África

Egito mergulha em crise e o futebol não fica alheio

A exemplo de 2011, quando o ditador Hosni Mubarak foi deposto, o Egito vive uma forte crise política. O presidente Mohamed Morsi, eleito democraticamente no ano passado, foi derrubado em um golpe militar após protestos que reuniram milhões de pessoas nas ruas. O exército assumiu a liderança do país e nomeou um governo de transição, prometendo convocar novas eleições dentro de seis meses. No entanto, as manifestações realizadas por partidários e opositores de Morsi tem criado um forte clima de tensão, resultando inclusive em alguns mortos.

Enquanto a instabilidade e a violência se intensificam no Egito, obviamente o futebol não está alheio a tudo isso. O massacre em Port Said no ano passado já havia sido um duro golpe, forçando a paralisação do futebol local (e consequentemente o cancelamento do Campeonato Egípcio) por um ano. No mês de fevereiro, as atividades foram retomadas e a liga iniciou sua nova temporada. No entanto, o futebol egípcio está de volta à estaca zero: diante da crise que assola o país, os clubes locais concordaram em cancelar a temporada do campeonato local pelo segundo ano consecutivo.

A liga caminhava para a fase semifinal, na qual os quatro classificados já estavam definidos: Al Ahly e ENPPI pelo Grupo A e Zamalek e Ismaily pelo Grupo B. A Federação Egípcia de Futebol (EFA) decidiu declarar Ahly e Zamalek, que lideraram seus respectivos grupos, como os campeões desta temporada. Dos 18 clubes da elite, apenas Zamalek, que estava invicto, e o ENPPI não concordaram com o cancelamento da competição.

Diante da incógnita que paira sobre o futebol egípcio, o futuro dos clubes locais é preocupante. Mesmo antes do cancelamento da liga, com exceção do Al Ahly, todos os clubes já enfrentavam uma enorme crise financeira – até mesmo o gigante Zamalek. Com o bloqueio das receitas de televisão e patrocínio, muitos deles já se veem novamente sem nenhuma fonte de renda. Até mesmo o Ahly, tido como o “milionário” do país, se vê obrigado a cortar gastos. A diretoria do clube propôs que os jogadores reduzissem seus salários em até 25%, fato que gerou revolta entre os atletas.

Com a derrocada de Morsi, muitos ministros renunciaram aos seus cargos, incluindo o de esporte, El-Amry Farouk. Nesta segunda-feira, foi definido que Taher Abouzeid, campeão da CAN de 1986 com o Egito, assumirá o Ministério do Esporte. Diante da impossibilidade do exército em garantir segurança nos jogos realizados no país, o ex-jogador terá trabalho em criar medidas para manter a sustentabilidade dos clubes.

Pra piorar ainda mais a situação, a Liga dos Campeões Africana começa no próximo fim de semana e Al Ahly e Zamalek se enfrentam já na primeira rodada. As autoridades egípcias decidiram transferir o jogo para a bela cidade de El-Gouna, construída em 10 km de praia e que se espalha entre ilhas e lagoas.

O ministério do Interior do Egito ordenou que a partida seja realizada com portões fechados, mas os ‘Ultras’ de Al Ahly e Zamalek já comunicaram que estarão no estádio. Na última rodada do Campeonato Egípcio antes do cancelamento, os Ultras dos dois clubes já haviam desafiado ordens das autoridades e compareceram aos estádios para apoiarem suas respectivas equipes, fazendo uma linda festa e sem violência. Na ocasião, as autoridades foram ordenadas a não entrarem em confronto com os torcedores, o que provavelmente se repetirá no próximo fim de semana.

Existe uma temeridade por um novo massacre em um estádio de futebol, mas o comportamento exemplar dos torcedores (especialmente os dos grandes clubes da capital, Al Ahly e Zamalek), deixando a rivalidade de lado e se unindo por uma causa, só prova que o que aconteceu em Port Said foi orquestrado e não teve nada a ver com o ódio entre torcidas. O fato é que o futebol egípcio vive um novo período de incerteza. Neste momento, o principal esporte do país parece ser um reflexo de sua sociedade: tenta encontrar seu rumo, mas não alimenta qualquer expectativa de estabilidade.

Curtas

– Com a vitória sobre o Iraque por 3 a 0, Gana fechou o Mundial Sub-20 em 3º lugar. A campanha acima das expectativas na Turquia coroou uma geração que deve abastecer a seleção principal com muita qualidade nos próximos anos. O atacante Assifuah, com seis gols, foi o artilheiro da competição. Ele, Acheampong e o “caçula” Aboagye, de apenas 18 anos, são as principais promessas dessa safra.

– Uma delegação de Guiné-Equatorial desembarcou no Brasil nesta semana para acompanhar o enterro do zagueiro Rincón, brasileiro naturalizado guinéu-equatoriano que morreu após contrair malária em compromisso com a seleção no país africano.

– A federação vai arcar com os custos do funeral e comprar a casa onde vivia o zagueiro, em Sorocaba. Diouzer e Danilo, outros brasileiros da seleção que também contraíram malária e já se recuperam (Danilo ainda está no hospital), também serão acompanhados pela delegação guinéu-equatoriana. Dio está em Belo Horizonte e Danilo no Rio Grande do Norte.

– A Liga dos Campeões Africana começa no próximo sábado e o Coton Sport (Camarões), que está no Grupo B, não poderá atuar. Tudo porque a Federação Camaronesa de Futebol (FECAFOOT) foi suspensa por tempo indeterminado pela Fifa por interferência do governo na entidade.

– Enquanto a suspensão não é revogada, tanto a seleção quanto os clubes do país não poderão disputar competições nacionais ou internacionais, nem mesmo amistosos. É provável que o Sewé Sport (Costa do Marfim), adversário do Coton Sport na estreia, ganhe a partida por W.O.

– Oussama Darragi está de volta ao Espérance. O camisa 10 da seleção tunisiana e ídolo do clube assinou por dois anos após uma aventura sem sucesso no futebol suíço. Darragi será o protagonista de uma equipe bem diferente daquela com a qual conquistou a Liga dos Campeões em 2011, que tinha, entre outros, os talentosos Youssef Msakni e Yannick N’Djeng.

– Sensação do futebol africano, a Etiópia continua exportando jogadores da safra que pode classificar o país pela primeira vez para uma Copa do Mundo. Depois do volante Addis Hintsa migrar para o Al Ahly Shendy, do Sudão, outros três jogadores da seleção já deixaram o país.

– O meio-campista Asrat Megersa vai jogar na Europa. Ele foi contratado pelo Ironi Nir Ramat HaSharon, de Israel. Getaneh Kebede, atacante, viajou para a África do Sul e deve assinar com o Bidvest Wits. Já o promissor Shimeles Bekele foi contratado pelo Al-Ittihad, maior clube da Líbia.

– Shola Ameobi, atacante do Newcastle, deve ser a principal novidade nas próximas convocações da Nigéria. O técnico Stephen Keshi revelou que a cláusula no contrato do atacante que o impedia de atuar pela seleção (motivo pelo qual ficou de fora da CAN 2013) foi removida e ele já está novamente liberado a atuar pelas Super Águias. Outra novidade deverá ser o retorno do também atacante Obinna Nsofor.

– Diego Maradona recusou a oferta do Raja Casablanca para ser conselheiro e embaixador do clube. O Raja, atual campeão nacional e com presença garantida no Mundial de Clubes do fim do ano, tinha como objetivo usar a imagem do argentino para expandir sua marca no exterior. Por outro lado, os marroquinos anunciaram a contratação do bom meia Déo Kanda, do Mazembe.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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