África

E o público vai chegando

Desde que a África do Sul foi confirmada como sede da Copa do Mundo de 2010, instaurou-se ao redor do país um temor em torno de sua capacidade de organizar um evento de tamanha magnitude. Por diversas vezes, ele foi mesmo justificável, pois não se poderia ignorar que algumas coisas não estavam andando dentro do esperado. A construção dos estádios é um exemplo, e esteve quase sempre no centro de especulações que davam conta de possíveis planos B da Fifa para a mudança de local do torneio.

No fim das contas, mesmo que um dos palcos não vá ficar pronto para a Copa das Confederações – sendo por isso excluído do campeonato, parece que tudo irá acabar bem nesse sentido, com todas as praças em perfeitas condições para receber as seleções. Passada essa fase de dúvidas, porém, vem outra, e que também está relacionada aos estádios. Tudo muito bonito, nos trinques para receber os torcedores, mas peraí: onde estes estão se escondendo? É, meu caro, o desafio agora será atrair as pessoas para curtir um bom jogo nas arquibancadas. Um obstáculo atrás do outro, porém, quem falou que seria fácil, né?

Pois bem, nesse início de ano, a Fifa adotou uma postura mais crítica em relação aos dirigentes sul-africanos. Suas queixas eram voltadas basicamente para uma suposta falta de empenho dos cartolas locais na divulgação das competições que o país receberá nesta e na outra temporada. E mais uma vez, elas se justificavam. Em meados de março, com cerca de três meses até a Copa das Confederações, somente 200 mil dos 640 mil ingressos disponibilizados para o torneio haviam sido vendidos. Ou seja, a expectativa, naquela altura, era de casa vazia para partidas envolvendo seleções de renome como Brasil, Itália e Espanha.

Alguma coisa precisava ser feita. E as autoridades fizeram. Voltaram atrás em algumas de suas idéias e liberaram, por exemplo, a compra de quantidades ilimitadas de bilhetes por empresas e torcedores. Em contrapartida, exigiram destes o compromisso de não revendê-los no mercado. Com essa medida, algumas multinacionais já se animaram a apoiar a causa. Foi o que fez, nesta semana, a Investec, gestora de fundos mais conhecida por sua ligação com esportes como críquete e rúgbi que, de uma só vez, garantiu 50.000 ingressos para distribuir entre seus funcionários e a população carente. Como resultado de movimentos como esse, o número de entradas negociadas cresceu bastante, passando agora da casa de 320 mil.

Empolgados, os dirigentes sul-africanos planejam encerrar as vendas em duas semanas, assegurando, assim, arquibancadas cheias em todos os jogos da Copa das Confederações. Nesse trabalho, vale ressaltar, contaram com a ajuda de diversas personalidades do país e, ainda, com a participação de estrelas do futebol mundial como Kaká e Fernando Torres. Somente após a entrada dessas figuras no jogo, motivada pela pressão da Fifa, é que as coisas começaram, de fato, a andar. Como se vê, foi preciso um empurrãozinho dos “suíços”.

As explicações para a falta de interesse dos sul-africanos no torneio são as mais variadas, cabendo ressaltar aqui duas delas. A primeira tese defendida com mais afinco pelas autoridades está na cultura dos torcedores locais em comprar ingressos apenas na última hora, tal como ocorre no Brasil. A outra apela para o pouco prestígio que seleções como Iraque e Nova Zelândia possuem junto aos fãs. Mais ou menos resolvidas essas questões, resta aguardar pelo resultado desse aguardado teste para a Copa do Mundo.

Solo infértil

Até a década de 90, apregoava-se por aqui que os times brasileiros não tinham tanto interesse na Taça Libertadores. Do mesmo mal parecem padecer os clubes sul-africanos. Essa é a conclusão que a imprensa local vem tendo após o país ter ficado sem nenhum representante na segunda fase da Liga dos Campeões. Supersport United e Ajax Cape Town foram ambos eliminados, no começo do mês, por KCC e Monomotapa, campeões nacionais de Uganda e Zimbábue, respectivamente.

É difícil entender como a liga mais rica do continente não consegue emplacar uma boa campanha no torneio. Nos registros da história, somente o Orlando Pirates, vencedor em 1995, e o Mamelodi Sundowns, vice em 2001, se saíram bem na LC. Nas demais edições do torneio, vexames e mais vexames. Cenário que, de certa forma, aceite-se ou não, acaba repercutindo no crescimento da seleção comandada por Joel Santana. Afinal de contas, se os sul-africanos que jogam na Europa não gozam de tantos minutos em suas equipes, uma boa alternativa para se adquirir experiência internacional seria por meio da competição continental.

