Engravatados em ação

A receita não é nova. Na última vez em que um clube ousou desafiar a força das equipes do Norte do continente na Liga dos Campeões, ele contava com apoio político. O nigeriano Enyimba, campeão do torneio em 2003 e 2004, construiu a sua breve hegemonia graças ao investimento do empresário Orji Uzor Kalu, então governador do estado de Abia, sede do time. O magnata não poupou esforços para criar uma estrutura que tornasse possível bater em campo adversários como Ismaili e Étoile du Sahel.
Na edição deste ano da LC, a história se repete. Heartland e TP Mazembe começam a decidir o título do campeonato neste domingo e mostram mais uma vez que, para superar os rivais da faixa árabe africana, é preciso “algo mais”. Por “algo mais”, a julgar pelos exemplos conferidos nesta década, pode-se entender força de bastidores e dinheiro, muito dinheiro por trás do clube. Só assim para se relativizar a desorganização e os escândalos que costumam afetar essa parte do continente.
Naquele que já vem sendo chamado de “O encontro dos titãs da região sul da África”, não falta amparo político. O Heartland, como já mencionado outras vezes, pertence ao governo do estado de Imo, que trata a equipe com toda a atenção possível, como forma, também, claro, de propagar para outros lugares as suas atrações locais. Os Naze Millionaries seguem à risca o modelo lançado pelo Enyimba e contam com a torcida de todo um país para trazer a competição de volta para a Nigéria.
Nessa tarefa, o time terá um desfalque importante. O prodígio Stanley Okoro, de apenas 17 anos e três gols marcados nesta Liga dos Campeões, está fora da decisão. Foi convocado para a seleção sub-17 e está representando o país no Mundial disputado em casa. O campeonato nacional parou em virtude da competição, mas, como a LC não adotou – e nem deveria, a mesma postura, Okoro estará ausente nos dois jogos.
No TP Mazembe, percebe-se uma empolgação maior. Os alvinegros congoleses estão confiantes no título e fretaram, por conta própria, um avião para que seus torcedores possam apoiar o time na primeira partida da final, na Nigéria. Tudo, claro, bancado pelo governador da província de Catanga, o bilionário Moise Katumbi. O cartola investiu, ainda, na organização de um triangular preparatório no Zimbábue, onde a equipe treinou antes de viajar para a Nigéria.
A única preocupação no momento é controlar a ansiedade que já vem tomando conta do clube nesta fase. Começam a surgir boatos de um possível desmanche e indicando a contratação de jogadores para a próxima temporada. Esse clima repercute dentro de campo e resultou na derrota para o Al Hilal, diante dos torcedores, no confronto de volta das semifinais. O time sofreu dois gols e perdeu invencibilidade que a sua defesa vinha mantendo, dentro de casa, desde a fase de grupos. Não foi vazada nem uma só vez durante esse período.
Além do título e da vaga no Mundial de clubes da Fifa, estará em jogo também a premiação de 1,5 milhão de dólares para o campeão. Mas, convenhamos: com donos tão ricos e poderosos, será que Heartland e TP Mazembe ligam mesmo para esse dinheiro?
O décimo quinto da lista
Desde 1992, quando a Fifa anunciou a volta da África do Sul ao futebol internacional, já entraram e saíram do comando da seleção 15 treinadores. Joel Santana foi o último deles e não deixará saudades. Ainda assim, ninguém, nem mesmo ele, esperava por uma demissão tão repentina. Sem nem mesmo aguardar pelo relatório da comissão de observadores e rompendo com o que havia sido relatado em um comunicado recente da própria Safa, que afirmava que a culpa pelo jejum de vitórias não era apenas de Joel.
De qualquer forma, e não se pode fechar os olhos para isso, a demissão viria mais cedo ou mais tarde. O clima para a sequência do trabalho era insustentável e, como apontado pelo colega Leonardo Bertozzi no blog, os sul-africanos não prezam tanto assim por planejamento. Em 1998 e 2002, também demitiram técnicos pouco antes do início de um Mundial. O sul-africano Jomo Sono e o moçambicano Carlos Queiroz foram as vítimas.
Para o lugar de Joel, a imprensa e os torcedores locais desejavam, em boa parte, um treinador do próprio país. Gavin Hunt e Clive Barker, membros do grupo de observação, manifestaram interesse em ocupar o cargo. Uma atitude oportunista e já esperada. Desde o início, estava claro que eles aguardavam apenas a queda de Joel para assumir o seu posto. Acabaram frustrados, assim como o restante do país que torcia para uma solução caseira.
O substituto escolhido, como já esperado, acabou sendo Carlos Alberto Parreira. Ninguém ousou chamá-lo de “Mr. Nobody”, até porque essa não é a sua primeira passagem pela África do Sul, mas a reação à sua contratação não foi tão positiva assim. O último boato dá conta de que o seu retorno teria sido motivado por uma sugestão da Fifa, que está preocupada com o que os anfitriões mostrarão daqui a poucos meses na Copa.
Com o aval da Fifa ou não, alguns dirigentes sul-africanos acreditam, mesmo, que Parreira é o nome certo para colocar as coisas no lugar nos Bafana Bafana. Discordo totalmente dessa visão e repito o que já disse a colegas da África do Sul nesta semana: Parreira é um técnico ultrapassado, provou isso em seus últimos trabalhos e acrescentou muito pouco durante a sua passagem anterior. Pode até ajudar na reestruturação do futebol local; na preparação do time para a Copa, não.



