África

Euforia nostálgica

O terceiro lugar na CAN 2012, melhor resultado continental de Mali em 40 anos, indicava um futuro promissor para as ‘Águias’. Impulsionadas pelo feito histórico, as promessas de reestruturação das seleções de base e de uma vaga na Copa de 2014, que seria inédita na história do futebol local, reaproximaram definitivamente a seleção nacional do povo malinês. Mas em pouco tempo, a euforia deu lugar ao medo e à incógnita. Nada relacionado a resultados ou qualquer outro fator dentro das quatro linhas. Muito, muito pior. Aliás, o panorama atual do país envolve questões muito mais prioritárias do que o futebol.

No último dia 22 de março, exatos 40 dias após a decisão do terceiro lugar da Copa Africana, dissidentes do Exército lideraram um golpe de estado que derrubou o regime do presidente malinês Amadou Toumani Traore. O país já vivia uma situação instável há algum tempo, com rebeldes tuaregues, que lutavam pela independência da região de Azawad, entrando em conflito com militares da capital Bamako. Seydou Keita, do Barcelona, provavelmente o jogador malinês mais influente da atualidade, já havia clamado pela paz e pela unidade nacional durante a CAN. Infelizmente, os pedidos do ídolo não foram atendidos.

Aproveitando-se da fragilidade política do país, rebeldes tuaregues e grupos terroristas tomaram o norte de Mali e declararam independência na última sexta-feira, dividindo o país em duas regiões: uma metade Norte, controlada pelos tuaregues, e outra ao sul, dominada pela junta militar. Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, Mali já foi exemplo de democracia no continente (o derrocado Traore, inclusive, é considerado o homem que resgatou os malineses da ditadura militar). O número de refugiados só aumenta e uma catástrofe humanitária já é realidade.

Os vizinhos da Costa do Marfim viveram uma crise política semelhante há pouco tempo, forçando a seleção nacional a mandar seus jogos longe de casa e suspendendo todas as atividades esportivas. O mesmo eventualmente deve acontecer com Mali. As ‘Águias’ tem um compromisso importante contra a Argélia pelas eliminatórias da Copa, em junho, mas os adversários já se mostraram temerosos em viajarem para o país. O mesmo dilema envolve os clubes malineses em competições continentais. O URA, de Uganda, que visitaria o Djoliba na capital malinesa, Bamako, recusou-se a disputar o confronto por razões de segurança.

A temporada do Campeonato Malinês caminha pelo mesmo destino da Premier League egípcia. Desde o golpe de estado, apenas três partidas oficiais foram disputadas no país, todas com um público inferior a 30 pessoas. Em declaração para a imprensa, Alain Giresse, treinador da seleção nacional, deu o tom de como foi a “semana do golpe”: com fronteiras e aeroportos fechados e tiroteios e saques por toda parte, o francês ficou trancado em sua casa por uma semana e se limitava a conversar ao telefone com sua família duas vezes por dia, antes de retornar ao país natal.

O caos está instalado. O país atualmente sequer conta com um Ministro dos Esportes e a Federação está sendo pressionada pela junta militar a oferecer garantias de segurança para os times visitantes. Nem mesmo Bamako, que já foi considerada um refúgio de tranquilidade, oferece condições de segurança para a realização de jogos. Mas independente da realização (ou não) dos jogos da seleção malinesa ou da continuidade da temporada do futebol local, o fato é que a euforia por conta da epopeia na CAN já virou nostalgia.

Curtas

– Nos jogos de volta da fase preliminar da Liga dos Campeões africana, o Espérance, com gols de Bouazzi, Msakni e Aouadhi, bateu o Brikama United (Gâmbia) por 3 a 1 e selou sua classificação. Outro tunisiano, o Etoile du Sahel, se classificou de forma heroica sobre o APR (Ruanda). Perdia por 2 a 1 até os 44 do segundo tempo, mas conseguiu a virada.

– Melhor time africano do fim de semana, o Mazembe não teve piedade do Power Dynamos, de Zâmbia, e goleou por 7 a 1. O capitão Mputu foi o destaque, com três gols. Kalaba, campeão da CAN 2012, também deixou o dele. O Al Ahly, do Egito, venceu o Ethiopian Coffee por 3 a 0 (dois de Aboutrika e outro do brasileiro Fábio Júnior) no dia do seu aniversário. O Zamalek perdeu para o Africa Sports (Costa do Marfim) por 2 a 1, mas avançou por ter vencido a partida de ida, em casa, por 1 a 0.