Tanto jogadores como clubes locais não veem a situação dessa forma, aparentemente. Contentam-se, por outro lado, com o prestígio e o dinheiro que adquirem nos torneios nacionais. Esse é um detalhe que ficou evidente na desclassificação do Supersport, acusado de preterir a Liga dos Campeões em favor da briga pelo bicampeonato sul-africano. Com esse tipo de atitude, só se reforça pelo continente a idéia de que os clubes do país são caseiros – nesse sentido, também contam pontos as desistências que, não raro, esses mesmos times protagonizam. Papelões.

Ainda assim, existe esperança no panorama atual. E ela atende pela chegada de novos dirigentes nas equipes. O bilionário Patrice Motsepe é um exemplo. Como já decantado nesse espaço em diversas ocasiões, ele se tornou dono do Mamelodi Sundowns com o sonho de levar o clube ao título da LC. Até agora, mesmo após tantos investimentos, não conseguiu. Mas o objetivo de alcançá-lo segue vivo e, quem sabe, não possa contagiar os rivais, tornando, assim, cada vez mais forte um campeonato que já vem crescendo nos últimos anos.

Nos demais confrontos da Liga dos Campeões, outras zebras marcaram presença. Club Africain, Asante Kotoko, FAR Rabat, Canon Yaoundé, JS Kabylie e Africa Sports foram as vítimas e se despediram mais cedo do torneio. Bichos papões como Al Ahly, Étoile du Sahel e Asec Mimosas, além de candidatos a surpresa como Al Hilal e Coton Sport, seguem vivos na disputa. Eles entram em campo na busca por uma vaga na fase de grupos, no fim de semana.

Burrice

A história de Amr Zaki já é mais ou menos conhecida. Grande estrela do Zamalek, brigou por anos para retornar à Europa depois de uma passagem mal sucedida pelo Lokomotiv Moscou. Queria provar a todos o seu valor e não aceitava a postura de seu clube, que pedia alto por sua transferência e tentava mantê-lo a todo custo no Cairo. Finalmente, em agosto passado, os dirigentes se renderam aos apelos do atacante e o emprestaram para o Wigan, da Inglaterra.

O impacto inicial de Zaki foi estrondoso. Em seus 13 primeiros jogos, marcou nove gols, alcançando a artilharia da Premier League. Logo, começaram a surgir boatos em torno de sua negociação com times como Barcelona, Real Madrid e Liverpool. Na janela do inverno europeu, no entanto, nenhuma conversa nesse sentido avançou e ele permaneceu nos Latics. Mas, diferentemente de seu primeiro semestre na Terra da Rainha, perdeu o gosto pelas redes e começou a cair em desgraça com os cartolas locais por conta de suas atitudes fora de campo.

O estopim parece ter sido os acontecimentos que cercaram a sua participação na última partida da seleção egípcia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Em campo, teve supostamente um entrevero com o companheiro de clube Mido. Fora dele, atrasou-se em mais de uma semana para retornar à Europa e, quando o fez, na véspera do jogo contra o Arsenal, foi visto numa boate. Tudo isso bastou para que o treinador do Wigan, Steve Bruce, chegasse a uma conclusão: Zaki é o atleta menos profissional com que ele trabalhou em toda a sua carreira.

Ao longo de sua trajetória na Inglaterra, o goleador já soma quatro multas, tendo a última delas atingido o teto permitido pela federação local. Com um comportamento como esse, Zaki está certamente fechando uma porta no Velho Continente e encurtando, assim, o sonho pelo qual tanto lutou. Ou seja, burrice. De que adiantou brigar tanto no Zamalek para chegar ao Wigan e se portar dessa maneira? A resposta é óbvia: nada.

O histórico do jogador no Egito já não era dos melhores. Pelos Cavalheiros Brancos, ele já havia protagonizado uma série de confusões, com farsas de lesões, atrasos e confrontos com colegas e dirigentes. Por isto tudo, foi até uma surpresa ele ir tão bem em seus primeiros meses no Wigan. Agora, no entanto, vem mostrando a sua verdadeira cara e deixando exposta uma realidade cada vez mais evidente: os jogadores egípcios não sabem agir profissionalmente. Estão acostumados a uma situação em seu país condescendente com esse tipo de atitude. Não por acaso, a lista de jogadores que não vingaram no futebol europeu é longa. Ghaly, Ibrahim Saied, Tarik Al-Saied, Hossam Hassan…

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Equipe Trivela

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