dela. Líder dos chamados Ultras, uma das mais organizadas e violentas torcidas do continente, Assad definiu bem do que se trata a mobilização dos grupos nos protestos. “O futebol é maior que a política. É sobre escapismo”.
Eles se definem como apolíticos, mas se tiverem que lutar contra aquilo que julgarem estar errado, lutarão. Passa por aí também a entrada dos torcedores no movimento para a queda de Mubarak. Trata-se de uma força respeitada pelo ditador. Não só por ele, como também por seus colegas vizinhos, como demonstraram as decisões de Argélia e Líbia de interromperem seus campeonatos receosos por manifestações políticas nos gramados. Entre os dias 12 e 17, já estão agendadas passeatas anti-governo em ambos os países.
Os egípcios não fugiram à regra. No dia 24 de janeiro, a federação local anunciou a suspensão dos jogos por tempo indeterminado, enviando militares para interromperem os treinos de cada uma das equipes. Em relato a jornais locais, o búlgaro Stoycho Mladenov, técnico do ENPPI, contou como tudo aconteceu.
Foi mais um a ser enviado para casa. Mais ou menos o mesmo caminho seguido por todos os estrangeiros. O português Manuel José e a sua comissão técnica formada por compatriotas tomaram a mesma rota. A volta deles ao Egito era esperada para a segunda-feira, mas foi adiada para esta quarta, segundo o diretor do Al Ahly, Sayed Abdel-Hafiz. O técnico afirmou ao jornal português “Record” que ainda não sabe bem como as coisas serão encaminhadas.
Há no país uma tentativa de se mostrar que tudo está voltando ao normal. Surpreende, no entanto, que ela tenha sido endossada pelos rivais do Ahly, o Zamalek, que costumavam fazer oposição a Mubarak. O mesmo dirigente que, no ano passado, comentou que o Zamalek era enxergado como inimigo pela federação e pelo governo e que o clube expressava a revolta das pessoas contra o sistema, mudou por completo a sua postura ao sinalizar que a equipe vinha treinando normalmente para o confronto de volta contra o Ulizi Stars, de Quênia, pela Liga dos Campeões.
“Assim que voltamos do jogo fora de casa, retomamos os treinos. Tivemos apenas dois de folga. A maioria dos funcionários está comparecendo normalmente, somente alguns que moram fora do Cairo estão encontrando alguma dificuldade para chegar até aqui. Nós, inclusive, pretendemos multar jogadores que não mantenham a disciplina. Estamos planejando amistosos para em breve. O campeonato precisa retornar o mais rápido possível porque o esporte é a prova de que nosso país é forte e retornou à vida normal”, afirmou o diretor do Zamalek, Hassan Ibrahim, em entrevista ao veículo do governo, Al Ahram Online.
Posteriormente, ele ainda acrescentou que os militares se ofereceram para abrigar o jogo de volta contra o Ulizi Stars no estádio da corporação. O confronto estava marcado para 13 de fevereiro e foi transferido para 25 pela Confederação Africana de Futebol, em uma das muitas mostras de como os protestos atingiram a modalidade no país.
Além de Al Ahly e Zamalek, outros clubes já se manifestaram sobre uma possível volta às atividades. O técnico do Alexandria, Mohamed Amer, acredita que tudo seria ainda precoce demais. “Meus atletas perderam algumas noites guardando suas casas, estão exaustos”. Farouk Gaafard, do Talae El-Gaish, sugeriu até mesmo uma solução para que os times recuperem o ritmo de partida. “Talvez precisássemos de um torneio amistoso para recuperar a forma”. E não para por aí.
A seleção egípcia, como já era de se esperar, também acabou abalada pelos conflitos nas ruas. O preparador de goleiros da equipe, Ahmed Soliman, revelou que nenhum amistoso será marcado para substituir o jogo adiado contra os Estados Unidos. O profissional teme pelo confronto contra a África do Sul, em 25 de março, pelas Eliminatórias da Copa Africana de Nações. O Egito não faz boa campanha até aqui – em dois jogos, um empate e uma derrota. A preocupação da comissão técnica é reforçada pelo auxiliar Hamada Sedki . “Nosso elenco é formado basicamente por jogadores locais, que hoje se encontram parados e naturalmente fora de forma. Vamos precisar de mais tempo para deixá-los prontos para atuar”.
O último compromisso dos Faraós foi a Copa Nile Basin, disputada em janeiro e bancada pelo Ministro do Petróleo como uma forma de reforçar os laços com os países vizinhos. Mesmo aí a crise dos egípcios respingou sobre seus colegas, com países como Quênia, Uganda e Congo reclamando por ainda não terem recebido suas premiações – a serem aplicadas em suas preparações para as Eliminatórias.
Seja com jogadores históricos como Hossam Hassan e Mido ou com o goleiro Nader el-Sayed caminhando nas ruas, o futebol se envolve de corpo e alma na vida política egípcia.



