África

Do inferno ao céu

Imagine uma equipe que não disputa qualquer partida pelo campeonato nacional desde fevereiro. Uma equipe que, consequentemente, sofre com a falta de competitividade para se manter em forma. Uma equipe que perdeu um técnico que é praticamente um mito no clube na metade do ano. Uma equipe que viveu de perto a maior tragédia de todos os tempos no futebol do país. E que, nove meses depois, superou esses e muitos outros obstáculos para consolidar sua hegemonia continental. Esta é a trajetória do Al Ahly, heptacampeão da Liga dos Campeões Africana. Um recorde absoluto.

Talvez este não seja o maior título da história dos Diabos Vermelhos, mas com certeza é o mais simbólico. Depois de todos os desdobramentos em Port Said, quem poderia imaginar esta reviravolta em tão pouco tempo? Se não foi o melhor time do torneio, sem dúvida alguma foi o mais aguerrido. Uma equipe que lutou por cada um dos mártires de Port Said. Uma equipe, acima de tudo, acostumada a decisões. Contar com jogadores do calibre de Gomaa, Ghaly, Aboutrika e tantos outros pesou na hora decisiva.

Contra todos os prognósticos, o Al Ahly foi superior nos dois jogos da decisão contra o Espérance. No jogo de volta, na Tunísia, o time mandante mais uma vez adotou a estratégia de chamar o adversário para o seu campo. No entanto, a execução não seria fácil. Derbali, titular absoluto na lateral-direita, e Afful, válvula de escape do time pelo flanco direito, estavam suspensos. Traoui, volante titular, não se recuperou de uma lesão. E Msakni, o melhor jogador do time, passou recentemente por uma apendicite e mesmo assim foi para o jogo, no sacrifício.

O Al Ahly, mais arrojado, vinha com uma novidade interessante: Aboutrika, ídolo do clube, foi para o banco. Em seu lugar entrou Hamdy, que havia dado boa movimentação ao time no jogo de ida. No 4-4-2, o Al Ahly tomou as rédeas do jogo, explorando principalmente o lado direito da defesa do Espérance, enfraquecido com a presença de Zouaghi. Foi por aquele lado que os egípcios construíram a jogada do primeiro gol do jogo, nos minutos finais do primeiro tempo, marcado por Gedo. Por sinal, o autor do gol do título da CAN 2010 mostrou porque é o artilheiro das decisões: nos últimos quatro jogos do Al Ahly na competição, anotou quatro gols.

A situação mudou completamente de figura, pois o Espérance é quem precisaria se lançar ao ataque em busca de um gol. Isso inexplicavelmente não aconteceu. Em um contra-ataque mortal, Soliman marcou o segundo gol e silenciou os mais de 30 mil torcedores que preparavam uma grande festa em Radès. N’Djeng diminuiu nos minutos finais, e precisando de mais dois gols, o Espérance esteve mais próximo de sofrer o terceiro. Ben Cherifia, um dos alentos do time tunisiano nos dois jogos, defendeu um pênalti cobrado por Aboutrika.

E pra quem acha que o craque egípcio não foi decisivo, não custa lembrar: o Al Ahly esteve próximo de ser eliminado ainda na fase de qualificação, contra o Stade Malien. Perdeu em Mali por 1 a 0 e saiu perdendo o jogo de volta pelo mesmo placar. Foi quando Aboutrika apareceu e, com todo o seu repertório, simplesmente marcou todos os três gols que classificaram o time para a fase de grupos. Se convertesse o pênalti na decisão, seria o único jogador na história a marcar gols em quatro finais de Liga dos Campeões. Um monstro.

O Japão é logo ali, como diria Fernando Vanucci, e o Al Ahly está determinado a alcançar pela primeira vez a final do Mundial em sua quarta participação, um recorde neste novo formato do torneio. Até lá, no entanto, a prioridade é outra: voltar a disputar o Campeonato Egípcio. Os Ultras do clube seguem resistindo à ideia enquanto não seja feita justiça aos mortos em Port Said – o que na verdade não faz nenhum sentido, afinal, o futebol inglês não parou por conta do desastre de Hillsborough e as medidas necessárias foram tomadas, por exemplo.

Em todo caso, o que importa é que a paz momentaneamente foi reestabelecida. Nabil Maaloul, técnico do Espérance, disse antes da decisão que “uma final não se joga, se ganha”. Pois o Al Ahly jogou e ganhou. E provou que, mesmo em tempos difíceis, se não é o melhor, ainda é o maior clube da África.

