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[Entrevista] Técnico brasileiro aponta problemas da África: estrutura e profissionalismo

Ano após a ano, a África exporta grandes jogadores para as melhores ligas do mundo. É inegável o talento dos atletas e a popularidade do futebol no continente. No entanto, alguns fatores tem prejudicado o surgimento de um novo Drogba, um novo Eto’o, um novo Yaya Touré. A falta de estrutura, investimento nas categorias de base, mentalidade dos dirigentes e problemas organizacionais tem feito o futebol africano não ser tudo o que pode ser. Além dessas dificuldades, para o treinador brasileiro Alexandre Grasseli, que comanda o Atlético Petróleos, de Luanda, falta mentalidade profissional.

Vivendo sua primeira experiência internacional justamente na África, Grasseli concedeu entrevista exclusiva à Trivela. No bate-papo, o treinador, que jogou futebol no Espírito Santo mas não chegou a se profissionalizar, e trabalhou como técnico das categorias de base de América-MG e Cruzeiro, além de auxiliar os comandantes dos times principais entre 2001 e 2013, falou sobre os problemas do futebol africano, como é o esporte no continente, seus objetivos na Angola e também contou histórias.

Confira a entrevista exclusiva de Alexandre Grasseli à Trivela:

Como surgiu a oportunidade de ir para o Atlético Petróleos?

Eu fiz a minha carreira dentro do Cruzeiro e conheci algumas pessoas que tem contato com o mercado internacional. Essas pessoas acharam interessante a minha forma de trabalho e aconteceu a proposta para eu vir para cá. Achei bacana e resolvi vir. Gostei do projeto do clube.

Quais os seus objetivos na África?

Em primeiro lugar, o meu objetivo pessoal e profissional é conquistar o título nacional. Tracei esse objetivo após ver o projeto do clube. Depois, vejo que hoje, o mercado do futebol está totalmente internacionalizado e aberto. Eu ainda não tinha tido experiência internacional. Esse momento para mim também é para viver isso e fazer contatos. Posso aumentar muito o meu leque de contatos, com pessoas de Portugal e outros países. O futebol angolano e africano está evoluindo muito e acho que posso contribuir trazendo um pouco da escola brasileira.

Qual o seu sonho como treinador?

Seguir a trajetória de outros grandes treinadores e fazer história. Quero fazer um bom trabalho aqui e trabalhar no futebol profissional no Brasil. Também quero fazer contatos, o que acontece muito aqui, e abrir portas na Europa.

Quem é o seu espelho?

Tenho muito contato com o Ney [Franco]. É um técnico e pessoa excepcional, que eu respeito muito e tenho uma admiração pessoal e profissional muito grande. A trajetória profissional dele é incrível desde o começo, no Ipatinga, quando ele ganhou aqueles títulos todos. Conheço ele há muito tempo e aprendo muito com ele.

Quais os desafios encontrados em Luanda?

O grande desafio é a cidade. É uma cidade que se movimenta o tempo inteiro, tem um trânsito muito intenso e um clima muito quente. Ainda estou tentando me adaptar a isso. Mas também há muitos pontos bons. A culinária é muito parecida com a brasileira, o povo é muito receptivo e também parecido com o brasileiro. Em relação ao futebol, existem as suas particularidades. Usa-se muita força e velocidade, e a escola brasileira é de mais técnica e criatividade. Minha ideia é unir a característica do futebol angolano com alguns pontos da escola brasileira.

Angola disputou a Copa do Mundo em 2006, mas de lá pra cá, o nível caiu. Apesar do Kabuscorp contratar Rivaldo e o futebol ser cada vez mais popular, o país não tem conseguido bons resultados, seja no âmbito da seleção, seja no âmbito dos clubes. Quais são os problemas do futebol angolano?

É a continuidade de um treinador no futebol angolano. De 2006 pra cá, a seleção teve oito treinadores diferentes. Isso complica o trabalho quando se comanda uma seleção. O futebol angolano tem se renovado e tem muita gente boa, aqui no Atlético Petróleos, cinco garotos do júnior já estão com a gente, sendo que dois estão negociados com clubes do exterior. Um com um clube da África do Sul, o Super Sport, que é patrocinado pela TV, de mesmo nome, e outro com um clube da Itália, que não posso revelar qual é. Ou seja, tem potencial e gente boa, a renovação também é boa, mas o principal problema do futebol angolano é a continuidade.

E no continente? Quais são os problemas do futebol africano e no que o esporte mais precisa evoluir?

O futebol brasileiro vivia o mesmo problema 10 anos atrás. A maioria dos clubes não tinha centros de treinamento com estrutura, e muitos clubes evoluíram nisso nos últimos anos. Aqui na África falta essa estrutura. Faltam Centros de Treinamentos, academia, enfim, uma estrutura profissional. Isso não é realidade dos clubes aqui. Talento tem de sobra, mas falta estrutura.

Isso passa pela falta de investimento ou é outro problema?

Acho que é mais uma questão de ineficiência e atividade administrativa. Falta a visão de perceber a importância disso. Alguns clubes tem investidores. Falta mudar a mentalidade. Os dirigentes do futebol africano e as federações precisam ter um pensamento mais profissional.

Já viveu alguma história curiosa em Luanda?

AG: Já, e foi em um jogo-treino [risos]. O jogador angolano, por incrível que pareça, treina em alta intensidade. Parece que cada treino é uma final de Copa do Mundo. É até difícil segurar o ímpeto deles nos treinos. Teve um jogo-treino aqui na pré-temporada que nem acabou, porque eles entraram com muita vontade em todas as bolas e o árbitro terminou a partida antes da hora pra não ter problema.

Para você que está vivendo na África, como é o calor da torcida africana? Pela televisão e internet, a sensação que eles passam é incrível.

É realmente incrível e não tem igual. A torcida é muito participativa e vibra com cada jogada e drible, passes bonitos. Qualquer jogada é uma festa. Na final da Supertaça entre nós e o Kabuscorp, tinham 45 mil pessoas no estádio e cada jogada que acontecia era uma vibração incrível no estádio. Eles vão todos fantasiados e é uma grande festa. É bem parecida com a nossa, a diferença é que no Brasil, vez ou outra, a nossa torcida fica mais passiva. Aqui, é um verdadeiro Carnaval. Uma festa.

O que espera dos africanos na Copa do Mundo?

AG: Espero que possam ser grandes surpresas e que uma das seleções possa se classificar e fazer uma boa campanha no Mundial, como Gana fez em 2010. Eu acho isso possível, apesar dos grupos difíceis, porque a Copa do Mundo é um torneio de tiro curto e torço para que isso aconteça. Além disso, Gana, Nigéria e Costa do Marfim tem bons times. O continente precisa de boas campanhas na Copa do Mundo para seguir evoluindo no futebol.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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