Como cada vez mais atletas com dupla nacionalidade escolhem seleções africanas em vez de europeias
Tendência reflete reequilíbrio sutil, mas profundo, na atratividade das seleções do Continente Mãe
O tom foi firme, quase ameaçador. No início de março, Vincent Mannaert, diretor técnico da Bélgica, reagiu com irritação à decisão de Chemsdine Talbi, jovem promessa do Club Brugge, de escolher o Marrocos em vez dos Diabos Vermelhos. O ponta de 20 anos, nascido na Valônia, a quase 90 km da capital Bruxelas, fez toda sua formação nas categorias de base da Bélgica (sub-15, sub-17, sub-18).
— Eles nascem aqui, os clubes investem tempo e energia. Se não quiserem escolher a Bélgica, é um direito deles — mas que digam isso claramente –, desabafou o dirigente, referindo-se também à perda de outros talentos como Matias Fernandez-Pardo (Espanha), Konstantinos Karetsas (Grécia) e Ilay Camara, ex-sub-21 que optou pelo Senegal.
A Copa Africana de 2023 revela a dimensão do fenômeno
Embora parte dessas decisões se explique pela queda de prestígio recente da Bélgica, o que salta aos olhos é um fenômeno mais amplo: um reequilíbrio na disputa entre seleções europeias e africanas pelos talentos com dupla nacionalidade.
Durante muito tempo, o país de origem era visto como “plano B”. Hoje, ele se tornou uma escolha prioritária, feita cada vez mais cedo, sem as longas hesitações do passado. Há inúmeros exemplos.
Argélia:
- Rayan Aït-Nouri (França)
- Amine Gouiri (França)
- Ibrahim Maza (Alemanha)
Marrocos:
- Eliesse Ben Seghir (nascido na França)
- Amine Adli (França)
- Osame Sahraoui (Noruega)
- Illias Akhomach (Espanha)
- Chadi Riad (Espanha)
República Democrática do Congo:
- Ngal’ayel Mukau (Bélgica)
- Noah Sadiki (Bélgica)
Senegal
- Pape Gueye (França)
Tunísia:
- Hannibal Mejbri (França)
A última Copa Africana de Nações, disputada na Costa do Marfim, ilustra essa virada.
O número impressiona: 200 dos 630 jogadores convocados nasceram fora da África — quase um terço. Apenas África do Sul, Namíbia e Egito não contavam com atletas nascidos no exterior.
Essa virada começou com a estratégia estruturada implementada no final dos anos 2000 pela Federação Marroquina de Futebol (FRMF). Nasser Larguet, ex-diretor técnico nacional entre 2014 e 2019), foi um dos principais responsáveis por essa mudança.
— Quando cheguei, percebi que abordávamos os jogadores com dupla nacionalidade tarde demais, geralmente aos 20 anos, quando a escolha já havia sido feita. Era preciso agir antes. Criamos uma rede para identificar e convencer os talentos desde os 13 ou 14 anos, apresentando um projeto claro e ambicioso antes que as seleções europeias se interessassem por eles –, contou o ex-treinador do Olympique de Marseille, atualmente diretor técnico da Federação Saudita de Futebol, ao site “Afrik-Foot”.
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‘O desempenho no Catar mudou a percepção‘

Para encontrar os futuros atletas do Marrocos, Larguet implementou um sistema preciso: um olheiro na França, um nos Países Baixos, um na Bélgica e outro cobrindo Alemanha, Espanha e Itália. Uma rede internacional pensada para convencer os jogadores elegíveis pelo Marrocos o quanto antes.
— Não se tratava apenas de apelar ao vínculo afetivo com as origens familiares, mas também de oferecer um projeto esportivo sólido. Mostrávamos às famílias que escolher o Marrocos podia ser ao mesmo tempo uma decisão do coração e da razão –, explica Nasser Larguet.
Um jogador simboliza o sucesso dessa estratégia: Achraf Hakimi, nascido na capital espanhola e formado pelo Real Madrid. Abordado ainda muito jovem pela seleção marroquina, o lateral-direito escolheu defender os Leões do Atlas em vez da Espanha. “A escolha dele inspirou muitos jovens, pois mostrou que é possível crescer esportivamente com o Marrocos e chegar ao topo”, destaca Larguet.
A qualidade da infraestrutura esportiva no país, como o Complexo Mohammed VI, e a campanha até a semifinal da Copa do Mundo de 2022 deram um impulso decisivo a essa dinâmica. “O desempenho no Catar mudou a percepção: o Marrocos agora é visto como uma nação capaz de competir com as melhores”, completa ele. Um progresso que o país espera confirmar ao coorganizar, ao lado de Espanha e Portugal, a Copa do Mundo de 2030.
‘É preciso ter um projeto esportivo claro‘
Se antes o receio de desvalorização e de prejuízos financeiros dificultava a escolha pela seleção de origem, esse cenário mudou nos últimos anos.
A Argélia também observa uma mudança nessa percepção. “Antes, era uma escolha por exclusão, quando a porta da seleção francesa se fechava. Desde a CAN de 2019, a escolha pela Argélia passou a ser mais assumida. Mas, para convencer de forma duradoura, é necessário apresentar um projeto esportivo claro”, avalia Mohamed Touileb, jornalista especializado, citando o papel de Himour Mohssen, olheiro oficial responsável por identificar esses jogadores na Europa.
09 joueurs algériens à l'étranger rejoignent la sélection Algérienne U17 🇩🇿 https://t.co/m5EZpTBMXf pic.twitter.com/VfdyZDBkTo
— Himour Mohssen (@mohssenpatriota) June 9, 2025
Esse ponto do projeto esportivo é fundamental. “Muitos jovens e suas famílias entendem hoje que, com o aumento no número de vagas africanas para a Copa do Mundo de 2026, a chance de disputar o torneio se torna muito mais realista por uma seleção africana do que por uma potência europeia. Isso muda tudo”, destaca Bassirou Sakho, agente afiliado à Federação Inglesa. “E não se deve pensar que jogar por uma seleção africana não traz retorno financeiro. Assim que um jogador tem status internacional, seu valor de mercado aumenta.”
Mas os grandes talentos ainda optam pela Europa

Mas esse movimento não é uniforme nem irreversível. Lamine Yamal, grande promessa do futebol mundial, optou pela Espanha apesar do forte interesse do Marrocos. Rayan Cherki, mesmo diante do desejo declarado da Argélia em tê-lo, confirmou sua escolha pela França ao disputar uma competição oficial com os Bleus. O mesmo vale para Désiré Doué, que também escolheu a seleção francesa (enquanto seu irmão, Guéla Doué, defende a Costa do Marfim), assim como outros jogadores europeus de origem africana.
— É preciso entender que, para os grandes talentos, quando há perspectivas esportivas sólidas com uma seleção como a França ou a Espanha, a escolha tende a ser europeia –, pondera Bassirou Sakho.
Islam Slimani, maior artilheiro da história dos Fennecs, recentemente gerou debate ao afirmar que não se deveria falar em “escolha” no caso da Argélia, pois “não se escolhe as próprias origens”.
Resta saber agora qual será a decisão de jovens talentos como Ayyoub Bouaddi (17 anos) e Maghnes Akliouche (23), duas grandes promessas nascidas na França e cobiçadas, respectivamente, por Marrocos e Argélia: seguirão os passos de seus antepassados ou continuarão a sonhar com a camisa azul?

Esse artigo foi publicado originalmente no “Afrik Foot”, parceiro da Trivela no continente africano.



