África

Futebol e Islamismo

Blatter não havia bem oficializado a sua candidatura – algo feito nesta semana, embora já se soubesse do seu desejo por mais uma reeleição. Os dirigentes da Somália, porém, deixavam claro, antes mesmo dos protocolos, que votariam no suíço em junho, na briga pela presidência da Fifa. Nenhuma surpresa aí, disseram. Nada mais conveniente, completaram.

Não é segredo, a fama do cartola não é das melhores. Os somalianos vão pelo caminho. Segundo órgãos de transparência internacional, estão entre os mais corruptos do mundo. No que diz respeito ao futebol, inclusive, volta e meia se veem ameaçados por alguma punição, suspensão da Fifa. Algo que não atrapalha a relação entre as partes. Alguém há de afirmar, pela semelhança de caráter. Pode até ser. Mas há mais a se considerar aí.

O trabalho que a entidade máxima do futebol faz na Somália é um deles. Se há algo pelo qual a Fifa, Joseph Blatter são merecedores de elogio é pelo esforço que empreendem por lá. Natural que se encare tal constatação com reserva. Nesse caso, no entanto, pode deixá-la de lado, se desarmar. De predominância islâmica, os africanos se encontram em meio a uma guerra entre forças aliadas que tentam restabelecer a paz por suas ruas e o Al Shabab, grupo terrorista islâmico.

Para resumir a situação, como definiu o colega James M. Dorsey, é como se nesse jogo entre o futebol e o Islamismo, a Somália representasse o campo e os garotos a bola. Não entendeu? Pois bem, entre aqueles que lutam ao lado dos parceiros da Al-Qaeda, o esporte é considerado uma atividade pagã. Nas áreas dominadas pela milícia, a sua prática é proibida – essa e outras coisas, aliás. Durante a última Copa, duas pessoas foram mortas e outras dezenas feridas ao serem flagradas assistindo a partida entre a Alemanha e Austrália. Segundo dizem, trata-se de uma forma de distraí-las de seu objetivo principal. O tal jihad (algo como luta pela fé).

Semana passada, o Sheikh Hassan Dahir Aweys, líder do Al Shabab, pôs mais lenha na fogueira ao comentar a morte de um garoto de 13 anos. “Essas crianças estão prontas para morrer por seu país, sua religião. Esse mesmo garoto afirmou antes de falecer que o Jihad é lindo”.

É contra casos como esse que Fifa e dirigentes somalianos lutam. A matemática é simples. Cada criança, garoto que é desarmado, tirado da guerra tem como saída o futebol. Não surpreende, portanto, que o futebol seja visto como ameaça por terroristas. Na campanha empreendida pelas autoridades da bola, é esse, inclusive, o mote. O slogan deixa claro: “put the gun down, pick up the ball”.

Há alguns exemplos de sucesso nessa batalha. Mahad Mohamed, que abandonou o Al Shabab após entrar no grupo aos 11 anos, já carregou a braçadeira de capitão da seleção sub-17 e tem suas atuações na zaga elogiadas. Outros ainda estão por vir. Apesar das ameaças, os dirigentes somalis mantêm centros de treinamentos visitados regularmente pelo técnico do time principal, Mohamed Abdulle Farayare, que vem atrás de novos talentos para a sua equipe.

Abdi Salaan Mohamed Ali é um dos que foi descoberto ali. Carregava a esperança de todo o país. Craque dos juniores, tinha os profissionais como destino. Não fosse, claro, por um ataque a bomba que levou a sua vida e ainda feriu outros dois companheiros que também voltavam de um treino. Mais uma mostra de que essa guerra no “lugar mais complicado do mundo”, como cantou o rapper Kna’an em show na abertura da última Copa, está longe do fim. Seja ao lado de Blatter – como pregam os cartolas, ou de qualquer outro dirigente, ela tem que continuar. Há muitas armas a serem abaixadas e bolas a serem chutadas.

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Equipe Trivela

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