Curtas

– Minha seleção da LC no 3-4-3: Ben Cherifia (Espérance); Gomaa (Al Ahly), Hichri (Espérance), Sunzu (Mazembe); Mouelhi (Espérance), Ghaly (Al Ahly), Mputu (Mazembe), Aboutrika (Al Ahly); Msakni (Espérance), Gedo (Al Ahly), Clottey (Berekum Chelsea). Técnico: Hossam El-Badry (Al Ahly).

– Jogando em Bamako, capital de Mali, Djoliba e AC Léopards empataram o primeiro jogo da decisão da Copa da Confederação Africana: 2 a 2. Com este resultado, o Léopards conseguiu uma importante vantagem para se consagrar como a primeira equipe do Congo-Brazzaville a conquistar um título continental em 38 anos. O jogo de volta acontece no próximo sábado, em Dolisie.

– E após o fiasco na semifinal da Copa da Confederação Africana, o Al Hilal sacramentou o título do Campeonato Sudanês. Dependendo apenas de suas forças, a equipe derrotou o Al Ahli Wad Menani por 3 a 1 e garantiu o seu 27º título nacional, nove a mais que o arquirrival Al Merreikh. Nos últimos 42 anos, os dois gigantes do futebol do Sudão combinaram simplesmente 41 conquistas da liga local.

– Nada menos que 14 das 16 seleções que estarão na CAN 2013 (exceto Etiópia e Mali) disputaram amistosos internacionais nesta semana. Na Flórida, a Nigéria derrotou a Venezuela por 3 a 1 em grande exibição de Nosa Igiebor, com um golaço e uma assistência. Burkina Faso visitou RD Congo e venceu por 1 a 0, gol de Bancé cobrando pênalti.

– Em Lisboa, jogando diante de aproximadamente 100 pessoas (!!!), Gana derrotou Cabo Verde por 1 a 0 com ambas as seleções muito desfiguradas. Zâmbia mostrou força ao vencer a África do Sul por 1 a 0 em pleno Soccer City. Na saída do estádio, torcedores sul-africanos atiraram pedras no ônibus de Zâmbia e dois jogadores ficaram feridos (Felix Katongo e Mweene). Níger e Senegal empataram em 1 a 1.

– Fora de casa, a Costa do Marfim não teve piedade da Áustria: 3 a 0, gols de Ya Konan, Drogba e Lacina Traoré. Com gol de Adebayor, Togo bateu o Marrocos por 1 a 0 como visitante. A Argélia perdeu para a Bósnia por 1 a 0, enquanto a Tunísia caiu de virada para a Suíça por 2 a 1. Angola e Congo-Brazzaville ficaram no 1 a 1.

– Gabão, sem Aubameyang e fora da CAN 2013, recebeu Portugal em Libreville e empatou em 2 a 2. Já o Egito, outro que não disputará a competição continental do ano que vem, ficou no 0 a 0 com a Geórgia. Bob Bradley completou um ano no comando dos faraós com 19 jogos disputados: 12 vitórias, quatro empates e três derrotas.

– O Orlando Pirates, da África do Sul, suspendeu as atividades de suas categorias de base por conta de alegações de “gatos”. O coordenador da base do clube, Augusto Palacios, sempre negou qualquer irregularidade. O Pirates ganhou bastante notoriedade na base nos últimos anos, sobretudo na categoria sub-15, onde conquistou quatro edições da Copa Nike nos últimos cinco anos.

– Melhor jogador do último Campeonato Ganês, o meia Daniel Nii Adjei, do Asante Kotoko e também da seleção ganesa, transferiu-se para o Mazembe por uma quantia não revelada. É o primeiro grande reforço do clube congolês para a temporada 2013, talvez preparando-se para uma possível saída de Kalaba, especulado no Orlando Pirates.

– O Kabuscorp, ex-clube de Rivaldo, nomeou Eduard Eranosyan como o novo treinador da equipe. No entanto, o búlgaro ainda cumpre uma suspensão de quatro anos imposta pela Fifa em 2008, quando deu pílulas que continham um esteroide anabolizante aos jogadores do APOP Kinyras, clube cipriota que treinava até então. A suspensão expira em abril, enquanto o Girabola começa em março.

– Os líderes da Ligue 1 argelina, ES Sétif e USM El Harrach, foram derrotados na 11ª rodada. O Sétif perdeu para o ASO Chlef por 2 a 1, enquanto o El Harrach visitou o JSM Béjaïa e sofreu 2 a 0. As duas equipes lideram com 23 pontos, seguidas do próprio Béjaïa, com 21.

– Um dos maiores jogadores da história do futebol camaronês, o lendário Théophile Abega morreu aos 58 anos. Ele foi capitão de Camarões na Copa Africana de Nações de 1984, onde os Leões Indomáveis conquistaram o seu primeiro título continental. Neste mesmo ano, foi eleito o melhor jogador da África.

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