Africa

Fenômeno controverso

Stephen Keshi, treinador da Nigéria, reacendeu uma enorme polêmica durante esta semana. Não, desta vez não é nada relacionado a algum jogador da sua equipe. Às vésperas de mais uma edição da Copa Africana de Nações, o nigeriano criticou duramente o trabalho de técnicos estrangeiros nas seleções africanas. Segundo ele, os “caras brancos” (em referência aos europeus) rumam para a África apenas para ganhar dinheiro. Ele também critica o tratamento diferenciado das federações com treinadores locais e estrangeiros – segundo ele, os expatriados recebem mais tempo para se adaptar desenvolver seu trabalho – e afirma que isso está aniquilando o futebol africano.

Em meio a essas polêmicas declarações, Keshi fez questão de se defender de qualquer acusação de racismo. O tema não é nenhuma novidade, claro. Outras lendas do futebol africano, como George Weah e Roger Milla, já se posicionaram de forma parecida. No entanto, estamos a poucos dias do início da principal competição de seleções da África. Nesta edição, nove das 16 equipes participantes serão comandadas por técnicos estrangeiros. A grande questão é: a presença de treinadores europeus ou das Américas se faz realmente necessária no futebol africano?

Analisando a história da CAN, treinadores estrangeiros triunfaram em 15 das 28 edições já disputadas até aqui. O atual campeão, inclusive, é um francês: Hervé Renard, que conseguiu dar um título inédito para a seleção de Zâmbia. Das 34 vezes que seleções africanas figuraram em uma Copa do Mundo desde 1974, 24 delas foram comandadas por expatriados (um total de 70%). Muitos atribuem a “aversão” dos africanos a treinadores estrangeiros ao legado colonial no continente, ou seja, a ideia de um europeu no comando, o que desperta um desejo de reverter esse quadro.

Na última Copa do Mundo, a chamada “Copa da África”, apenas um treinador era africano: Rabah Saadane, da Argélia. A história comprova que um técnico expatriado nunca conseguiu conquistar um Mundial, mas também mostra que nenhum treinador africano conseguiu ao menos passar da fase de grupos com sua seleção. Os países do Norte da África costumam ser mais “fieis” aos profissionais da casa do que os subsaarianos. Prova disso é que a primeira vez que uma seleção da África subsaariana foi para a Copa com um treinador local foi em 2002 (Festus Onigbinde na Nigéria e Jomo Sono na África do Sul). Na próxima CAN, seleções do Norte como Marrocos e Tunísia serão dirigidas por técnicos locais.

O último treinador africano de sucesso a nível continental foi Hassan Shehata, tricampeão da CAN com o Egito em 2006, 2008 e 2010. Muitos treinadores africanos costumam ter sucesso na base, como foi o caso do ganês Sellas Tetteh, campeão do Mundial Sub-20 com os Estrelas Negras. Pouco depois, ele assumiu o comando de Ruanda, mas não teve sucesso. E o que dizer de Jean Paul Akono, campeão olímpico sob o comando de Camarões em 2000? Ele é o atual técnico da seleção principal camaronesa, mas vem sendo motivo de chacota por convocações que beiram o absurdo.

Aliás, Camarões, que está fora da CAN, é uma das seleções que vem tendo péssimas experiências com técnicos estrangeiros – Javier Clemente, Paul Le Guen, Denis Lavagne, etc. No entanto, isso também passa pela desorganização das federações, imediatistas de natureza e que contratam sem qualquer planejamento. Os camaroneses tiveram dez treinadores diferentes na última década. A África do Sul, desde que foi readmitida ao futebol, em 1993, teve VINTE treinadores.

Também é inegável que profissionais vindos de outros países são muito mais valorizados financeiramente do que os africanos. Henri Michel, que teve passagem relâmpago pelo Quênia, é um exemplo. Mesmo sem emplacar um bom trabalho há um bom tempo, o francês inexplicavelmente recebia o maior salário entre todos os treinadores de seleções africanas. Já outros, como Bobby Williamson, escocês que atualmente dirige Uganda, desmentem o rótulo de “mercenários”. São profissionais que estão em busca de uma nova experiência profissional, e mesmo diante de problemas como a falta de estrutura e os salários atrasados, não abandonam o barco.

Alguns argumentos utilizados contra a presença de treinadores estrangeiros na África são relativos. Muitos afirmam que os europeus não assimilam a cultura e a mentalidade dos jogadores. No entanto, ao menos considerando as grandes seleções, praticamente todos os atletas já atuam na Europa. Outros afirmam que os técnicos vindos de fora estão minando a tradição do futebol africano, baseado na técnica e no talento, transformando-o em um futebol pragmático. Não é bem assim. Para atingir um futebol realmente competitivo, o futebol africano precisa absorver novos conceitos. E essa evolução (ainda que muitos não enxerguem dessa forma) já é observada.

Outro argumento contra os expatriados é o de que eles não estão preocupados em desenvolver o futebol onde trabalham. Isto é, continuam morando em sua terra natal, desembarcam apenas para treinar a seleção para determinado jogo, não garimpam jovens talentos no país. Em outras palavras, vivem uma realidade completamente diferente do povo africano.

