África

Étoile campeão

Nenhuma derrota. Nenhum gol sofrido. Esse era o retrospecto do Al Ahly em Cairo até a última sexta-feira. O Étoile du Sahel, porém, não tomou conhecimento desses números e, de uma só vez, os derrubou para conquistar, assim, o seu primeiro título da Liga dos Campeões. De quebra, ele ainda estragou os planos do clube egípcio de alcançar mais dois recordes na competição – o hexacampeonato e o terceiro título consecutivo.

Sem poder contar com dois de seus mais importantes jogadores – o capitão Seif Ghezal e Mehdi Meriah -, o treinador Bertrand Marchand escalou o Étoile no esquema 4-4-2, com Afouene Gharbi se aproximando da dupla de ataque formada por Gilson “Ja” Silva e Amine Chermiti. Embora desfalcado, e atuando fora de casa, o ESS adotou uma postura surpreendentemente ofensiva e não se acanhou diante dos 65.000 torcedores que foram ao Estádio Internacional do Cairo apoiar o Ahly.

Os avanços dos laterais Ben Frej e Ammar Jemal e a constante presença do meio-campista Mohamed Ali Nafkha mais à frente comprometeram a armação dos Vermelhos, que, por sua vez, reclamavam a suspensão, indevida, de Mohamed Barakat. Responsável por municiar Flávio e Moteab, Aboutrika esteve apagado, em virtude, sobretudo, da eficiente marcação do prodígio Moussa Narry.

Desse modo, optando pelos contra-ataques, o Étoile ameaçava a meta do arqueiro Al-Hadari. E, em três oportunidades, os tunisianos foram suficientemente competentes e sacramentaram a vitória por 3×1, que, depois do empate em 0x0 no confronto de ida, parecia impossível. Os atletas do clube de Sousse provaram que não, realizando uma das melhores finais de LC dos últimos tempos.

Uma pena, porém, que, durante as premiações, os torcedores do Ahly e, inclusive, alguns membros da imprensa envergonharam o país ao atirar objetos nos jogadores do Étoile e, até mesmo, no técnico Manuel José. Acima de tudo, um desrespeito com os campeões e com aquele que é o principal responsável pelo período mais vitorioso da história da equipe.

A base de Marchand

O treinador Bertrand Marchand chegou ao ESS há pouco mais de três meses, em substituição a Faouzi Benzarti, que, se sentindo desprestigiado, pediu demissão. O francês herdou uma base que, na temporada passada, havia conquistado a Copa CAF e que, com mais o título da Liga dos Campeões, confirmou o acerto do presidente Moez Driss na política escolhida para a formação do plantel.

Desde meados de 2006 no cargo, Driss sucedeu a Othman Jenayeh, que, durante sua administração, comandou o Étoile em diversas conquistas, mas fracassou na tentativa de ganhar a Liga dos Campeões em duas decisões – 2004 e 2005. Jogadores como Opara e Zouaghi não conseguiram o mesmo sucesso que garotos como Narry, Nafkha e Chermiti alcançaram. A ascensão dessas promessas é conseqüência da aposta de Driss no trabalho de base e garimpagem – em andamento, por sinal, face a contratação recente da revelação Sadick Adams, ex-Gana sub-17.

Com um elenco composto por variadas alternativas, competiu a Marchand, então, aproveitar essa versatilidade – e ele o fez como poucos. Possíveis mudanças na escalação não mais provocavam dificuldades em campo, o que demonstrava o amadurecimento do plantel. Ante esse crescimento técnico da equipe, ele definiu uma base, que, desde a temporada 2006-07, mantém um rendimento acima da média.

Mathlouthi, Ben Frej, Ghezal, Nafkha e Chermiti são considerados os principais pilares desse time. Juntos, eles formam uma base que, como comprovam os números e, sobretudo, as conquistas, se entende em campo. É claro que ela apresenta deficiências, como no setor de armação, em aberto desde a saída do habilidoso Yassine Chickhaoui para o FC Zurique.

Se essa estrutura for mantida, o que, convenhamos, demandará um extraordinário esforço, o Étoile pode herdar o reinado que, durante os últimos cinco anos, esteve sob posse do Ahly. Recursos para isso, a equipe mostrou que tem, pois, mesmo na ausência de titulares, os reservas entraram e corresponderam. Mantida a política de Driss e o trabalho de Marchand, paira a certeza de que mais títulos estarão a caminho de Sousse.

E agora, Ahly?

Então, quer dizer que começa o reinado do Étoile e se encerra o do Ahly? Imagina-se que sim, em decorrência de diversos fatores que depõem contra o atual campeão egípcio. É claro, porém, que não há como saber o que o futuro reserva para o clube. Jogadores e dinheiro para reverter esse quadro que, no momento, se apresenta desfavorável, a equipe possui. Restando, então, contornar as deficiências que essa até certo ponto esperada derrota deixou à mostra.

Durante o decorrer do ano, os leitores puderam acompanhar a diversos comentários acerca do rendimento dos Vermelhos não só na Liga dos Campeões, como também na Liga Egípcia. Não é segredo para ninguém que, apesar das vitórias, eles não estavam convencendo a seus torcedores. A explicação para isso, à primeira vista, respingava sobre a falta de descanso que acometeu o time nas últimas temporadas. Fruto de seu sucesso, claro, e de um calendário desorganizado.

Por mais consistente que seja esse argumento, faltou aos Vermelhos renovar o seu envelhecido elenco. É claro que a velha máxima de que “em time que está ganhando não se mexe” procede. No entanto, o Ahly pouco fez para se preparar para um período de transição, e, assim, peças que estão no clube desde o tricampeonato da LC, em 2001, passaram a não apresentar mais o mesmo desempenho de outrora e, também, não encontraram substitutos à altura entre os reservas.

A responsabilidade disso é do treinador Manuel José também. Ele não se atentou para esse detalhe e optou em se dedicar mais a manter a base que, sob o seu comando, conquistou quase tudo – no que ele, em parte, está certo. O criticado português possui contrato até a metade do próximo ano e precisa definir seu futuro. O relacionamento dele com a imprensa nunca foi dos melhores e as cenas da última sexta podem reforçar ainda mais as especulações em torno de sua saída.

Mohamed Shawky e Wael Gomaa são dois dos nomes que participaram dessa fase de conquistas e que já se transferiram para outros clubes. Esse caminho deve certamente ser seguido por outros como Gilberto, Flávio e Moteab. Representariam mudanças drásticas que a situação, diria, não pede. Não é o fim do mundo, claro. Nas próximas semanas, saberemos como o Ahly conduzirá todo esse processo.

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Equipe Trivela

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