– Outro classificado foi o Al Hilal, do Sudão, que sapecou 5 a 1 no DFC, da República Centro-Africana. El Tahir e Sadomba, com dois gols cada, foram os destaques. Outro gigante sudanês, o Al Merreikh, fez 3 a 0 no FC Platinum (Zâmbia) e também avançou. O Maghreb de Fes, do Marrocos, bateu o Horoya por 3 a 0.

– Quem conseguiu uma reviravolta fantástica foi o Sunshine Stars, da Nigéria, que venceu o Recreativo do Libolo por 3 a 0 após ter perdido por 4 a 1 em Angola. O Raja Casablanca, do Marrocos, quase deu a mesma sorte. Venceu o Berekum Chelsea por 3 a 0, mas por ter perdido por 5 a 0 em Gana, foi eliminado.

– Confrontos definidos da segunda fase classificatória da LC: Al Hilal (Sudão) x ASO Chlef; Maghreb de Fes x Zamalek; Etoile du Sahel x AFAD Djekanou; Espérance x Dynamos (Zimbábue); Berekum Chelsea x Coton Sport; Mazembe x Al Merreikh.

– Pela primeira fase da Copa da Confederação Africana (a Liga Europa do continente), o Wydad Casablanca, atual vice-campeão continental, goleou o Invincible Eleven (Libéria) por 4 a 1 e se classificou. O ENPPI, do Egito, também fez 4 a 1. A vítima foi o LLB Academic, de Burundi. Outro que garantiu vaga foi o Black Leopards, da África do Sul, empatando em 2 a 2 com o Saint Eloi Lupopo (venceu por 4 a 2 na ida).

– Confrontos da segunda fase classificatória: ASEC Mimosas (Costa do Marfim) x CODM Meknes (Marrocos); Warri Wolves (Nigéria) x Black Leopards; Royal Leopards (Suazilândia) x Club Africain; Simba x Al-Ahli Shendi; Heartland (Nigéria) x AC Leopard (RD Congo); ENPPI x Olympique de Bamako (Mali); Wydad Casablanca x Gamtel FC (Gâmbia) ou AS Real Bamako (Mali); Inter Luanda x Amal Atbara (Sudão).

– Apesar dos bons resultados em competições continentais, os clubes egípcios vivem uma situação delicadíssima. Com o cancelamento da temporada da Premier League e a criação de um torneio amistoso ainda arquivada por falta de segurança, o futebol local vive um êxodo de jogadores.

– Sem condições para bancar salários de um plantel vasto, os clubes viraram presas fáceis para outros mercados. O Ghazl El Mahalla, por exemplo, já liberou 15 atletas. Alguns estrangeiros que atuam na liga, como o ótimo atacante ganês Samuel Affum, do Smouha, também manifestam interesse em fazer as malas.

– Adel Tarrabt pode se afastar da seleção marroquina enquanto Eric Gerets estiver no comando. Na última semana, o jogador admitiu que não se dá bem com o belga e que não recebeu o tempo que merece para brilhar na seleção. Pra finalizar, ainda deixou escapar que provavelmente recusaria uma convocação caso fosse chamado novamente por Gerets. “Se voltar a jogar pela seleção, será por amor à camisa e todo o povo marroquino”, disse.

– O Orlando Pirates é o “novo” líder do Campeonato Sul-Africano. Com um gol de Bester nos acréscimos, os comandados de Julio Cesar Leal venceram o Jomo Cosmos por 2 a 1 e ultrapassaram o Sundowns (46 a 43), que tem um jogo a menos. Após um fraco início de temporada e a eliminação na LC, os Buccaneers estão mais vivos do que nunca na briga pelo bicampeonato nacional.

– No Campeonato Ganês, o Asante Kotoko fez 3 a 1 no Wassaman United e segue líder isolado. Como o segundo colocado, Ashanti Gold, não jogou, o Hearts of Oak aproveitou para bater o Wa All Stars por 3 a 0 e assumir a liderança. Em Angola, o time de Rivaldo, o Kabuscorp, empatou com o Santos em 1 a 1 e está em 8º no Girabola.

– Há 78 anos, o Egito se convertia no primeiro país africano a se classificar para uma Copa do Mundo. Os faraós passaram pela Palestina e conquistaram o direito de jogar o Mundial de 1934, na Itália.

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Equipe Trivela

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