África

É bacana notar a relação de Steven Caulker com Serra Leoa e seu desejo por atuar pelo país de seu avô

Aos 29 anos, a antiga promessa do Tottenham deu uma entrevista interessante sobre a chance de disputar a Copa Africana com Serra Leoa

Steven Caulker é uma das muitas promessas do futebol que nunca realmente estouraram na carreira. O zagueiro formado pelo Tottenham até conseguiu certo destaque no início da trajetória, com um bom empréstimo pelo Swansea, antes de retornar em alta para os Spurs. Disputou os Jogos Olímpicos de 2012 com o Reino Unido e, em novembro daquele ano, ganhou a chance de estrear pela seleção inglesa principal. O defensor de 20 anos marcou até gol na derrota por 4 a 2 para a Suécia, lembrada pela antológica bicicleta da intermediária de Zlatan Ibrahimovic. Depois disso, Caulker nunca mais voltou à equipe nacional. Também não vingou na Premier League. Hoje, aos 29 anos, tenta conseguir uma aprovação da Fifa para defender a seleção de Serra Leoa, terra de seu avô e com a qual tem uma relação bastante interessante.

Durante o início de sua carreira, Caulker foi uma figurinha carimbada nas seleções de base. O zagueiro disputou os Campeonatos Europeus Sub-19 e Sub-21 com a Inglaterra, além dos Jogos Olímpicos com Team GB. Já no nível principal, atuou no amistoso diante da Suécia, titular na equipe de Roy Hodgson, e acumularia convocações até março de 2014, reserva inclusive em jogos das Eliminatórias. Como não disputou duelos competitivos e só entrou em um amistoso, Caulker estaria apto para trocar de seleção mesmo nas regras antigas da Fifa. Convidado por Serra Leoa às vésperas da Copa Africana de Nações, ele aguarda apenas uma aprovação da entidade internacional. E, mesmo atuando num clube modesto da Turquia, seria um reforço tremendo para a seleção por sua experiência. Aliás, faria isso com maior gosto, como revelou à BBC.

“Meu avô paterno era de Serra Leoa. Ele me contou suas histórias quando eu era mais jovem. Quando eu estava grande o suficiente e tinha dinheiro o suficiente, fui visitar o país. Andei pelos lugares onde ele cresceu, passei algumas noites em vilas locais e também algumas noites em cidades como Kambia, Bo e Freetown. Sinto uma conexão com o país, então, para mim, ter essa oportunidade agora de representar a seleção é uma grande honra”, contou Caulker.

Caulker revelou, inclusive, como manteve projetos sociais em Serra Leoa durante os últimos anos: “Visitei Serra Leoa várias vezes no passado e construí uma escola em Kambia. Meu plano, desde os 19 anos, era retribuir algo à África, em particular a Serra Leoa. Estou fazendo isso e meu plano é construir mais escolas. Ajudei o país durante a epidemia de Ebola [de 2014 a 2016], então essa é outra parte revigorante da minha jornada”.

Apesar de começar na base do Tottenham, Caulker rodou um bocado desde o início da carreira. Chegou a jogar emprestado por Yeovil Town e Bristol City, antes de viver uma ótima temporada com o Swansea em 2011/12. Continuou em alta no reinício nos Spurs, mas perdeu espaço ao longo de 2012/13. Assim, seria vendido ao Cardiff e depois ao QPR, titular nas duas equipes na primeira divisão. Desde então, a carreira do defensor não mais se firmou na elite do Campeonato Inglês. Ele teve problemas com álcool e vício em jogos, enfrentando inclusive uma depressão.

Caulker acumulou empréstimos por Southampton e Liverpool, sem emplacar. Militou pelo QPR na segundona inglesa, até passar brevemente pelo Dundee FC na segundona escocesa – quando, por conta da nacionalidade de sua avó, chegou a manifestar o desejo de atuar pela seleção local. De qualquer forma, o moral do inglês só se recuperou após sua mudança à Turquia em janeiro 2019. Fez duas boas temporadas com o Alanyaspor e chegou a ser vendido ao Fenerbahçe neste ano, mas acabou renegociado sem nem estrear e assinou com o Gaziantep FK, onde realiza uma campanha de meio de tabela na Süper Lig.

O convite feito pela federação de Serra Leoa aconteceu neste contexto. O zagueiro voltou a ter uma boa sequência no Campeonato Turco, ao mesmo tempo em que a seleção conquistou sua classificação para a Copa Africana de Nações, de volta ao torneio pela primeira vez desde 1996. Assim, Caulker poderá se tornar uma referência da equipe, não apenas por sua fase, mas também pela experiência adquirida. Neste mês de outubro, ele foi chamado para amistosos, já que a equipe não está presente na fase decisiva das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Ainda que aguarde a permissão da Fifa, até atuou numa partida não-oficial, contra um combinado marroquino.

“Tive algum tempo para pensar na possibilidade de jogar por Serra Leoa, o que se sente, o que isso parecerá. Joguei pela Inglaterra com 20 anos, mas, desde então, não atuei mais. A chance de ir para Serra Leoa e jogar a CAN, de apoiar o país nesse momento empolgante, tornou minha decisão fácil de tomar. Estou feliz por fazer isso”, afirmou.

“Estive com a equipe por alguns dias em Marrocos e assisti a dois amistosos, contra Sudão do Sul e Gâmbia. Acho que temos muitas qualidades. Temos um treinador jovem, uma boa formação e vários rapazes que estão famintos por ter sucesso com a seleção. Quero ser parte disso e espero que tenhamos sucesso na Copa Africana. Todos sabemos que será difícil, mas acredito no time, no nosso treinador, e estamos trabalhando duro para nos prepararmos ao torneio. Fora de campo, espero inspirar crianças ao redor do mundo – em particular, em Serra Leoa – para jogar futebol e sentir a alegria que todos temos ao colocar a camisa da seleção”, complementou.

Por fim, Caulker ainda comparou a chance de jogar a CAN com sua presença nas Olimpíadas: “É engraçado porque, desde que tomei minha decisão de jogar por Serra Leoa, meu pai fez comparações entre as Olimpíadas e a Copa Africana. Como ele me disse, olhando para trás, os Jogos de Londres foram uma experiência fantástica, mas a CAN pode ser ainda melhor. Acho que vai ser ótimo, ainda mais depois desses tempos duros de pandemia. Estou empolgado, assim como minha família, espero que tenhamos sucesso”.

Serra Leoa está no Grupo E da Copa Africana e tentará correr por fora na chave que também reúne Argélia, Costa do Marfim e Guiné Equatorial. A equipe disputará o torneio continental apenas pela terceira vez, após cair na fase de grupos em 1994 e 1998. Ocupando o 108° lugar no Ranking da Fifa, a seleção é treinada por John Keister, antigo jogador da equipe nacional que também nasceu na Inglaterra e fez carreira em clubes menores da Football League. Já o elenco atual se concentra basicamente na liga local, com raros jogadores presentes no exterior. Um dos destaques é o defensor Umaru Bangura, de 34 anos, que atua na Suíça. Já a referência técnica é o rodado Kei Kamara, atacante de 37 anos que fez sua fama na MLS, mas atualmente joga no IFK da Finlândia. Alhaji Kamara e Mustapha Bundu são outros destaques no ataque despontando na Dinamarca.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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