No entanto, há casos e casos. Bob Bradley, norte-americano que atualmente treina o Egito, talvez seja o principal exemplo de como se envolver com a cultura de um país. Ele se mudou para Zamalek, um distrito de Cairo, com sua esposa, sem temer qualquer turbulência política. Frequenta restaurantes, um mercado no bairro e um hospital infantil numa área pobre de Cairo. Mantém contato com o povo. Em uma atitude inesquecível, participou de uma marcha em memória aos mártires de Port Said na Praça Tahrir. Ainda que os egípcios desaprovem a política dos Estados Unidos, Bradley possui uma enorme aceitação no país. É assim que se conquista respeito para implantar uma filosofia de trabalho.

Quando existe esse comprometimento, não há duvidas de que um trabalho de um estrangeiro é extremamente positivo. O que Renard vem fazendo em Zâmbia, por exemplo, é fantástico. Um profissional que traga novos conceitos, desde os mais simples – Bradley, por exemplo, certa vez deixou dirigentes egípcios boquiabertos ao fazer uma simples apresentação no PowerPoint numa entrevista. Um profissional determinado a superar a barreira da língua, que observe jogadores no continente. Existe espaço para todos, africanos (que, claro, precisam de mais valorização e respeito) ou expatriados. Com federações minimamente organizadas e que possibilitem trabalhos de longo prazo, os resultados tendem a aparecer. Isso não é questão de nacionalidade, mas sim de organização.

Curtas

– Andre Ayew está fora da CAN 2013. O meio-campista não se apresentou em Abu Dhabi, onde a seleção ganesa está concentrada, e foi cortado da convocação pelo técnico Kwesi Appiah.

– ‘Dede’ se recupera de uma lesão no tendão e Appiah exigiu que ele continuasse seu tratamento com os médicos da seleção. No entanto, Ayew se recusou e disse que só se apresentaria no dia 9 (quarta-feira), perdendo todas as sessões de treinamento, o que irritou o treinador ganês. Isso significa que a família Ayew não estará na CAN, já que seu irmão, Jordan, sequer foi chamado.

– Por outro lado, Adebayor voltou atrás e vai disputar a CAN 2013 com a seleção de Togo. Ele inclusive já viajou para Gana, onde o restante da equipe comandada por Didier Six irá se apresentar. No fim das contas, é uma grande notícia.

– Após a acusação de manipulação de resultados em amistosos da África do Sul pré-Copa de 2010, o presidente da Associação Sul-Africana de Futebol (Safa), Kirsten Nematandani, e outros quatro dirigentes já foram reintegrados aos seus cargos após um período de afastamento para investigações. No entanto, a Safa ainda continua em busca de mais esclarecimentos quanto ao episódio.

– Em amistoso disputado na Catalunha, a Nigéria empatou com a seleção local em 1 a 1. O atacante Bright Dike, que atua na MLS e vem sendo muito elogiado por Stephen Keshi, marcou o gol das Super Águias.

– E as chances de Dike figurar na CAN aumentam consideravelmente com o corte de Shola Ameobi da pré-convocação. O atacante do Newcastle não viajou com a seleção para Portugal e recusou-se a atender as ligações de Keshi. A Nigéria já havia perdido o zagueiro Danny Shittu, que assim como Ameobi, decidiu priorizar o seu clube e não disputar o torneio continental.

– Já em Doha, nos Emirados Árabes, Tunísia e Etiópia empataram em 1 a 1. As duas seleções estarão na CAN 2013. Darragi (pênalti) marcou para os tunisianos, enquanto o artilheiro Saladin Said fez o gol dos etíopes.

– Momo Sissoko, do PSG, é a grande novidade na pré-convocação de Mali para a CAN. Nos últimos anos, o volante ficou um bom tempo afastado da seleção nacional por conta de divergências com a federação.

– Pela quinta vez na história, o Campeonato Egípcio será disputado com equipes divididas em dois grupos. Através de um sorteio, foi definido que o Al Ahly estará no Grupo A, ao lado de ENPPI, Haras El-Hodood, Ghazl El-Mahalla, Beni Suef, Wadi Degla, El Makasa, Smouha e El Gouna.

– No Grupo B, destaque para Zamalek e Ismaily, que devem duelar pelo topo da chave. Completam o grupo El Dakhleya, Ittihad de Alexandria, El-Entag El-Harby, El-Shorta, Petrojet, El-Geish e Arab Contractors. O início da competição está marcado para 2 de fevereiro, sete dias antes do veredicto final sobre os acusados de participação no massacre em Port Said.

– O Al Ahly divulgou que suspenderá todas as suas atividades esportivas no dia 1 de fevereiro de cada ano. A data foi instituída como o “Dia dos Mártires” pelo conselho do clube, em memória das vítimas do massacre em Port Said.

– Sem o consentimento de seu clube, o Smouha (Egito), o atacante Samuel Affum foi apresentado como novo reforço do Young Boys, da Suíça. No entanto, a equipe de Alexandria acusa o ganês de ter rescindido unilateralmente o seu contrato e aguarda uma proposta financeira maior (2 milhões de euros) para liberar o atleta. Trata-se de um dos jovens mais promissores do futebol egípcio.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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